Editorial

Um Papa em perigo

Muito mais do que nos adversários externos é nos inimigos internos que residem as ameaças ao pontificado de Bergoglio.

“Uma pessoa que só pensa em construir muros, onde quer que sejam, e não em construir pontes, não é cristão”. A frase do Papa Francisco, proferida em Fevereiro do ano passado a bordo do avião que o levava de regresso a Roma após uma visita de seis dias ao México, não nomeava mas tinha um alvo certo: Donald Trump.

Steve Bannon, o ex-estratega do Presidente norte-americano, haveria de dar resposta à posição da Igreja Católica sobre a imigração e os refugiados ao classificar as motivações da Igreja como interesseiras. “Eles precisam de imigrantes ilegais para encher as igrejas. Eles têm interesse económico na imigração sem limites”, disse numa entrevista.

Foi assim que nos habituamos a ver o Papa Francisco. A dar a cara e a palavra na defesa de posições que, irremediavelmente, contrariam alguns dos sectores mais conservadores da sociedade. Em questões como a sexualidade, as migrações, o papel dos divorciados na Igreja, o ambiente, as críticas ao capitalismo, Francisco assumiu uma ousadia e uma modernidade que nos habituamos a ver como o rosto de uma Igreja em transformação.

Mas estávamos enganados. As posições de Francisco são só aquilo que pensa uma parte da Igreja Católica e nem sequer necessariamente a maior parte, especialmente se estivermos a pensar no clero e ainda mais especificamente se nos estivermos a referir à Curia Romana. Muito mais do que nos adversários externo é nos inimigos internos que residem as ameaças ao pontificado de Bergoglio.

As acusações de Carlo Maria Viganò de que Francisco tinha ajudado a encobrir os abusos sexuais de um cardeal norte-americano são a demonstração clara de que a guerra de sussurro nos corredores do Vaticano está cá fora e faz-se ouvir. Que estes ataques venham dos Estados Unidos, se calhar, não é uma coincidência, se nos lembrarmos que é também de lá que têm partido tentativas de federar algumas das forças políticas mais conservadoras.

Por isso é de saudar a coragem D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima, que enquadrou este último ataque numa “campanha organizada pelos ultraconservadores para ferirem de morte” o Papa. Por isso, será importante saber o que pensa disto tudo D. Manuel Clemente, a figura máxima da Igreja portuguesa. Esta é altura para os católicos escolherem com clareza em que lado da história é que um dia gostarão de vir a figurar.