Padres australianos recusam quebrar segredo da confissão para denunciar abusos sexuais

As autoridades australianas pediram à Igreja Católica para que denunciasse casos de abusos sexuais conhecidos em confissão, mas a instituição recusa-se a quebrar o "voto de fé".

George Pell é um dos clérigos mais prestigiados da Austrália. É acusado por "múltiplas" testemunhas de crimes de abusos sexuais
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George Pell é um dos clérigos mais prestigiados da Austrália. É acusado por "múltiplas" testemunhas de crimes de abusos sexuais LUSA/JOEL CARRETT

A Igreja Católica australiana rejeitou nesta sexta-feira que os sacerdotes quebrem o segredo de confissão para denunciar abusos sexuais cometidos por outros padres. A proposta consta das recomendações feitas por uma comissão de inquérito a estes crimes.

A Igreja australiana aceitou a quase totalidade das restantes propostas, diz a BBC, mas não a quebra do segredo da confissão por ser "contrária à fé".

"Estamos comprometidos com a salvaguarda das crianças e dos mais vulneráveis mas mantendo o segredo", disse num comunicado  a Conferência dos Bispos Católicos da Austrália. Este órgão diz estar aberto a explorar outras opções para lidar com os abusos, nomeadamente pedir ao Vaticano para fazer alterações à lei do celibato.

O inquérito, que demorou cinco anos a estar finalizado, concluiu que dezenas de milhares de crianças foram abusadas em instituições na Austrália, a maior parte delas católicas.

O inquérito ouviu 7% dos padres católicos na Austrália em funções entre 1950 e 2010 que foram acusados de crimes sexuais contra crianças. No país, também pelo menos 1100 vítimas apresentaram queixas por abusos sexuais a menores contra membros da Igreja Anglicana nos últimos 35 anos.

No inquérito foram ouvidas mais de oito mil testemunhas sobre abusos em escolas, igrejas e clubes desportivos - a maior parte dos perpretadores foram professores e padres católicos; nas conclusões são feitas 400 recomendações.

Uma dessas recomendações diz que os padres católicos (22% da população é católica) devem ser acusados criminalmente caso não denunciem abusos sexuais de que souberam em confissão. Também diz que a Igreja Católica deve tornar voluntário o celibato dos sacerdotes. "Apesar de não ser uma causa directa dos abusos a crianças (...) contribui para as ocorrências, sobretiudo quando combinado com outros factores de risco".

Oito estados australianos já consideraram crime que os sacerdotes encubram os abusos sexuais dos seus pares. Os restantes estados estão "a estudar uma resposta", escreve a Reuters.

"Esta proposta de lei é mal concebida e impraticável, não tornará as crianças mais seguras, e muito provavelmente enfraquecerá a liberdade religiosa", justificou o presidente da Conferência dos Bispos Católicos da Austrália, Mark Coleridge, invocando a santidade do confessionário. O selo da confissão é "um elemento não negociável de nossa vida religiosa e incorpora uma compreensão do crente e de Deus", acrescentou.

"A posição [dos bispos] é a tensão clássica entre o Direito Canónico, e a sensação de que existe algum tipo de entidade superior e transcendente, e a lei comum", explicou o professor de Filosofia da Universidade de Deakin, Andrew Singleton.

Há duas semanas, um antigo arcebispo australiano tornou-se a mais alta figura da Igreja Católica a ser condenada por encobrir casos de abusos sexuais a crianças. Philip Wilson, ex-arcebispo de Adelaide e ex-presidente da Conferência dos Bispos, foi acusado de não ter denunciado casos de abusos na década de 1970 e foi condenado a um ano de prisão domiciliária. Philip Wilson recorreu.

Em Março deste ano, o cardeal australiano George Pell — a terceira figura mais importante do Vaticano —, foi interrogado por crimes de abuso sexual de menores. Pell, um dos mais prestigiados clérigos da Austrália, foi nomeado pelo Papa Francisco em 2014 para ministro das Finanças do Vaticano. Quando João Paulo II morreu, o cardeal australiano foi apontado como um dos potenciais sucessores, isto já depois de terem surgido as primeiras denúncias a envolverem o seu nome. 

Crise na Igreja

A posição da Igreja Católica australiana surge após duas semanas particularmente duras para o Papa Francisco. Depois de mais um escândalo de pedofilia que veio a público em Agosto envolvendo padres nos Estados Unidos, o Papa publicou uma carta onde admitia "vergonha e arrependimento" face às sucessivas denúncias de abusos sexuais de crianças por membros da Igreja em todo o mundo e o encobrimento que a instituição fez a estes casos.

Dias depois, o antigo núncio apostólico nos EUA, o arcebispo Carlo Maria Vigano, veio a público acusar o Papa de ele próprio ter mantido o silêncio sobre as denúncias de abuso sexual contra o cardeal norte-americano Theodore McCarrick, e só ter aceite a sua renúncia há um mês. Mas a acusação de Vigano está a ser apontada como uma estratégia do sector ultraconservador da Igreja Católica para expulsar o Papa Francisco da liderança da Igreja.

Numa visita à Irlanda no último sábado, o Papa Francisco afirmou que se sente “envergonhado", pediu perdão pelos abusos sexuais sofridos pelas vitimas irlandesas e garantiu que não iriam existir mais encobrimentos de crimes. O primeiro-ministro irlandês, Leo Varakdar, pediu-lhe para passar das “palavras à acção”. 

A posição assumida pelos bispos australianos também é contrária à posição tomada pelo principal assessor da Igreja sobre manipulação de queixas por abuso infantil, Francis Sullivan, que em 2017 afirmou que "os padres, como todos os outros, deverão obedecer à lei ou sofrer as consequências". Clare Leaney, directora de um grupo de apoio às vítimas, Fundação Boa Fé, descreveu a decisão dos bispos como "mais do mesmo". "Falei com vários sobreviventes que disseram estar realmente desapontados", partilhou Leaney.