Merkel escolhe Manfred Weber para a Comissão Europeia?

O presidente do grupo do PPE diz que sim. A chanceler alemã terá deixado cair o BCE para ficar com a Comissão. Os jogos ainda agora começaram.

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Angela Merkel EPA

Primeiro foram as notícias sobre a desistência de presidir ao Banco Central Europeu. Depois, a sua preferência pela presidência da Comissão Europeia. E nesta sexta-feira vários órgãos de comunicação europeus davam um rosto à eventual escolha da chanceler alemã para o lugar agora ocupado por Jean-Claude Juncker: Manfred Weber, actual presidente do grupo do PEE no Parlamento Europeu.

Foi o próprio que fez saber através de fontes que lhe são próximas: “Weber obteve a bênção de Merkel”.

O gabinete da chanceler ainda não confirmou. A imprensa alemã referiu outros nomes que seriam da preferência de Merkel, como o seu ministro da Economia, Peter Altmaier, ou a própria ministra da Defesa, Ursula von der Leyen, ambos com bastante mais experiência de governo e, sobretudo, membros da CDU e não da CSU bávara como é o caso de Weber, que tem feito a vida difícil à chanceler, sobretudo em matéria de refugiados.

Actualmente, cada grupo político do PE apresenta o seu candidato à presidência da Comissão nas eleições europeias, que serão em Maio do próximo ano. Os resultados eleitorais vão ditar o destino da escolha de Merkel, na medida em que a presidência da Comissão deve caber ao grupo parlamentar mais votado.

Nunca como hoje o resultado das eleições europeias foi tão incerto, graças à transformação acelerada da paisagem política dos Estados-membros e à emergência de partidos populistas e nacionalistas que baralham completamente as contas aos partidos europeus tradicionais. Acresce que o PPE tem outro problema sério a resolver. Cava-se dia-a-dia o fosso entre os governos que defendem uma Europa fechada aos imigrantes (e à globalização) com outras regras económicas e financeiras, hoje encarnada pela nova dupla Viktor Orbán-Matteo Salvini (responsáveis húngaro e italiano), e os governos que defendem esta Europa e a sua abertura ao mundo.

Esta divisão atravessa o próprio PPE, criando uma situação bastante incómoda para a chanceler. Até agora, apesar dos protestos de alguns partidos de centro-direita, o Fidesz de Victor Orbán continua a integrar o grupo, que é no essencial fortemente pró-europeu e onde a Alemanha tem uma posição predominante. Só que Orbán é um contribuinte importante para um bom resultado nas europeias.

O dilema é simples: os princípios políticos ou a contabilidade dos votos. Com os socialistas também em perda, graças ao quase desaparecimento do PS francês ou ao desastre eleitoral dos Democratas italianos, a outra incógnita é o destino dos eurodeputados eleitos pelo República em Marcha de Emmanuel Macron, que serão certamente muitos. O Presidente francês ainda não abriu completamente o jogo. A única certeza é que os grupos políticos dos extremos vão ter mais peso, aumentando a facção eurocéptica e antieuropeia de modo substancial e desafiando a hegemonia dos grandes partidos do centro.

Falta acrescentar que a distribuição dos cargos mais importantes da União Europeia se faz através de uma negociação em pacote, de forma a encontrar algum equilíbrio regional e político. Para além do presidente da Comissão, estão em jogo o presidente do Conselho Europeu (actualmente o polaco Donald Tusk), o chefe da diplomacia europeia (a italiana Federica Mogherini) e, talvez mais importante ainda, o substituto de Mario Draghi à frente do Banco Central Europeu.

Quando muita gente pensava que era este último o posto que a Alemanha ambicionava, a chanceler virou a agulha para a Comissão. Talvez se perceba porquê. O candidato “natural” seria Jens Weidnmann, governador do Bundesbank desde 2011 e um total opositor às políticas de Draghi, que acabaram por ser determinantes para salvar o euro. Os anticorpos que gerou tornariam a sua escolha difícil. Berlim pode sempre contar com um presidente de um país nórdico para interpretar a sua ortodoxia monetária. Quanto à Comissão, há outros candidatos em liça no campo político da chanceler. Michel Barnier é um deles, sobretudo se o "Brexit" correr bem e os últimos sinais vão nesse sentido. Não se sabe se tem o apoio de Macron. Outra candidata francesa em idênticas condições é Christine Lagarde, a directora-geral do FMI e uma boa amiga da chanceler.