Falta de aviso ou negligência? As pessoas continuam a perder-se no Gerês

Este ano morreram já três pessoas dentro do parque nacional e foram feitas 14 missões de busca e resgate, envolvendo 20 pessoas.

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A GNR alerta para a necessidade de adequar a actividade no parque às capacidades de cada um Hugo Santos

Os responsáveis pelo Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG) consideram que boa parte dos incidentes com pessoas no território do PNPG se deve à negligência das “vítimas”. Na noite de terça-feira, dois jovens andavam a passear pelo Gerês. Entraram de carro por um estradão, de terra batida, pelo meio da floresta, numa zona próxima das aldeias de Ermida e Fafião. Terão seguido as indicações do GPS, mas as condições em que o caminho se encontrava impediram que o jovem casal prosseguisse a viagem, deixando-os perdidos numa zona que não conheciam e sem saber explicar onde se encontravam.

Os jovens acabariam por conseguir pedir ajuda aos Bombeiros Voluntários de Salto, concelho de Montalegre, que os resgataram, sãos e salvos, pelas 2h de quarta-feira. Apesar do susto, nada de pior aconteceu, mas situações como esta, que foi relatada à Lusa por Hernâni Carvalho, comandante dos Bombeiros de Salto, tendem a repetir-se. Ainda na sexta-feira se registou mais uma queda numa cascata. O incidente aconteceu durante a tarde na Portela do Homem, em Terras de Bouro. O resgate da vítima, do sexo masculino, envolveu os Voluntários de Terras de Bouro e um helicóptero do INEM.

Só este ano foram resgatados, até ao 31 de Agosto, 20 pessoas, três das quais vítimas mortais, em 14 intervenções, de acordo com a informação enviada ao PÚBLICO pelo departamento de comunicação da GNR. Este número está já próximo do de 2017, ano em que a GNR realizou 15 intervenções de busca e resgate, que envolveram 24 vítimas, não tendo, contudo, sido registada nenhuma vítima mortal. Este ano, há registo de três vítimas mortais no parque. Uma causada por uma queda numa cascata, outra por um acidente de moto de água e outra que envolveu um praticante de BTT. 

A direcção do Parque Nacional Peneda-Gerês diz que estes incidentes, “em número inexpressivo” quando comparados com os “milhares de visitantes do PNPG”, se devem a “negligência” dos próprios visitantes. No ano passado, passaram por ali pelo menos 104 mil pessoas, segundo o número que foi contabilizado junto das cinco portas do parque. Procuram as cascatas — quanto mais bonitas mais inacessíveis são —, apetecíveis quando as temperaturas se elevam. Mas, para lá chegarem, os visitantes precisam de serpentear a montanha, dobrar curvas violentas, terrenos pedregosos e, por vezes, escorregadios, que escondem alguns perigos. 

Resgates complexos

Em meados do mês de Agosto, outro casal saiu para passear no parque e acabou por se perder. Acabariam resgatados por um helicóptero da Força Aérea, mas devido às dificuldades nos acessos, ao cansaço físico e a algumas escoriações acabaram por permanecer no local durante a noite, acompanhados por bombeiros e elementos do Grupo de Intervenção de Protecção e Socorro (GIPS) da GNR, tendo sido depois transportados para o Hospital de Braga.

Os resgastes, em geral, "são missões complexas por natureza", explica ao PÚBLICO o comandante dos GIPS de Braga, Viana do Castelo e Porto, capitão Manuel Moreira, que envolvem várias entidades como a GNR (Cinotecnia, Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente), bombeiros, Protecção civil, Cruz Vermelha, ICNF, INEM. E que, por isso, também acarretam custos avultados. 

As acções de busca e resgate têm sido motivadas, maioritariamente, “por quedas e desorientação" dos visitantes. "A maioria das vítimas apresentava pequenos ferimentos e sinais evidentes de cansaço", sublinha a GNR. 

Respeito pelas normas de conduta

Segundo o comandante dos Bombeiros de Salto, o jovem casal, que se perdeu na noite de quarta-feira, entrou por uma zona de acesso vedado a veículos, pelo que acabaram por ser identificados e autuados pela GNR. 

Ao PÚBLICO, o director do Departamento de Conservação da Natureza e Florestas do Norte do ICNF, Armando Loureiro garante que “há avisos e recomendações espalhados e diariamente transmitidos aos visitantes pelos funcionários do parque”. E sublinha que "a adequação de comportamento às condições do meio (montanha e meio natural) só pode ser conseguida se individualmente todos respeitarem normas de conduta”. 

De acordo com Armando Loureiro, existem pelo PNPG, que se estende por cinco concelhos de três distritos, 19 vigilantes da natureza e 60 agentes florestais. O responsável destaca ainda que o parque faz “há muitos anos” uma “sensibilização diária, informação e apoio à interpretação e fruição” da serra. E que recentemente foi feito um investimento na melhoria da cobertura da rede móvel. 

“As novas tecnologias de informação (smartphones, GPS, internet) fizeram aumentar de forma expressiva os visitantes que se autoguiam e, por isso, fazem visitas de forma autónoma”, explica Armando Loureiro. Por isso, os dados não podem ser olhados de “de forma absoluta”, mas o responsável admite que o número de visitantes, de todas as nacionalidades, tem aumentado.

Não andar sozinho

As autoridades têm reparado que há visitantes que se aventuram a fazer trilhos e desportos de montanha que não estão adequados às suas condições físicas, nem ao vestuário que têm. Na área envolvente ao parque, o GIPS tem 22 especialistas em busca e resgate em montanha, apoiados por três viaturas específicas para esse tipo de serviço, explica Manuel Moreira. 

O comandante do GIPS Braga aconselha ainda a todos os visitantes a fazerem uma pesquisa prévia dos locais onde é permitido aceder, visto que há zonas do parque restritas à circulação. E que procurem sempre saber, junto da GNR, dos serviços municipais ou do ICNF, os locais mais indicados para as actividades que querem realizar. 

“É importante que as pessoas não se aproximem das cascatas e evitem zonas de ravina que sejam desprovidas de qualquer resguardo”, sublinha Manuel Moreira.

Também os mergulhos em zonas de pouca profundidade ou onde a água tenha pouca visibilidade devem ser evitados, assim como caminhar em locais escorregadios, sobretudo se não se estiver munido de vestuário e de calçado adequado.

Além disso, sobretudo quando se parte para uma caminhada ou trilho, os visitantes devem levar uma lanterna, uma muda de roupa seca, bastante água e mantimentos, um kit de primeiros socorros, e um GPS de onde seja possível retirar uma coordenada. E, sobretudo, resume Manuel Moreira, evitar fazer qualquer actividade na serra sozinho e com condições meteorológicas desfavoráveis.