Exercícios militares russos no Mediterrâneo são tiro de partida para ofensiva final na Síria?

Em Idlib haverá cerca de "dez mil terroristas", ligados à Al-Qaeda, reconhece a ONU. Mas é preciso evitar uma catástrofe humanitária, abrindo um corredor humanitário para os civis. E que nenhuma das partes use armas químicas.

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Os ministros dos Negócios Estrangeiros sírio e russo, esta quinta-feira, em Moscovo Maxim Shemetov/REUTERS

A Marinha russa inicia no sábado um exercício naval no Mediterrâneo, que está a ser visto como o possível tiro de partida para o início da ofensiva final contra Idlib, o último reduto na Síria que ainda resiste ao controlo de Bashar Al-Assad e aos seus aliados – Moscovo e o Irão.

A província de Idlib fica no Nordeste da Síria, sem acesso directo ao mar – mas é vizinha de Latakia, o bastião político de Assad, e o maior porto sírio, e próxima de Tartous, onde a Rússia tem uma base militar. A proximidade geográfica faz supor que tenha chegado o momento da ofensiva que Damasco promete para breve.

Para o regime sírio, a província de Idlib tem servido como uma espécie de “aterro”, para onde vão sendo enviados os civis e combatentes que saem das regiões que vão conquistando. É uma das áreas onde, no âmbito do processo de negociações de Astana – que envolve apenas a Rússia, o Irão e a Turquia – foi acordado no ano passado que haveria um abrandamento dos confrontos

As declarações do porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, depois de um encontro entre os ministros dos Negócios Estrangeiros russo e sírio nesta quinta-feira foram nesse sentido. “Se esta inacção continuar, este antro de terroristas [Idlib] não nos trará nada de bom”, afirmou, ao falar sobre os exercícios navais. Participam até 8 de Setembro mais de 25 navios de guerra, outras embarcações de apoio e cerca de 30 aeronaves, incluindo aviões de combate e bombardeiros estratégicos participam nestes exercícios, diz a agência russa Tass.

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fragata russa "Pytlivy" no Bósforo, a caminho do Mediterrâneo Yoruk Isik/REUTERS

“O Governo sírio vai até ao fim” em Idlib, prometeu o chefe da diplomacia sírio, Walid al-Moualem, identificando como principal alvo a Frente Al-Nusra – que os EUA ainda consideram um ramo local da Al-Qaeda e é actualmente conhecida na Síria como Tahrir al-Sham.

Moualem garantiu ainda que não seriam usadas armas químicas na ofensiva, até porque o regime de Assad não tem armas dessas. “Garanto que não temos armas químicas e que não as podemos usar”, declarou, citado pela agência noticiosa oficial síria SANA. Existem no entanto múltiplos registos do seu uso em vários ataques, punidos recentemente por contra-ataques dos EUA. A Síria, supostamente, teria entregue todo o seu stock, em 2014, assinando a convenção internacional que as proíbe.

As Nações Unidas parecem resignadas a que não haverá forma de impedir esta ofensiva, apesar de António Guterres falar de uma potencial “catástrofe humanitária”. O enviado da ONU para a Síria, Staffan de Mistura, reconheceu que há uma grande concentração de combatentes estrangeiros em Idlib – incluindo “o que se estima serem dez mil terroristas”. Apelou a que se abra um corredor humanitário para que a população civil possa fugir antes de começarem os combates – não há justificação para usar armas pessoas em áreas densamente povoadas, frisou.

Sobretudo, não devem ser usadas armas químicas. “Todos temos a noção de que tanto o Governo [de Assad] como a Al-Nusra têm a capacidade de produzir armas à base de cloro”, afirmou o diplomata da ONU.