Crítica

Une femme douce e a vida agreste das raparigas

Um filme como um pedaço de acompanhamento de uma vida. Se nos agarrarmos a isto, num filme como um projecto de doçura, podemos não reparar nas risadas tão tristes como as feridas que não saram de Milla.

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Ainda não houve genérico inicial e já se explicita o desajustamento da personagem de Milla. Há aquele olhar dela sobre Luc, o seu companheiro, que parece falar de uma perda. Ainda não sabemos o que está nela, mas pressente-se a tristeza de quem se sente sem posição, sem lugar. A intervenção do título do filme, Milla, o aparecimento do genérico inicial, parecendo cortar esse olhar da personagem, não protege o espectador dos seus efeitos. O olhar ao fixar-se em Luc fixa-se na sala como se seguisse a fuga de uma esperança irrealizável, já com saudades dela. O plano corta, o olhar fica connosco.

Não será esse o olhar da actriz Severine Jonckeere sobre o seu partenaire Luc Chessel a revelar a inadequação, a maladresse e até a vergonha, a dificuldade de encontrar o seu espaço no filme? Severine é uma rapariga de 16-17 anos, já mãe, que a realizadora descobriu numa casa de abrigo de Cherburgo, e faz um filme ao lado de um actor-que-também-é-crítico-de-cinema e que visivelmente está, ele sim, no seu território.

Nessa fracção de segundo, aquele olhar, que reverbera por toda uma longa-metragem, concentrando diferenças de classe e abandono afectivo e dispensando as demonstrações temáticas, está a violência e a doçura do cinema de Valérie Massadian — cinema que se vem fazendo como um pacto, expondo e amparando a vida agreste das raparigas que são lançadas à conquista dos filmes.

42 anos, francesa de origem arménia, primeiro fotógrafa (e editora fotográfica de Nan Goldin, de quem foi “modelo”), agora realizadora, tem sido fiel, desde a primeira longa-metragem, Nana (melhor Primeira Obra em Locarno 2011), à prática — por isso tem sido inevitável lembrarmo-nos de alguém como Maurice Pialat (1925-2003) de cada vez que encontramos Milla — de ancorar a verdade da ficção na rodagem do filme e nas relações que ali se forjam. (E é também à la Pialat, já agora, a forma como Milla se vê livre dos rodriguinhos do cinoche, termo que era caro ao realizador de La Gueule Ouverte, filme de 1974, e de Aos Nossos Amores, de 1983, para destilar o seu habitual azedume e dar uma sapatada em tudo o que pudesse ter a pretensão de suavizar as rugosidades da vida).

Até agora com apenas duas longas-metragens em seis anos, Nana e Milla (Prémio do Júri na secção Cineasti del presente em Locarno 2017), podemos dizer que o cinema da realizadora tem necessitado de tempo para construir a relação com as suas “actrizes” e ampará-las nos seus gestos — como conversas, diálogos, cujas vozes até parecem sobrepor-se aos gestos e mesmo às próprias vozes da ficção. Por exemplo, é como se Kelyna Lecomte, a miúda de Nana, estivesse a “mandar recados” para fora do enquadramento à realizadora em cada um dos seus totalitários monólogos de construção do mundo; em Milla é um diálogo mais paritário e mais explícito porque Massadian inscreve-se às tantas como personagem na ficção — Milla é Severine, Severine poderá ser Massadian, que pode já ter estado no lugar de Severine...—, abrindo-se aí caminho à contemplação da vida, à melancolia e à doçura. O filme é um pedaço de acompanhamento de uma vida e não já apenas o documento ou a ficção de um pedaço de vida.

E é aqui, já que poderemos ter pecado com uma desajustada invocação do santo nome de Pialat em vão, que vamos atribuir a Massadian o que é de Massadian: a ternura com que investe pela aspereza do mundo.

Nana, vivendo como vivia no bosque sem tempo de fábula, mostrava uma menina de quatro anos com uma voracidade assustadora a descobrir e refazer o mundo. Já para Milla, 16-17 anos e já mãe, não há fábulas à sua altura, tem de se haver com o tempo e com uma paisagem, física, social e humana, que permanece sem compaixão — haverá um terceiro filme, segundo a realizadora, para completar esta trilogia sobre raparigas em idades de transição, e para isso até voltará a Kelyna Lecomte, que hoje é uma pessoa diferente, tem 11 anos.

Além daquele olhar antes do genérico de Severine Jonckeere — como já se percebeu, esta mãe com filho, Ethan, é uma mãe de ficção chamada Milla, mas é Severine —, há as risadas dela, que não disfarçam, antes expõem, o seu desajustamento, o desconforto do seu corpo proletário e redondo que a rapariga de Cherburgo terá de aprender a esquecer ou a encarar, antes de conseguir, finalmente, habitar o filme.

De resistência em resistência, porque a morte aparece pelo meio, o filme autoriza a que se fale de uma calmaria final, um abandono, um repouso. Severine conquista o seu filme? Uma confissão: lutamos, perante Milla como perante Nana, contra ceder aos focos de negrume que vemos irromper, mas é uma luta inglória, encontramo-los a cada revisão; a forma como sobre as personagens se aperta a claustrofobia (à la Chantal Akerman de Jeanne Dielman...), os gestos que se repetem de filme para filme, de personagem para personagem, cada uma sendo o inescapável destino da outra; ou aquela abertura de Milla a repetir-se no plano final, se calhar é apaziguamento, sim — ou será que nada mudou, é o mesmo gesto, é a vida que é assim? Ainda, os blocos de presente com que Milla se instala com as suas elipses mas que vão acumulando para o espectador memória, fazendo-o regressar a indícios que estavam lá atrás. Para acabar como no princípio, o olhar de Severine, e as risadas... tão tristes como feridas que não saram. Está em todos os planos de Milla, mas vamos fazer por esquecer a vida agreste e agarramo-nos ao olhar de doçura.