Astronomia

Teresa Lago: “Sempre tive o vício dos puzzles

O público em geral gosta muito de astronomia porque contém uma “componente mística”, diz Teresa Lago, que assume esta quinta-feira a liderança da União Astronómica Internacional. “A pessoa sente-se parte de um todo que é muito maior.”
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Teresa Lago DR

Não pensava em ser astrónoma – isso surgiu já durante a universidade, quando frequentava o bacharelato de matemática. A seguir, Teresa Lago avançou para a licenciatura em engenharia geográfica, aí, sim, já a pensar na astronomia, que terminou em 1971, também na Universidade do Porto.

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“Não sou daquelas pessoas que desde pequena sonhavam em ser astrónomas. No bacharelato de matemática havia uma disciplina de astronomia. Frequentei-a e fiquei entusiasmada, principalmente porque era das poucas áreas em que dava gosto ir para a biblioteca ler. Pegava num livro e via mais do que era dado nas aulas. E também percebi que as pessoas podiam contribuir para o conhecimento. Nas outras áreas também, mas na astronomia é como resolver puzzles. A astronomia é um puzzle muito curioso. Sempre tive o vício dos puzzles. E a astronomia era a única área que me trazia essa atracção.” Como em engenharia geográfica ia ter mais duas disciplinas de astronomia, sentiu esse apelo. “Fiz a licenciatura em engenharia geográfica por causa da astronomia.”

Os puzzles são então um dos seus passatempos? “Faço puzzles de vez em quando”, responde. E por que gosta tanto de os fazer? “Talvez porque gosto de desafios.”

Teresa Lago veio directamente de Angola para o Porto. Nascida em Lisboa a 18 de Janeiro de 1947, foi com um ano de idade para Angola, então uma colónia portuguesa. “O meu pai era funcionário público do Ministério do Ultramar. Corremos muitos sítios em Angola. Os funcionários não podiam estar mais de dois anos numa terra. Só tínhamos a mala com a roupa, tudo o mais estava preparado para entrarmos e sairmos, a casa estava mobilada e tinha roupa, tudo”, lembra a investigadora. “Estive lá até aos 17 anos e vim para o Porto, para a universidade. Os meus amigos ficaram lá, os meus pais ficaram lá.”

Quando acabou a licenciatura, foi fazer um curso numa escola de Verão no Observatório Real de Greenwich, organizada para atrair astrónomos que tinham acabado a licenciatura a fazerem uma pós-graduação em astronomia. “Fiquei entusiasmada. Pensei: ‘É mesmo isto que vou fazer!’” Decidiu ir para Inglaterra, para a Universidade de Sussex, com o marido, os dois para fazerem o doutoramento. “Quando estou mesmo para ir, fiquei grávida. A minha filha fez um ano já em Inglaterra.” Partiram finalmente em 1974, o ano da revolução do 25 de Abril.

“Felizmente, fomos depois do 25 de Abril. Fomos em Setembro de 1974. Não perdia o 25 de Abril por nada, foi uma experiência única. Não era fácil telefonar, era de cabines públicas e era caro. A única hipótese que tínhamos de ter notícias era ler o Expresso na biblioteca com uma semana de atraso. Viemos cá de férias no Verão de 1975 e não conhecíamos o país. Saímos no auge do entusiasmo e viemos no auge da luta. Estava toda a gente zangada na universidade, no país.”

Regressaram de vez a Portugal em 1979, ela já doutorada em astronomia. Pouco tempo depois, em 1983, estava a criar a primeira licenciatura em astronomia do país, na Universidade do Porto. Seguiu-se o primeiro centro de astrofísica, em 1988. Ou a criação do Planetário do Porto, que abriu as portas em 1998.

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Teresa Lago Universidade do Porto

Mas para lá da investigação em astronomia (a formação de estrelas e estrelas jovens é a sua área de estudo), para lá da gestão científica, da política científica e da divulgação científica, Teresa Lago fez outras incursões. Foi presidente da Sociedade Porto 2001 — Capital Europeia da Cultura, entre 1999 e 2002. E fez ainda uma passagem pela política, com a sua eleição em 2002 para o Parlamento como deputada independente nas listas do PS, mas, invocando razões pessoais, renunciou ao mandato. E, entre 2009 e 2013, foi deputada da Assembleia Municipal do Porto e da Assembleia Metropolitana do Porto.

Professora catedrática da Universidade do Porto desde 1989, está agora reformada. Da sua única filha tem dois netos “fantásticos”. Refugia-se numa pequena quinta entre Óbidos e Bombarral. “Gosto de cultivar, ter um jardim, mexer na terra e andar a pé pelos montes. Tenho uma paisagem fantástica à frente de pomares e mata. Gosto de estar em contacto com a natureza, passei muitos anos a trabalhar num gabinete, agora preciso de compensação.” E o que cultiva? “Um pouco de tudo, biológico, nada em especial, essencialmente para ‘pôr as mãos na terra.’”

Mas continua oficialmente ligada ao instituto de astrofísica. “Claro que não faço investigação lá, não tenho tempo. Há outros papéis relevantes que o astrónomo pode desempenhar na astronomia.” É o que vai procurar fazer agora como a nova secretária-geral da União Astronómica Internacional. E por que, quisemos saber a sua opinião, é que a astronomia desperta tanto interesse nas pessoas? “Acho que há uma componente mística. A pessoa sente-se parte de um todo que é muito maior. Embora a nossa passagem seja extremamente curta em termos de duração, ser parte de um todo é algo que nos conforta. É quase impossível não ficar a olhar para o céu e não nos questionarmos.”