Opinião

A hipocrisia da internacional nacionalista e como contrariá-la

A última coisa que os outros líderes políticos europeus podem fazer neste momento é juntar a sua hipocrisia à hipocrisia de Orbán e Salvini

Ontem encontraram-se Matteo Salvini e Viktor Orbán em Milão. “É o meu herói”, disse o líder húngaro. “Trabalharemos juntos”, disse o ministro do Interior italiano.

O que justifica tal enlevo? A imigração e os refugiados, dir-me-ão. Acontece que sobre a imigração Orbán e Salvini querem exatamente o contrário. Salvini quer distribuir pelos países da UE os refugiados que chegam às costas italianas. Ora, quanto a refugiados vindos de Itália, a Hungria de Orbán recebeu um número redondo: precisamente zero. O país que recebeu mais refugiados provindos de Itália foi aquele que Salvini mais critica: a Alemanha de Merkel. Adiante. Orbán proclama que sobre a questão migratória não há consenso europeu, nem precisa de haver consenso europeu, porque não precisa de haver uma solução europeia. Cada país decide a sua política migratória e pronto. Salvini repete exatamente o contrário: que cada migrante chegado a Itália é, na verdade, um migrante que quer vir para a Europa, e portanto um problema europeu a precisar de uma solução europeia. Precisamente aquilo que Orbán recusa.

Nesse caso, porque se lançam Orbán e Salvini nos braços um do outro? Ambos disseram: “é possível parar os migrantes no mar”. Trata-se, evidentemente, de uma escapatória para não terem de confrontar-se com o facto de serem aliados políticos que proclamam e prometem coisas absolutamente opostas em relação às políticas que alegam juntá-los. À primeira vista, a frase “é possível pará-los no mar” parece resolver o problema a ambos os homens. Se os migrantes fossem parados no mar, não havia migrantes a chegar às costas italianas e logo não haveria migrantes a ter de distribuir pela Europa. Resolvido o problema de Salvini, resolvido o problema de Orbán?

A verdade, toda a gente a sabe: não é possível “parar” os migrantes no mar. É possível, isso sim, aquilo que eles querem esconder com essa expressão: deixar morrer os migrantes no mar. Trump ainda não conseguiu construir o seu muro com o México. Pois bem, no Mediterrâneo é mesmo impossível construir um muro. E mesmo que fosse possível, de que serviria? Não há barreira mais difícil de superar do que a grande probabilidade de uma morte nas águas do Mediterrâneo — e mesmo assim os refugiados e outros migrantes atravessam-no. Não se está bem a ver que barreira seria possível colocar no meio do Mediterrâneo para “parar” os migrantes, exceto em duas situações: a desvergonha total e absoluta da violação da Convenção de Genebra sobre os refugiados e a barbaridade de empurrar os refugiados para o deserto, ou a maior desvergonha ainda de os deixar à deriva no mar contra o que estipula o direito mais antigo que há e que manda salvar náufragos em mar alto.

É apenas nisto que Orbán e Salvini podem concordar. Ou isto, ou na verdade eles não estão preocupados com as migrações e estão apenas interessados em usar o tema para lançar o caos na política europeia. Sim, das duas uma: ou eles estão a ser sinceros, mas são desumanos, ou não estão a falar a sério, mas são hipócritas.

Para desmontar a hipocrisia de Orbán e Salvini há, em primeiro lugar, que optar por uma radical sinceridade. Há que desmontá-los na praça pública. Há que desmascarar a utilização que eles fazem das migrações demonstrando que os números de chegadas estão a baixar e que não há, neste momento, uma crise migratória na UE. Há que dizer-lhes que a partir do momento em que quiseram a liberdade de circulação para húngaros e italianos na UE aceitaram pôr na lei e nos tratados a gestão comum dos fluxos migratórios. Há que dizer à população europeia que ainda quer soluções que para não haver refugiados a atravessar o Mediterrâneo a solução é reinstalá-los diretamente dos campos de refugiados ou atribuir-lhes passaportes internacionais humanitários.

A última coisa que os outros líderes políticos europeus podem fazer neste momento é juntar a sua hipocrisia à hipocrisia de Orbán e Salvini. Fazer de conta que não entendem o desafio que os dois nacional-populistas lançam à Europa, evitar o choque frontal, recuar estrategicamente na esperança que a ameaça de uma internacional nacionalista na Europa se desvaneça. Esse é exatamente o tipo de pensamento que abriu as portas a que Orbán mudasse a Constituição e as leis eleitorais para ter sempre uma maioria de dois terços no parlamento com qualquer resultado nas urnas. Esse é o tipo de reação que permitiu a Salvini controlar a política de um grande país europeu a partir de um resultado de apenas 17% nas eleições. Hoje como ontem, não é possível evitar uma profunda batalha ideológica com os fascistas: o melhor é travá-la quanto antes e decididamente.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico