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Um retrato cru do trabalho sexual em Madrid

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Madrid. “Caminhava por uma famosa rua de actividade nocturna quando duas mulheres, que me pareceram trabalhadoras sexuais, se aproximaram de mim”, narrou ao P3 o fotógrafo Jamèl Van de Pas. “Perguntaram-me se estava interessado em sexo. Disse-lhes que não. Perguntei-lhes se haveria algum problema se as fotografasse. Paguei a quantia necessária para livrá-las de qualquer problema com os seus proxenetas e segui, na sua companhia, para um quarto privado. Ambas me contaram histórias que me pareceram diferentes das suas histórias reais. Uma delas, obviamente sob influência de estupefacientes e com marcas de uso de cocaína na pele, garantiu-me que não era toxicodependente e que realiza trabalho sexual de forma voluntária.” Jamel regressou várias vezes ao mesmo bordel durante a sua estadia na capital espanhola. “A maioria das mulheres que encontrei era proveniente da Europa de Leste. Bulgária, Roménia. Todas as que aliciavam potenciais clientes na rua pareciam embriagadas ou drogadas. Tentei trabalhar com as que me pareceram mais sóbrias. Não cheguei a perceber se foi a adicção que as levou à prostituição ou se os proxenetas as mantinham dependentes do uso de drogas — é importante ponderar essa possibilidade, creio. Há carros-patrulha a circular nesta rua constantemente, mas ninguém parece ser capaz de ajudar estas mulheres.”

Amesterdão. “Eu venho de um país onde a prostituição é legal e já conheci, pessoalmente, muitas mulheres trabalhadoras do sexo. Sou da opinião de que as palavras ‘voluntário’ e ‘prostituição’ não são compatíveis. Quando as mulheres escolhem vender os seus corpos é porque as instituições de cariz social não lhes prestaram apoio. Ou então porque o governo não cuidou das suas crianças ou dos seus problemas mentais ou adicções, ou entes queridos doentes, etc. E muitas delas são também vítimas de tráfico humano ou mantidas sob a influência de drogas. É essa a triste realidade da maioria dos bordéis que conheço.”

Dark Room. Jamel tem esperança de que as imagens da série fotográfica cheguem aos jornais, a livros, a exposições, e possam desencadear algum tipo de discussão em torno da realidade destas pessoas, explicou em entrevista por email. Jamèl, que publicou no P3 os projectos Berlin, Prague, Budapest e Manila, tem como referência os trabalhos de Daido Moriyama e de William Klein. “Os temas que escolho podem ser descritos como duros, difíceis, mas eu não busco conscientemente a escuridão. Neste caso, bastou-me caminhar pelo centro de Madrid para encontrar esta realidade. Ignorá-la seria uma decisão mais consciente do que vê-la, creio. Documento este tipo de situações por sentir um interesse genuíno pelo lado humano que implica e porque, de algum modo, consigo ligar-me com mais facilidade a pessoas que atravessam dificuldades.”

Jamèl Van de Pas
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