Irão insinua que ex-ministro israelita detido era seu espião

Gonen Segev queria ficar rico e depressa. Já esteve preso por trazer ecstasy da Holanda para Israel. Agora está detido por vender segredos do Estado hebraico ao seu maior inimigo, o Irão.

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Segev e Yitzhak Rabin, quando o último era primeiro-ministro, Reuters

O Irão pareceu confirmar, esta quarta-feira, que um antigo ministro israelita, Gonen Segev, detido por Israel e acusado de espionagem, era mesmo seu agente. É uma mudança de Teerão, que inicialmente negou ter algo a ver com o caso do mais alto responsável israelita a passar informação a um inimigo do Estado hebraico.

“Recentemente terão ouvido que trouxemos para o nosso controlo um membro de Governo de um país poderoso”, disse o ministro da Informação, Mahmoud Alavi, segundo a agência semi-oficial ISNA. Outros media foram rápidos a interpretar que se tratava de uma referência a Gonen Segev, detido em Junho por Israel, suspeito de vender informação à República Islâmica.

É uma mudança na atitude de Teerão, numa altura em que a tensão no país aumenta por causa dos efeitos das sanções norte-americanas, que o país voltou a impor depois de se retirar do acordo de 2015 sobre o nuclear iraniano

Segev é descrito como uma verdadeira personagem, egocêntrico, megalomaníaco. Foi deputado (de 1993 a 1996) e ministro da Energia e Infra-estrutura (entre 1995 e 1996), no Governo de Yitzhak Rabin. A mudança no seu sentido de voto (e de um colega de partido que também mudou de lado) foi vital na aprovação dos Acordos de Oslo entre Israel e a Autoridade Palestiniana pelo Parlamento israelita em 1995. Tanto Segev como o seu colega entraram então no Governo, mas não foram eleitos no ano seguinte.

Depois de sair do Knesset, Segev tentou trazer 32 mil comprimidos de ecstasy da Holanda para vender em Israel. "Pensava que eram M&M's", disse então, sem convencer ninguém: foi condenado a dez anos de prisão. Em 2007, depois de libertado, mudou-se para a Nigéria, onde se dedicou à sua profissão de médico (em Israel tinha a licença de exercer revogada).

Foi na qualidade de médico que Segev terá sido chamado à embaixada iraniana em Abuja, onde vivia, e aí foi recrutado em 2012.

Mas o Hezbollah, movimento libanês apoiado por Teerão, já tinha o israelita sob olho nos anos 1990, pela sua conhecida ganância – haveria um plano para o levar até ao Hezbollah e o raptar e trocar por prisioneiros libaneses em Israel, diz o Yediot Ahronot. Esse plano acabou por ser levado a cabo em 2000 com outro israelita, o empresário Elhanan Tannenbaum, que foi levado até às mãos do Hezbollah através da promessa de um negócio de droga, acabando raptado pela milícia libanesa. Tannenbaum foi incluído num acordo de troca de presos mais de três anos depois.

Quanto a Segev, não é claro que informação terá passado – o seu conhecimento do sector da energia e infra-estruturas é da altura em que era ministro e por isso estará desactualizado, e não tinha a pasta da energia nuclear, o que seria especialmente problemático.

Ainda assim, responsáveis dos serviços de informação de Israel ouvidos sob anonimato pelo diário Yediot Ahronot estimam dois potenciais danos: o de informação aliada ao Google Maps, que pode permitir ao Irão dispor de informação mais detalhada sobre pontos fracos na infra-estrutura do Estado hebraico, e outro mais problemático, o de Segev poder ter ajudado os iranianos chegar a outros israelitas para obter informação. Em alguns casos, acrescenta desta vez o Jerusalem Post, as melhores fontes são aquelas que nem se apercebem que estão a ser exploradas, e o próprio Segev pode não ter noção de como ajudou os iranianos.

Ao mesmo tempo que o caso Segev é um embaraço político, e fonte de uma preocupação relativa (“o céu não está a cair”, sublinha o Jerusalem Post), a Mossad e o Exército israelitas têm tido uma série de sucessos contra o Irão, trazendo planos do nuclear de Teerão e eliminando capacidades iranianas na Síria, acrescenta o jornal.

O Yediot Ahronot fala de um modo mais generalizado. Apontando que o desejo de enriquecer depressa era uma das características marcantes de Segev, e que esta não é rara no país, pergunta “quantos mais haverá como ele?”

A acusação de traição contra Segev acarreta uma potencial pena de morte, mas os media israelitas dizem que mesmo sendo culpado, é improvável que seja aplicada. A única pessoa condenada à pena capital em Israel foi, em 1962, o líder nazi Adolf Eichmann.

Em sua defesa, Segev terá confirmado que houve uma tentativa de recrutamento, mas negou que tenha passado alguma informação, segundo o Jerusalem Post. “Queria enganar os iranianos e voltar a Israel como um herói”, terá dito aos investigadores.