Iris Zhao/Reuters
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Fomos campeões da Europa e mal sabemos porque não foi no futebol

Falar do bilhar é falar de qualquer outra modalidade que não o futebol, repleta de atletas que, nas mesmas 24 horas, vestem a pele das suas profissões e a de atletas profissionais de alta competição.

No desporto, o desporto-rei marcou gerações de famílias nos quatro cantos do globo. Os estádios enchem multidões e a televisão faz a cobertura dos jogos que fazem as comunidades locais vibrar.

O mundo fica em suspenso em dias de campeonato da Europa ou do Mundo, sendo que as equipas vencedoras sabem que a vitória significa, também, o título de herói nacional nos seus países, onde, do dia para a noite, cada jogador veste as roupas de um qualquer deus da mitologia greco-romana.

Somos milhares de pessoas a praticar mais do que uma modalidade — ou uma modalidade distinta do futebol — e a entusiasmarmo-nos com ela.

E, nos últimos meses, bem que podemos encher o peito de orgulho pelas conquistas nacionais em distintas modalidades desportivas.

O desporto português — apesar de ter um parco porquinho-mealheiro de investimento que fica bem longe do investimento de muitos dos outros países rivais em competição — encheu-nos de medalhas, elevando as nossas cores até ao topo da escala mundial, como se de um mantra se tratasse. As medalhas multiplicaram-se e repetiram-se.

Fomos campeões europeus no futebol em sub-19, o que nos enche de orgulho, mas também vimos chover medalhas no atletismo, na natação, mais recentemente na canoagem com duas medalhas de ouro de Fernando Pimenta no campeonato do mundo e, por fim, fomos campeões europeus no bilhar no final de Julho. Peço, desde já, desculpa se me estiver a esquecer de alguma conquista em alguma modalidade.

No bilhar — que vou explorar devido à sua pouca visibilidade — trouxemos nove medalhas do campeonato da Europa, que se realizou na Holanda. Para além do título de campeãs da Europa por equipas obtido por Sara Rocha e Vânia Franco, Henrique Correia foi campeão europeu de straight pool. A selecção de seniores, composta por Henrique Correia, Manuel Pereira e Sérgio Silva, trouxe para Portugal a medalha de prata por equipas.

A Sara Rocha confessou-me, na semana passada, que estava extremamente triste pela falta de reconhecimento que o seu município e o país deram a estas conquistas: desde a falta de cobertura noticiosa, comparativamente com outras modalidades, ao reconhecimento municipal e do país.

O município de Viana do Castelo reconheceu, e bem, os seus atletas do bilhar, Vânia Franco e Henrique Correia. Já o município de Braga — que é aliás, Cidade Europeia do Desporto 2018 — deixou cair em branco as duas medalhas de bronze e o ouro que Sara Rocha conquistou no bilhar. Quero sinceramente acreditar que o período de férias do mês de Agosto justifica esta atitude por parte do município.

Estou aqui a mencionar atletas que não recebem um único cêntimo de investimento na sua formação desportiva e que, ao invés dos atletas das nações rivais, não fazem do bilhar profissão.

Sara Rocha é directora comercial de uma editora. A que horas da madrugada abre a porta de casa, todos os dias, depois de se vestir de directora comercial e, por fim, de atleta de alto rendimento de bilhar? Não é surpreendente que seja a primeira atleta de alto rendimento desta modalidade no país? Afinal, não é financiada e compete com atletas que fazem disto profissão.

Sinceramente, todo este cenário pinta uma heroína nacional, no mesmo patamar dos "Cristianos Ronaldos" desta vida.

E falar do bilhar é falar de qualquer outra modalidade que não o futebol, repleta de atletas que, nas mesmas 24 horas, vestem a pele das suas profissões e a de atletas profissionais de alta competição.

Para mim, vocês são os nossos maiores orgulhos desportivos, os verdadeiros heróis da mitologia desportiva portuguesa que ficará para sempre na nossa história.