Música

Bono: "A palavra patriotismo foi-nos roubada por nacionalistas e extremistas"

Num texto publicado no jornal alemão Frankfurter Allgemeine, o vocalista dos U2 defende que a palavra patriotismo foi "roubada por nacionalistas e extremistas".
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REUTERS/Marcos Brindicci

Os U2 arrancam esta semana uma digressão, em Berlim, e, segundo Bono, vão abanar a bandeira europeia durante os concertos. Num texto publicado no jornal alemão Frankfurter Allgemeine, o vocalista da banda reflecte sobre o futuro e as ameaças à União Europeia (UE) e defende que a Europa "é um pensamento que precisa de se tornar um sentimento".

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"A palavra patriotismo foi-nos roubada por nacionalistas e extremistas", escreve o cantor irlandês. "Os verdadeiros patriotas procuram a união acima da homogeneidade. Reafirmar isso é, para mim, o verdadeiro projecto europeu." Partindo deste pressuposto, o músico questiona: "Poderemos colocar os nossos corações nesta luta?"

"Os valores e as aspirações da Europa fazem desta muito mais do que apenas uma geografia", defende. "Essa ideia de Europa merece canções escritas sobre ela, e grandes bandeiras azuis e brilhantes acenadas". Assim, aproveitou para anunciar a ideia "provocadora" que a banda teve para a sua próxima digressão. "Disseram-me que uma banda de rock está no seu melhor quando é um pouco transgressora: quando estica os limites do chamado bom gosto, quando choca, quando surpreende", escreveu, adiantando que a banda pretende, durante o concerto, agitar uma bandeira da União Europeia, "grande, brilhante e azul".

"Imagino que mesmo para um público de rock, agitar uma bandeira da UE nos dias de hoje é um aborrecimento, uma chatice, uma referência kitsch ao Festival da Eurovisão, mas para alguns de nós tornou-se um acto radical", sublinha ainda. O músico lembra que a mesma Europa que durante muito tempo provocava um bocejo, mas que "hoje desencadeia uma disputa de gritos na mesa da cozinha", que é um palco de forças poderosas, emocionais e conflituantes que vão moldar o futuro.

O vocalista aborda ainda a questão dos refugiados, saudando o facto de os alemães terem recebido refugiados sírios e ao mesmo tempo lamentando que mais países não se tenham juntado. Mostra-se ainda orgulhoso pela "luta da Europa para acabar com a pobreza extrema e as alterações climáticas" e "do acordo de Belfast e de como outros países se uniram à Irlanda na questão das fronteiras, reavivada pelo Brexit".

"Sinto-me privilegiado por ter testemunhado o maior período de paz e prosperidade de todos os tempos no continente europeu", acrescenta. Alerta ainda que todas essas conquistas "estão a ser ameaçadas, porque o respeito pela diversidade — premissa de todo o sistema europeu — está a ser desafiado" e salienta que "a diferença uma essência da humanidade e deve ser respeitada, celebrada e até mesmo cultivada".