Crítica

Os Saturnia continuam um mistério irresistível

Duas décadas depois, continuam um segredo por descobrir. Continuam a ser uma viagem sem chegada prevista a lugar algum, uma viagem que não esmorece.

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The Seance Tapes são os Saturnia, mistério fascinante criado há duas décadas por Luís Simões, a mostrarem-se sob nova luz

É um álbum de estúdio e é um álbum ao vivo. Mal comparado, diríamos que é o Live at Pompeii (o filme concerto de 1972 dos Pink Floyd) dos Saturnia, com o cenário imponente de um velho anfiteatro romano transportado para o recolhimento de um estúdio. The Seance Tapes são os Saturnia, esse mistério fascinante criado há duas décadas por Luís Simões, a mostrarem-se sob nova luz. A banda que começou por encontrar ponto de equilíbrio entre viagens space-rock e transe de rave, entre calor orgânico e transcendência electrónica, esta banda que, ao longo dos seis álbuns editados desde o final do século XX, foi criando para si um lugar que habita o seu próprio tempo, resgata doze temas à sua discografia e deixa-os mostrarem-se, desenvolverem-se, interagir entre si.

A voz, as guitarras, a sitar, o theremin ou as linhas de baixo, estão a cargo de Luís Simões, os órgãos, piano e sintetizadores são tocados por Nuno Oliveira e a bateria está a cargo de André Silva. Um trio a envolver-se harmoniosamente com as programações electrónicas, ou seja, as tablas e os sons ambientais que flutuam em redor do trio que comanda a viagem. E que viagem.

Infinite Chord é ascensão electrónica com mellotron a conduzir o caminho, é rave para kraut-rockers em busca de libertação. I am utopia são silvos de sons a ocuparem todo o espaço enquanto a secção rítmica dá uma sensação de incerteza, de perigo, ao caminho percorrido, e poderia ser banda-sonora de uma criação de Alejandro Jodorowski – é mostrar-lhe a canção e ele tratará de se inspirar. A burnt offering e Gemini perseguem moléculas de Meddle ou de More, clássicos Floydianos, para nos avisar que, sim, devemos voltar ao sítio onde fomos felizes. Enquanto isso, The real high, consegue, à uma, aliciar-nos com uma melodia escorreita, Beatlesca, enquanto trata a cítara como arma sónica ameaçadora – imaginemos os Velvet Underground armados com o instrumento clássico indiano.

Os pontos cardeais apontados são, assinale-se, meros indicadores que não fazem justiça à música. Neste ao vivo no estúdio dos Saturnia, as canções estendem-se por sete, oito, nove minutos, com os músicos a envolverem-se no som, a serem transportados por ele enquanto nos levam consigo. Exemplarmente tocado, mostra-nos canções que conhecemos, as de álbuns como Hydrophonic Garden, The Glitter Odd ou Alpha Omega Alpha, recriadas e recontextualizadas no fervor do momento. Mostra-nos como esta banda onde convivem space-rock, kraut e prog, esta banda onde se conjuga o prazer pelos sons do Oriente, a curiosidade pela exploração electrónica e o fervor físico do rock’n’roll, continua a descobrir em si novas latitudes.

Duas décadas depois, os Saturnia continuam o mesmo mistério fascinante, continuam um segredo por descobrir. Continuam a ser uma viagem sem chegada prevista a lugar algum, uma viagem que não esmorece. Nós acreditamos na necessidade de continuar, nós continuamos com eles, olhar atento a todos os recantos deste universo que é refúgio necessário e irresistível.