Fósseis de um suposto morcego reescrevem chegada dos lémures a Madagáscar

Nova análise a umas mandíbulas mostrou que, em vez de morcegos, pertenciam a lémures. Além disso, percebeu-se que houve duas linhagens distintas (e não uma) destes primatas a ir para Madagáscar.

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O aie-aie, um primata endémico de Madagáscar David Haring

Há fósseis que ocultam grandes pormenores de uma história. É o caso de três mandíbulas parciais guardadas no Museu Nacional do Quénia. Até agora, pensava-se que esses fósseis fossem de morcegos, mas após uma nova análise percebeu-se que eram de um primo do aie-aie – que pertence aos primeiros ramos da árvore genealógica dos lémures. Remexeu-se assim na história dos lémures e sugere-se num artigo científico na última edição da revista Nature Communications que houve duas linhagens independentes (e não uma) que foram do continente africano para a ilha de Madagáscar.

Tudo começou nos anos 60. Havia três partes de mandíbulas – cada uma com cerca de 2,5 centímetros de comprimento – e alguns dentes com menos de três milímetros. Em 1967, o paleontólogo George Simpson classificou esses fósseis do início da época do Mioceno (cerca de 23 a 16 milhões de anos) como membros do género Loris, primatas nocturnos. Mas o paleoantropólogo Alan Walker convenceu os colegas que pertenciam a um morcego frutívoro. E assim ficou morcego: chamava-se Propotto leakeyi.

Contudo, 50 anos depois, Gregg Gunnell, do Centro do Lémure em Duke (EUA) e um dos autores do artigo científico, voltou a analisar os fósseis e pareceu-lhe que tinham mais características de primatas do que de morcegos. “O Gregg escreveu-nos e disse: ‘Digam-me que estou louco’”, lembra Erik Seiffert, da Universidade da Califórnia do Sul (EUA) e também autor do estudo, em comunicado da Universidade de Duke. A partir daí, foram vários cientistas a estudar essa “loucura”.

Para saber a verdadeira identidade do Propotto leakeyi, analisaram-se mais de 395 características anatómicas e 79 genes de 125 espécies de mamíferos vivas ou extintas. Também se examinaram microtomografias de raios X a mandíbulas de 42 grupos de mamíferos. Concluiu-se que tinham características em comum com o Plesiopithecus  teras – um primata extinto parente dos lémures que viveu há 34 milhões de anos e encontrado no Egipto – e que pertenciam a um lémure da infraordem dos quiromiiformes. Percebeu-se ainda que tanto o Plesiopithecus  teras como o Propotto leakeyi eram primos do aie-aie.

“O que sabemos sobre o Propotto é completamente baseado nos dentes e mandíbulas. Esta espécie tinha dentes pós-caninos uniformes e um dente gigante na frente da mandíbula, provavelmente um dente incisivo, que deveria sobressair como um espinho”, descreve ao PÚBLICO Erik Seiffert. Já o aie-aie (Daubentonia madagascarienses), com os seus dedos finos, é um primata nocturno que vive nas florestas ou mangais de Madagáscar. Está classificado como estando “em perigo” pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e as principais ameaças são a destruição do habitat e a caça para alimentação ou superstições. Muitos locais pensam que é símbolo do mal.

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O aie-aie (Daubentonia madagascarienses) David Haring

Lémures em vias de extinção

Devido a estas ligações, a equipa sugere que os antepassados do aie-aie se separaram do resto da família dos lémures há cerca de 40 milhões de anos e que daí resultaram duas linhagens independentes que chegaram a Madagáscar: uma que levou aos aie-aies (quiromiiformes) e outra a todos os outros lémures (lemuriformes). Antes pensava-se que todos os lémures descendiam de antepassados que foram numa única leva para Madagáscar há mais de 60 milhões de anos e que tinham sido dos primeiros mamíferos a chegar lá. “Esta conclusão é importante porque implica que o aie-aie foi de África para Madagáscar independentemente de outros lémures”, considera Erik Seiffert.

Esta viagem foi feita pelo canal de Moçambique – porção do oceano Índico de cerca de 400 quilómetros entre Madagáscar e a costa Leste de África – ao mesmo tempo de outros mamíferos, como os roedores, ou ainda de sapos, cobras e lagartos. Os lémures podem ter sido arrastados durante uma tempestade e transportados por ramos de árvores ou outra vegetação.

Quando lá chegaram? Sabe-se que a origem dos lémures em Madagáscar é de há 19,9 milhões de anos. No artigo assinala-se: “Os nossos resultados não nos permitem abordar a questão de quando ocorreu a dispersão dos lémures para Madagáscar na janela de intervalo entre há 41 e 20 milhões de anos, o período obtido pelas nossas análises.” Como durante o final desse período, a distância do percurso até diminuiu devido ao menor nível do mar causado por uma maior camada de gelo na Antárctida. “É possível que os lémures não estivessem em Madagáscar até, possivelmente, ao Mioceno”, considera Doug Boyer, da Universidade de Duke e outro dos autores.

Por agora, a equipa vai continuar a procurar vestígios mais completos do Propotto, do Plesiopithecus e dos seus parentes. “Precisamos de mais informações de outras partes do crânio e do esqueleto para testar rigorosamente a hipótese de que estas espécies são antepassados do aie-aie”, frisa Erik Seiffert.

Os lémures vivem actualmente um período crítico. De acordo com uma recente avaliação do estatuto de 111 espécies e subespécies destes primatas pela IUCN, 105 estão “criticamente ameaçadas”, “em perigo” ou “vulneráveis”. “Esta avaliação não realça só o elevado risco de extinção dos lémures únicos de Madagáscar, mas é indicativo de graves ameaças à biodiversidade de Madagáscar como um todo”, disse Russ Mittermeier, da IUCN e chefe do gabinete de conservação da organização Global Wildlife Conservation, em comunicado.

Além de documentários, podemos ver os lémures nos filmes de animação Madagáscar. Esperemos que a “tribo” de lémures liderada pelo rei Juliano (onde também vive Maurício, o aie-aie), e que dança ao som de “I like to move it”, também chame a atenção para a peculiaridade destes primatas e mostre como devem ser protegidos.

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