Reportagem

De Rabo de Peixe, com orgulho

Muita coisa está a mudar na maior comunidade piscatória dos Açores. Aquela que já foi a freguesia mais pobre do país mostra hoje que é muito mais diversa — e exibe, orgulhosa, a sua identidade.
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José Ventura

O sol já começava a baixar quando chegámos à festa de casamento de Telma e Nuno. O pai, José Vieira, armador da vila de Rabo de Peixe, na costa norte da iIha de São Miguel, Açores, tinha-nos desafiado a passar por lá — a festa acontecia num sábado, a meio do Festival do Caldo de Peixe. Hotel de cinco estrelas, salão cheio, gente bem-disposta, vestidos vaporosos, azul-claro, verde-água, rosa delicado, cabelos enrolados em elegantes penteados, um ou dois caracóis a soltarem-se, os noivos a serem fotografados nos penhascos, contra o mar, ao fundo.

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É esta a imagem que José Vieira gosta de dar de Rabo de Peixe, da sua comunidade, do local onde sempre viveu, que é a sua vida, a da sua mulher e dos seus dois filhos. Está, como muita gente aqui, cansado da imagem que, dizem, é constantemente repetida pela comunicação social, que insiste em apresentar a vila piscatória como “uma das mais pobres do país”, cheia de problemas sociais.

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Não é assim, diz José Vieira e repetem outras pessoas com quem conversámos ao longo de quatro dias. Um dos que mais se têm empenhado em mudar essa imagem de Rabo de Peixe é Ruben Farias, responsável pelo Clube Naval e organizador do Festival do Caldo de Peixe. Encontramo-lo na manhã de quinta-feira, um dia antes do início do festival, ocupadíssimo com os preparativos de última hora — a tenda onde vão ser servidos os vários caldos, o palco onde os músicos vão tocar, a coordenação dos voluntários que virão ajudar.

Mesmo assim, tira alguns minutos para nos dar uma explicação introdutória do que é hoje Rabo de Peixe. A imagem mais icónica da vila, e que se repete em todas as reportagens, é a das ruas de casas pintadas com cores vivas, que descem até ao porto de pesca. Mulheres sentadas nos degraus das portas à conversa, crianças que correm por todo o lado, entrando e saindo das casas, miúdos mais crescidos, em calções e tronco nu, que jogam cartas sentados no meio da rua ou dão mergulhos no cais, homens nos cafés, gente a falar muito alto (parecem discussões, mas geralmente não são) — a impressão que temos é de que a vida aqui acontece mais fora de portas do que dentro das casas.

Esta é a maior comunidade de pescadores dos Açores, com o maior porto de pesca do conjunto das ilhas (representa 12,5% do pescado a nível regional), uma vila com uma cultura muito própria, por vezes difícil de perceber por quem chega para uma visita rápida (o sotaque açoriano cerrado dos habitantes também não ajuda ao fluir das conversas). Junto ao porto, na zona dos armazéns, há homens e rapazes a preparar as artes de pesca, a pôr os iscos, a consertar as armadilhas.

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“Há quem defenda que esta comunidade mantém os mesmos genes da pirataria de 1500”, brinca Ruben Farias. “Se derem uma volta aqui, talvez encontrem alguns ameríndios, alguns árabes. E há quem diga que, sendo a costa sul a zona que foi povoada naturalmente, tudo o que não era prestável foi empurrado para a costa norte e foram essas pessoas que encontraram aqui um cantinho e cá ficaram. Estes são os rabo-peixenses. Esta é a história, que espero que não seja verdade, mas o facto é que há uma comunidade piscatória aqui há muito tempo, pelo menos há 400 anos, que acaba por sentir na pele o peso da falta de formação.”

As coisas começam, lentamente, a mudar. E é isso que vamos descobrindo ao longo destes dias. No entanto, a pesca continua a ser a actividade principal, o centro da vida da vila e, ao mesmo tempo, motivo de orgulho para ela. Nesta comunidade piscatória de cerca de 4 mil pessoas (2 mil a trabalhar na pesca, 80 armadores), descreve Ruben, há “embarcações que fazem uma pesca costeira com sustentabilidade económica, que são de pessoas que simplesmente descobriram que têm de ser empresários”, mas há também “quem não consiga quebrar os laços familiares e pensar como empresário, e, por isso, com os mesmos meios não atinge os mesmos fins”.

Refere-se aos armadores que vão dando emprego a amigos e familiares, muitas vezes por solidariedade ou por pena, para os ajudar, e que, assim, põem em risco a viabilidade económica da sua actividade. E que, depois, muitas vezes, entram na “lógica do pedinte”. Existem, segundo Ruben, três realidades: os palangreiros, “que têm sucesso, com barcos até 12 metros, que conseguem ficar dois dias na água e que, com a arte de pesca do palangre de fundo, apanham espécies mais nobres”; os luleiros, que “vão à pesca com linha de mão, com barcos mais pequenos, que fazem a pesca de salto e vara do atum ou de lulas, e têm um estilo de vida equilibrado”; e os chicharreiros, “que são os que vão de barco durante a noite e só puxam uma rede, e entre esses, sim, há casos gritantes, levam muitas pessoas no barco e têm de dividir o lucro por todos, o que dá quase nada a cada um”.

Em termos geográficos, a vila também se organiza de acordo com estes “grupos”, com as três ruas principais que vão dar ao porto a ser ocupadas pelas vivendas dos donos dos barcos, e, em redor, os bairros sociais, mais pobres. Existe depois a “parte de cima”, habitada por uma classe média-alta. No passado, já houve uma divisão grande entre as duas partes da vila, marcada pela estrada regional: para cima eram “os homens da terra”, muitos dos quais chegaram à região durante o “ciclo da laranja”, no século XIX, continuando depois a dedicar-se à agricultura, e para baixo os “homens do mar”.

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Mulheres rabopeixenses durante o Festival do Caldo de Peixe

“Há 20 anos, ninguém do mar ia à terra. Um pescador que fosse encontrado num café podia ter problemas, podia haver pancadaria”, recorda Ruben. Havia dois clubes de futebol, duas bandas de música e até duas festas do Espírito Santo, a da Beneficência e a da Caridade. “Hoje”, garante, “as coisas estão diferentes e a integração é plena” e até o tradicional baile dos pescadores (a que iremos assistir durante o Festival do Caldo de Peixe) é já imitado pelos “da terra”.

Contra a “política do miserabilismo”

Estamos a meio da conversa com Ruben Farias quando chegam José Vieira (o pai da noiva do início desta história) e o filho, Sandro, 22 anos. Vêm contar a sua história, que é a de um armador que venceu na vida, passou momentos difíceis mas orgulha-se do que conseguiu, do barco, da vida da pesca e de, hoje, o filho, depois de terminado o 12.º ano, lhe ter seguido as pisadas e sair também para o mar, à frente dos seus homens, que ao todo são 15, oito no mar e sete em terra.

“O meu avô já tinha barco, o meu pai teve dois, depois eu comecei com o meu e agora o meu rapaz quer dar seguimento”, conta José Vieira, recordando que teve de deixar a escola quando tinha quase 14 anos — “eu queria estudar, mas o meu pai disse que não, não vais estudar, vais é para o mar”.

Sandro fez o 12.º, mas “desde puto” que sempre gostou do mar e da pesca. “Houve uma altura, quando acabei o 9.º ano, em que não queria ir mais para a escola, queria dedicar-me por completo à pesca, mas os meus pais disseram que não. As pessoas que deixam de estudar cedo para se dedicar à pesca não é para serem armadores, é para serem apenas tripulantes. É uma coisa que já vem da educação em casa.” Muitos, explica Sandro, começam a namorar, a namorada engravida, sai da escola e o rapaz tem de sair também para começar a trabalhar e sustentar a família.

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José Vieira e o filho Sandro

Mas, também no que diz respeito às mulheres, as coisas começam a alterar-se em Rabo de Peixe. Lurdes Baptista, que encontramos ao final da tarde sentada a uma das mesas corridas no Festival do Caldo de Peixe, nunca foi uma mulher igual às outras. “Estou há 40 anos na pesca, mas era um caso raro”, conta. “No início, era muito criticada, agora não, mulheres como eu já são bem vistas, valorizadas.” Veio “da terra” mas casou com um pescador. “Sou do concelho de Lagos, era camponesa mas virei pescadora. Cheguei a ter de chamar a polícia para poder trabalhar, para poder ir para o mar, tudo porque os homens não me queriam ver no ramo da pesca.”

Mas ela — conhecida entre os pescadores como “a Baptista” — nunca desistiu. E sempre teve uma coisa muito clara: “As mulheres não se valorizam porque pensam que quem está trabalhando está ajudando os maridos. Eu não. No meu caso não era ajudar o marido, eu estava a trabalhar, trazia rendimento para casa. Hoje penso: tanto que eu fui criticada e agora só falta pegarem-me ao colo. Já me vêm pedir opiniões, querem saber o que eu acho disto ou daquilo.”

Sentado ao lado de Lurdes está outra mulher pescadora, Maria de Fátima Garcia, fundadora da associação de mulheres Ilhas em Rede. “Sou pescadora-mestre, trabalho com o meu marido, saio no barco diariamente.” E que tipo de trabalho faz no barco? “Todos, desde a manutenção, o abastecimento, a pesca, carga e descarga em lota. Faço o trabalho que qualquer homem faz.” Mas, ao contrário de Lurdes, garante que nunca se sentiu discriminada, o que atribui essencialmente ao facto de ser do Faial, onde “as mentalidades já são diferentes”.

Em 2016, Lurdes Baptista andava no mar, como sempre, e sofreu “uma tragédia”: “Perdi a minha embarcação, que significa que perdi a minha vida toda, os meus rendimentos.” Com o apoio de muitos amigos conseguiu reerguer-se e, depois disso, houve quem a desafiasse a criar uma associação para ajudar os outros. “Sempre andei atrás dos meus direitos, sempre fui muito activa, por isso, chegou um dia em que disse ‘vamos avançar’.”

Nasceu, vai fazer dois anos, a associação Sete Mares. Com que fim? “Os nossos pescadores e armadores têm dificuldade em perceber as leis, as medidas. A gente ajuda nisso, dizendo ‘vá fazer isto’, ‘olhe que aquilo é proibido.” Cátia Botelho, 35 anos, vice-presidente, explica com mais detalhe: “Há a parte da legislação e a parte burocrática, às vezes até ajudamos a ler uma carta que eles não entendem. Além do apoio da logística do mar, muitas vezes damos apoio na logística familiar.”

A Sete Mares não é uma associação apenas de mulheres (ao contrário da Ilhas em Rede) mas também tem ajudado a valorizar o papel destas. O problema, diz Cátia, é que “há muitas mulheres ligadas à pesca mas escondidas, que têm vergonha de dar a cara”. Não são muitas, como Lurdes ou Maria de Fátima, a sair nos barcos para o mar (nas nove ilhas dos Açores contam-se pelos dedos da mão) mas há muitas em trabalhos de apoio.

Cátia confirma que a cultura está a mudar. “Já se começa a ver raparigas de 20 anos com carta de condução, as mentalidades começam a abrir-se não só da parte delas mas dos maridos, das mães. Já se vê algumas com 16, 17, 18 anos que querem ir estudar.” O problema, diz, é que há ainda uma “política do miserabilismo” em que “convém a muita gente dizer que Rabo de Peixe é pobre”.

"A vida a enorme"

E, afinal, até que ponto a freguesia que se cansou de ser sempre associada à ideia de pobreza é ou não pobre? Continua a ser a freguesia portuguesa onde há mais beneficiários do Rendimento Social de Inserção (RSI), o que, segundo Ruben Farias, se por um lado ajuda a reequilibrar as desigualdades, traz outros problemas, levando por vezes os armadores a terem dificuldade em encontrar homens para trabalhar, porque o que se paga num barco pode ser menos do que o RSI.

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Por outro lado, é comum ver-se Mercedes e BMW à porta das casas e, muitas delas, no interior, não só dão confortavelmente para as famílias alargadas (muitos filhos casam e ficam a viver com os pais), como estão equipadas com boas televisões e aparelhagens, sinal de que, como diz José Vieira, “quem sabe gerir a vida da pesca vive bem”.

Artur Moniz é filho de pescador mas representa um dos exemplos de uma nova geração que, ao contrário de Sandro, decidiu seguir um caminho diferente — mas nunca se afastando muito da sua terra. É guia turístico da Tiko Adventures, empresa que tem como lema “seja um local, não um turista”. “Desde miúdo que sempre gostei de viajar, sempre tive aquele bichinho de sair daqui. Por isso, vivi noutros países, inclusive em Inglaterra, onde passei três anos. Sempre fui fascinado por línguas e poder mostrar aos outros a beleza que é a minha terra… isto para mim não é trabalho, é prazer.”

Nos passeios que faz por São Miguel, inclui uma passagem por Rabo de Peixe. “Tento mostrar às pessoas o que é fazer parte da comunidade. Levo os meus clientes lá abaixo, ao cais, mostro como é que a malta trabalha com o peixe, como é que se fazem os apetrechos, tudo o que está por trás da cultura da pesca, os dias que se passam no mar, sem ver a família, as condições adversas do clima, e isto acaba por valorizar um bocadinho mais o trabalho dos pescadores.”

Infelizmente, acrescenta, o estigma associado a Rabo de Peixe ainda é grande — sobretudo entre os portugueses, e até entre os açorianos. “A primeira coisa que me dizem é: ‘Oh pá, Rabo de Peixe, mas aquilo é superperigoso, vais trancar o carro, não é? E uma das coisas que eu faço de propósito é precisamente deixar o carro destrancado com a máquina fotográfica, a carteira, o tablet, tudo dentro. Até hoje nunca tive problemas.”

Acredita que uma das suas funções como guia turístico é “desmistificar a ideia que as pessoas têm sobre Rabo de Peixe”. Aponta a rua à nossa frente. “Tem fama de ser uma das favelas dos Açores, quando na realidade olhamos e é BMW, Mercedes, toda a gente tem um iPhone. Não percebo como é que uma zona assim é considerada a mais pobre de São Miguel. Não faz sentido nenhum.”

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Uma visita a Rabo de Peixe precisa, talvez, de algum enquadramento. Ruben Farias ri-se enquanto esclarece: “As pessoas falam alto por natureza, é a forma que têm de se expressar. Os primeiros 30 segundos não são para ligar.” Artur Moniz acha que “o que as pessoas não percebem relativamente a Rabo de Peixe é o sentido de comunidade, que é uma coisa que noutros sítios já se perdeu”. Um exemplo, que, na sua opinião, exige alguma explicação: o grande número de cafés que existem na vila. “Muita gente passa aqui e diz: ‘Essa gente não trabalha, passa a vida no café.’ Mas, se pensarmos um bocadinho, eles saem para a pesca e depois é natural que se juntem no café, onde se continua a manter a tradição antiga de repartir o salário.” O barco regressa a terra, o peixe é levado até à lota e, pouco depois, o dinheiro já está na mão do armador, “que reúne a tripulação no café ou em sua casa, para fazer a divisão do quinhão”.

É na lota que encontramos Gilberto, de 26 anos, luleiro. Falamos com ele no final do leilão das lulas, que acontece todos os dias às 14h, e ele conta-nos como gosta do seu trabalho e da vida em Rabo de Peixe. “Já fui para o estrangeiro, estive na América, mas não gostei. Voltei. Ando seis, sete horas no mar, e gosto do que faço.” O que é que torna Rabo de Peixe especial?, perguntamos-lhe. “As pessoas dão-se bem, os pescadores são todos amigos.”

Mas é preciso preparar o futuro. Luís Rodrigues, director Regional das Pescas, pensa nisso. Em primeiro lugar, explica, por causa da sustentabilidade e da necessidade de preservação dos recursos marinhos. Os pescadores já se queixam de que há menos peixe e, apesar das quotas e dos períodos de defeso, é preciso, defende Luís Rodrigues, pensar em diversificar as actividades ligadas ao mar (a adaptação de embarcações de pesca de forma a que possam também levar turistas é um dos seus projectos).

Uma das medidas que tomou desde que assumiu o cargo foi levar perto de cem pescadores de Rabo de Peixe de volta aos bancos da escola, alguns inicialmente contrariados, mas que, diz o responsável pelas pescas, acabam por reconhecer a importância desta formação, que passou a ser obrigatória para obterem a cédula de pescador e poderem andar no mar.

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Numa vila muito virada para si, a abertura a outras pessoas e outras ideias tem vindo a ajudar à mudança de Rabo de Peixe. O Festival do Caldo de Peixe é uma oportunidade para estreitar esse convívio

“Os Açores têm pouco peixe, porque não temos uma plataforma continental, as águas são logo muito fundas”, alerta Luís Rodrigues. “Por isso, gostava que nem mais um euro fosse utilizado para aumentar o esforço de pesca. Antigamente, o investimento era todo em barcos e portos, mas eu quero investir na formação das pessoas.”

A par disso, está a trabalhar, juntamente com pessoas como Ruben Farias, para a valorização de espécies menos utilizadas — o Festival do Caldo de Peixe serve precisamente para, a partir de um prato muito popular praticamente em todas as ilhas dos Açores, mostrar o potencial de peixes que valem muito pouco em lota.

Assim, esperam Luís, Ruben, Artur, Lurdes, Cátia, José, Sandro e outros em Rabo de Peixe, as coisas vão começando a mudar e a imagem negativa da freguesia poderá começar a dissipar-se. Numa vila tradicionalmente muito virada para si mesma, a abertura a outras pessoas e outras ideias tem vindo a ajudar à mudança. Como diz Cátia, da Sete Mares: “Muito vai do convívio com pessoas como nós, que vimos de fora, temos outras experiências e que lhes dizemos: ‘Vocês têm de estar preparados para outras realidades, a vida não é fácil, não é só o que vai desta praça para baixo até ao mar, a vida é enorme.’”

O P2 viajou a convite do Festival do Caldo do Peixe do Clube Naval e da Associação de Pescas de Rabo de Peixe