EUA

John McCain: complexo desde sempre, rebelde quase sempre

Revia-se em figuras complexas, “nem totalmente boas, nem totalmente más, como acontece na vida real”, e dizia que o seu animal preferido era a ratazana, “porque é astuta e alimenta-se bem”. Morreu aos 81 anos, com cancro, sem nunca virar a cara a uma luta.
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A notícia da morte de John McCain era esperada desde sexta-feira, quando se soube que o prisioneiro de guerra e senador norte-americano suspendera os tratamentos que começara a fazer no ano passado, quando foi diagnosticado com uma forma agressiva de cancro no cérebro. No fim da vida, a apenas quatro dias de fazer 82 anos, este foi um dos poucos momentos em que o nome de McCain se cruzou com um dos traços mais estimados pelos seus pares na política e na vida militar: a previsibilidade.

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Nos últimos tempos, desde que Donald Trump deu início à sua caminhada até à Casa Branca, as qualidades e defeitos de McCain foram sendo exagerados ou diminuídos em função da batalha ideológica em curso nos EUA.

Para os apoiantes de Trump, McCain era o traidor que impedia o Partido Republicano de aprovar no Senado o programa do Presidente; para os críticos de Trump, era a voz da razão num partido cada vez mais fechado a conservadores e aberto a movimentos que só existiam nas margens.

Mas, para muitos outros, era o tipo de pessoa que ele próprio descreveu quando foi convidado pelo New York Times, em Maio, a nomear o livro que melhor retrata os corredores de Washington: "Advise and Consent, de Allen Drury. As personagens têm motivos mistos. As personalidades são complexas e as acções têm nuances. Nem são totalmente boas, nem totalmente más, como acontece na política e na vida real."

Nascido a 29 de Agosto de 1936, numa antiga base norte-americana no Panamá, John Sidney McCain III mostrou desde cedo a independência que viria a acompanhá-lo nas três grandes batalhas que travou: primeiro como prisioneiro de guerra, torturado e confinado a uma cela isolada durante metade dos cinco anos e meio em que esteve preso no Vietname; depois como senador do Arizona e candidato à Presidência dos EUA, quando alternou entre períodos de choque com o seu partido e mudanças de opinião durante as campanhas eleitorais que o obrigavam a fazer auto-críticas; e também no último ano, como homem debilitado por um glioblastoma que viria a tirar-lhe a vida mas não a energia e motivação para enfrentar Trump.

Coragem e indisciplina

Neto e filho de dois almirantes condecorados na II Guerra Mundial e na guerra do Vietname, entrou para a Academia Naval em 1954 com o peso do apelido às costas: John McCain Sr. e John McCain Jr. tinham-se tornado a primeira dupla de almirantes pai/filho na Marinha norte-americana.

Mas o comportamento do McCain mais novo, naqueles primeiros anos de vida militar, já deixava perceber que não haveria um terceiro almirante na família. Em 1958, depois de quatro anos de repreensões que quase lhe valeram a expulsão, acabou o curso — no lugar 894, ou 5.º a contar do fim, como recordaria anos mais tarde.

"Ele cultivava essa imagem. Nas fotografias da [escola secundária] Episcopal, aparece vestido com uma gabardina, com o colarinho virado para cima e um cigarro no canto da boca", escreveu Robert Timberg na biografia John McCain: An American Odyssey, de 1995.

Apesar dos vários casos de indisciplina, McCain viria a fazer carreira como piloto de caças, e foi nessa qualidade que pediu para combater na guerra do Vietname.

A história da captura em Hanói, em Outubro de 1967, é um dos episódios mais conhecidos. Mas há um outro episódio, ocorrido três meses antes, que deixou patentes a coragem e a determinação do jovem piloto — qualidades que viriam a ser determinantes para a construção do McCain político.

No dia 29 de Julho de 1967, quando McCain se preparava para descolar do porta-aviões Forrestal, no Golfo de Tonquim, um míssil disparado por acidente atingiu em cheio o seu caça. Morreram 134 pessoas, mais de 20 aviões ficaram destruídos e o Forrestal só voltou a ficar operacional dois anos depois, mas McCain escapou às chamas com ferimentos ligeiros. Em vez de regressar a casa, ou de pedir transferência para um serviço menos perigoso, pediu para ser colocado no porta-aviões Oriskany, onde participou em bombardeamentos de alto risco — foi durante um deles, em Hanói, que foi abatido e capturado.

Tortura e isolamento

Durante os cinco anos e meio de cativeiro, entre Outubro de 1967 e Março de 1973, ficou conhecido entre os seus captores como "príncipe herdeiro". O seu pai, nomeado comandante da operação militar norte-americana no Pacífico em 1968, era o "rei" que o inimigo queria vergar — se não pela força, pelo menos pela propaganda que representaria uma confissão do piloto. Submetido a tortura, espancado e pendurado com os braços esticados acima da cabeça, e posto em solitária durante dois anos, acabou por assinar uma confissão — confessou que tinha cometido "crimes de guerra" e "pirataria aérea". Mas nunca aceitou ser libertado, para não afectar a moral dos outros prisioneiros, que veriam nisso a expressão de um privilégio — o de ser filho de um dos mais destacados oficiais das Forças Armadas norte-americanas.

Quando foi libertado, em Março de 1973, chegou ao país como um herói. Mas os problemas físicos permanentes que lhe ficaram da tortura no Vietname mataram-lhe o sonho de vir a ser o terceiro almirante da família.

Foi depois disso, nos 36 anos de política que se seguiram, entre 1982 e o dia da sua morte, que a personalidade e o carácter de McCain revelaram ser mais complexos do que a sua história de bravura indicava. Nada que não se adivinhasse num homem que enfrentou a pressão de uma das famílias mais bem-sucedidas na vida militar norte-americana e anos de captura e tortura.

Em 2010, num artigo publicado na Vanity Fair, o jornalista Todd S. Purdum reflectiu sobre as várias mudanças de opinião de McCain, principalmente quando tinha de se apresentar ao eleitorado: "É bem possível que nada tenha mudado em John McCain, um sobrevivente implacável e egocêntrico que passou cinco anos e meio em cativeiro no Vietname, e que disse um dia a Torie Clark [antiga porta-voz de McCain] que o seu animal preferido é a ratazana, porque é astuta e alimenta-se bem."

Conhecido defensor de intervenções militares, a sua tendência para vacilar entre o que acreditava ser o mais correcto e o que julgava ser preciso para ganhar votos ficou patente em duas ocasiões.

Primeiro, em 2000, durante uma brutal campanha nas primárias da Carolina do Sul, voltou atrás na opinião de que a bandeira da Confederação era uma expressão de racismo e deveria ser retirada do edifício do Capitólio do estado. Mais tarde, depois de se ter retirado da corrida, que viria a ser ganha por George W. Bush, McCain fez uma das mais espantosas auto-críticas da política americana: "Temi que se respondesse de forma honesta não conseguiria ganhar as primárias da Carolina do Sul."

Depois disso, na segunda tentativa de chegar à Casa Branca, em 2008, escolheu a então governadora do Alasca, Sarah Palin, para sua parceira de candidatura pelo Partido Republicano. São poucos os que se esquecem de apontar essa escolha como um momento marcante na viragem do Partido Republicano para o Partido Republicano de Donald Trump.

Ainda assim, no meio de uma campanha que viria a ficar mais feia à medida que se aproximou do fim, McCain defendeu o carácter do seu opositor, Barack Obama, perante as acusações dos seus eleitores. Num momento que parece impossível de ser repetido hoje em dia, o então candidato do Partido Republicano respondeu assim, em 2008, a dois eleitores que ligaram Obama a terroristas: "Ele é um homem de família e um cidadão decente, com quem tenho desacordos em assuntos fundamentais."

O anti-Trump

A sua última batalha política, contra o Presidente dos EUA, teve o ponto alto em Julho do ano passado, poucos dias depois de ter sido diagnosticado com cancro. Ainda a recuperar de uma operação, com marcas visíveis na face, deu o voto decisivo para derrotar uma das propostas mais emblemáticas de Trump: o fim do Affordable Care Act, a lei de cuidados de saúde aprovada por Obama.

Apesar de ter dito que era a coisa certa a fazer, não escapou a ninguém que aquele momento tinha sido a oportunidade perfeita para responder à humilhação por que passou às mãos de Trump durante a campanha eleitoral: "Ele é um herói de guerra porque foi capturado. Eu gosto é de pessoas que não são capturadas."