Na Cantareira, com o poder de São Bartolomeu, o mar desfaz os trajes e cura as maleitas

Neste domingo, pela 76.ª vez, as ruas da Foz Velha encheram-se de gente para assistir ao Cortejo do Traje de Papel. Esta tradição nascida em 1942 e parte das Festas de São Bartolomeu terminou mais uma vez com o tradicional mergulho no mar.

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José Coelho/Lusa
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Mestre Eduardo Xavier, de 73 anos, nasceu e foi criado na Cantareira, onde se fez pescador. Neste domingo encarnou a personagem de São Bartolomeu, nas festas do santo com o mesmo nome. Fê-lo no Cortejo do Traje de Papel, tradição com 76 anos, parte de outra mais antiga – centenária –, que termina com um banho no mar da praia do Ourigo, na Foz, Porto, para que as maleitas dos participantes sejam curadas. Conhece esta tradição desde sempre e toda a vida participou nela. Este ano não mergulhou, mas foram muitos os que o fizeram depois do desfile para se libertarem dos males e dos trajes que se desfizeram na água.

Todos os anos, na última semana de Agosto, as ruas da Foz velha enchem-se de gente para assistir ao cortejo. Participam nele algumas associações locais, que durante meses a fio preparam a festa. Cada uma trabalha um tema para a ocasião. A Associação de Moradores do Bairro de Aldoar escolheu a lenda da Fonte da Moura, a Associação de Moradores do Bairro Social da Pasteleira optou pelas personagens do mundo artístico. O Orfeão da Foz fez um tributo à flor. A União de Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde fez uma homenagem ao Porto e recordou a segunda Invasão Francesa.

Precisamente na Cantareira, a meio da manhã ouve-se o som da Banda Marcial da Foz, que, à frente, abre caminho para o cortejo que segue pelo Passeio Alegre até à praia do Ourigo. Há uma diversidade de cores e sons que preenchem todo o percurso. O papel serviu para dar vida a um Freddy Mercury, a uma Marilyn Monroe ou a um Charlie Chaplin, vestiu um exército napoleónico inteiro, desenhou papoilas e outras flores que serviram de motivos para alguns dos trajes e moldou uma fonte que servia de cenário à lenda trazida por Aldoar.

Nos passeios há quem esteja a repetir a experiência. Muitos voltam todos os anos. Sentado numa cadeira próximo da berma está Manuel Ribeiro, 63 anos, que vem de Rio Tinto pela quarta vez consecutiva para ver passar a romaria. Voltou por admirar a capacidade de trabalho das costureiras que executam os modelos que os participantes usam. “Aprecio o pormenor dos trajes”, diz. Também gosta da animação. Desde que experimentou pela primeira vez em 2015 não faltou a mais nenhum cortejo.

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Veterana nestas andanças é Manuela Amaro, que nasceu há 60 anos e desde sempre viveu na Cantareira. Já participou no cortejo, mas este ano estava só para ver, como começou a fazê-lo quando tinha cinco anos. “Toda a minha vida me lembro de conhecer esta festa”, afirma. Desde essa altura, a romaria foi sofrendo algumas alterações. “Dantes era a festa de todas as famílias daqui. Havia mais animação e mais gente que vinha de fora em camionetas”, recorda. Havia quem assentasse arraias nos jardins das imediações em modo piquenique.

Personagem assídua nesta festa era o senhor Almeida que fazia questão de trazer sempre o seu cavalo, o Castelo. “Vinha todos os anos e entrava sempre com o cavalo no mar”, conta, aludindo para uma das figuras emblemáticas do Porto – o último agricultor da Foz. Este ano não o viu por lá.

Não sendo da Foz, é do Viso, o marido, Flávio Azevedo, também volta sempre. Começou a fazê-lo depois de conhecer Manuela. “Vinha pescar para esta zona e pesquei mais do que peixe. Saí daqui casado”, diz em tom de brincadeira. Agora vive na Cantareira.

O mestre do mar este ano não foi à água

É quando o cortejo chega ao Passeio Alegre que concentra mais gente. Parado na frente do desfile, espada numa mão e bíblia na outra, está o mestre Eduardo ou devemos dizer São Bartolomeu? Conhece aquele percurso melhor do que ninguém. Já o percorre por altura da festa de São Bartolomeu “desde miúdo”. Este ano diz-nos que não vai à água. Não tem medo do mar. Mal seria se tivesse. Ainda continua a exercer a actividade de pescador. Tem dois barcos na Cantareira baptizados com o seu nome. Tem outro mais pequeno que tem o seu e o da esposa. “Foi o primeiro barco que tive depois de casar”, recorda. É com ele que sai atrás da lampreia.

Motivo maior para não ir à água é a lesão que tem na perna. Ainda que a precisar de cura para aquele mal, prefere ver os mergulhos de terra. Outro motivo é não querer estragar o traje que usa. Depois do desfile segue para a Escola 85, onde até hoje decorre a exposição dos trajes.

Sente-se bem na pele de São Bartolomeu. Aos 73 anos já tem estatuto para ser figura de proa do cortejo. Começou a participar nele ainda com um dos fundadores, Joaquim Picarote, que em 1942 o organizou pela primeira vez com o banheiro da praia do Ourigo da época, José Padeiro. Na altura os trajes ainda eram feitos em papel de jornal. Hoje são feitos em papel crepe.

Perto das 13h era este o material que se desfazia nas águas da praia do Ourigo. Os mais audazes, que mergulharam, atiram o papel para terra para não se perder no mar. António Rafael, aos 57 anos, repete a façanha todos os anos e é um dos que se atira às ondas. “Faço-o pela tradição. Não sou supersticioso”, diz. Recorda um ano em que a maré estava vaza e não houve santo que lhe valesse para os ouriços que calcou.

“Este é o melhor banho do ano”, afirma sem dúvidas o presidente da junta local, Nuno Ortigão, que este ano entrou no cortejo como sargento-mor do Forte de São João Baptista da Foz. Diz-nos que o desfile, que conta com cerca de 450 participantes, demora cinco meses a ser preparado. Considera que todo o tempo que leva a ser montado vale o esforço: “É a nossa maior aposta em termos de investimento na freguesia e continuaremos a trabalhar para que não se perca a tradição.”