Opinião

A Igreja, a pedofilia e o celibato

Uma Igreja séria avaliaria o impacto do celibato no comportamento dos padres abusadores e tiraria daí consequências.

No início, a Igreja escondeu. Silenciou. Negou. Depois desvalorizou. Evitou pronunciar-se. Negociou acordos com vítimas. Finalmente falou. Pediu perdão. Criticou o clericalismo e as estruturas de pecado. Impôs certas normas de conduta e separou o que é pecado do que é crime. Pediu perdão outra vez. E tem pedido perdão com regularidade, à medida que saem mais notícias e mais documentários e mais filmes e mais relatórios sobre a dimensão catastrófica da pedofilia no seio da Igreja Católica. Pedir perdão é bom? Sim, no sentido em que é uma obrigação moral. Não, se se transformar numa expiação inútil, num arrependimento improdutivo e numa desculpa para a inacção – tipo: o Papa já assumiu a culpa da Igreja, o que é que querem mais?

Queremos muito, muito mais. Pedir perdão pode ser duro e humilhante, mas não faz com que a Igreja realmente saia da sua zona de conforto. Todas as missas começam pelo reconhecimento de que somos pecadores – já sabemos, muito obrigado, que os homens e a Igreja fizeram, fazem e farão coisas horríveis. É próprio da sua natureza. Aquilo que me parece imprescindível é que a Igreja discuta o que manifestamente não quer discutir, e que arranje forma de responder a estas perguntas essenciais: existe, ou não, uma relação entre celibato e pedofilia? O voto de castidade, conjuntamente com o voto de obediência, potenciou ou não a tremenda tragédia do abuso de crianças, ainda por cima maioritariamente rapazes, o que é uma anomalia estatística (fora da Igreja, os menores abusados são maioritariamente de sexo feminino)? A obrigatoriedade de abstinência sexual numa Igreja liderada em exclusivo por homens que exercem o seu magistério de forma largamente solitária contribuiu, ou não, para a massificação da criminalidade sexual no seio do clero?  

Pedidos de perdão oriundos do Vaticano já ouvi muitos. Respostas a estas questões não ouvi uma única. A última carta do Papa Francisco pode ser muito humilde e sentida, mas sobre isto diz zero – reconhece apenas que o número de “clérigos ou pessoas consagradas” envolvidas em abusos é “notável”. Mas porque é que é “notável”? Essa é a pergunta a que a Igreja não se atreve a responder. A que se deve este número absurdo de padres abusadores, que têm feito mais pelo ateísmo no mundo do que as obras completas de Karl Marx? Há paralelos com outras Igrejas? Os protestantes, os ortodoxos, os muçulmanos, os budistas têm a mesma incidência de comportamentos pedófilos no seio do seu clero?

Já existem estudos que mostram que não, que a incidência da pedofilia no seio da Igreja Católica é, de facto, superior, mas o que me interessa aqui não é iniciar uma guerra de links – até porque na internet há de tudo, para todos os gostos. O que me interessa é sublinhar que ninguém é capaz de responder melhor a estas questões do que a própria Igreja – tivesse ela a coragem de enfrentar a dura realidade e, em última análise, revolucionar a sua organização interna. Uma Igreja séria e sólida faria necessariamente duas coisas: 1) produziria um grande relatório, independente e público, à escala mundial, sobre a pedofilia na Igreja Católica nos últimos 50 anos. 2) Avaliaria o impacto do celibato no comportamento dos padres abusadores e tiraria daí consequências sérias. Quando isto for feito, a Igreja estará verdadeiramente a enfrentar a tragédia da pedofilia. Enquanto não o fizer, os pedidos de perdão são apenas formas santas de olhar para o Céu enquanto se continua a sujar a Terra.