Opinião

Interesses particulares e o bem comum

Além de quem quer sobrepor um suposto interesse ou bem municipal ao bem comum, há também quem ache que pode sobrepor-lhe o interesse ou bem corporativo.

O país foi mais uma vez castigado por incêndios. Desta vez, o drama maior passou-se no Algarve com o fogo de Monchique que durou mais de uma semana. Muito se disse já da falta de jeito com que o primeiro-ministro, António Costa, se referiu ao assunto, celebrando o facto de neste incêndio não se terem registado mortos e cometendo até a gaffe de apresentar o caso da excepção de Monchique como a confirmação da regra da boa prevenção que tem sido feita este ano, no rescaldo e na reacção nacional às tragédias de 2017.

Sobre a forma descuidada como o primeiro-ministro se referiu a esta questão nada mais há a acrescentar ao já dito, a não ser que mais valia ter estado calado. António Costa tem anos de experiência pública, política e mediática para saber medir as palavras e ponderar o tom e o conteúdo do que diz. Se em Monchique felizmente não houve mortos, tratou-se do maior incêndio em território europeu este ano e continua por explicar como um incêndio lavra uma semana – mesmo no meio de uma serra – sem ser travado, quando são envolvidos meios técnicos e humanos da envergadura dos que foram utilizados. Assim como está por explicar por que razão o comando das operações levou tantos dias a passar para o nível nacional.

No entanto, quando se volta a falar de incêndios, há que ter a justeza e a justiça de reconhecer o que mudou este ano. O facto é que este ano foi visível o investimento em prevenção. Podemos considerar e reconhecer que muito do que foi feito é propaganda. Mas devemos também sublinhar que a propaganda serve para isso mesmo: lançar o alerta, chamar a atenção das pessoas, preveni-las para o risco e levá-las a cuidar do bem comum.

Há, porém, um domínio em que Portugal tem um imenso défice, o da noção do bem comum, o da identificação dos cidadãos com o sentimento de comunidade, o da preservação do bem de todos. No rescaldo de Monchique e ainda com a memória viva da tragédia de 2017, durante o recente período de alerta máximo, entre 17 e 22 de Agosto, a Autoridade Nacional de Protecção Civil recebeu mais de 30 chamadas de pessoas que denunciavam estar a ver ou a ouvir rebentamento de foguetes, isto de acordo com dados recolhidos junto do gabinete de imprensa daquela instituição.

Mais, vivemos no passado fim-de-semana um psicodrama autárquico, protagonizado pelo presidente da Câmara de Viana do Castelo, o socialista José Maria Costa, que quis impor ao Governo uma excepção na proibição de lançamento de fogo-de-artifício a nível nacional, para poder rebentar os seus foguetes nas Festas da Senhora da Agonia. Quando a sua zona estava em alerta máximo, não só se atreveu a achar que a sua terra e a sua festa era a excepção que devia ser permitida, como o fez com um argumento não só absurdo como ridículo: a cascata de fogos é lançada sobre o rio, logo sobre a água, como se a acção de uma brisa de vento não pudesse levar uma chama saída de um foguete para um telhado, um quintal, uma mata mais distante.

Além de quem quer sobrepor um suposto interesse ou bem municipal ao bem comum, há também quem ache que pode sobrepor-lhe o interesse ou bem corporativo. A Associação Nacional de Empresas de Produtos Explosivos, depois de recebida pelo ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, emitiu um comunicado de vitimização que raia igualmente o absurdo.

Lamentam-se os empresários de pirotecnia que o Governo tenha proibido espectáculos de fogo-de-artifício durante o período de maior risco de incêndios. Alegam mesmo que entre Julho e Setembro as empresas de pirotecnia vão perder mais de cinco milhões de euros e pugnam para que o licenciamento volte a ser feito localmente, pois claro. De preferência pelo presidente da câmara que organiza a festa e paga os foguetes ou pelo comandante dos bombeiros local, que também é da casa.