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Como evitar riscos quando se viaja sozinho

Há empresas a combinar Inteligência Artificial e Internet das Coisas para melhorar a segurança do turista solitário. Porque muitos destinos de sonho também escondem riscos.
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O que têm em comum São Paulo, Cairo ou Kingston, além de prometerem umas férias inesquecíveis por boas razões? O facto de figurarem em listas dos sítios mais perigosos para se visitar sozinho – especialmente para mulheres. A segurança pessoal é uma prioridade e nos últimos anos têm surgido diversas soluções tecnológicas: desde alças anti-roubo para câmaras até carteiras que bloqueiam se forem furtadas, passando ainda por fechos portáteis para reforçar portas ou aplicações móveis que ajudam a encontrar embaixadas, gravam sons e vídeo em caso de assalto ou simplesmente alertar a família. De entre as muitas soluções possíveis, focamo-nos numa startup que passou em 2017 pela Web Summit em Lisboa e que vai lançar em breve duas ferramentas que prometem ajudar (seja mulher ou homem, turista solitário ou não) a lidar com alguns riscos.

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A solução chama-se WanderSafe, que combina uma aplicação móvel e um dispositivo de segurança pessoal, não violento. Aliando tecnologias diferentes (Inteligência Artificial e Internet das Coisas) a fontes de informação verificadas (bases de dados públicas e crowdsourcing), a WanderSafe dá informações críticas e fornece um equipamento que permite actuar de forma não violenta, alertar família e amigos em caso de problema e conectar-se a outros turistas que estejam na mesma área. Além disso, disponibiliza uma assistente virtual, a Jeni, que ajuda a evitar riscos desnecessários.

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A assistente virtual desenvolvida por esta "startup" chama-se Jeni e dá conselhos ao turista Jozu for Women/ DR

A app utiliza o GPS do smartphone para identificar o local onde se está e passa a fornecer informações (actualizadas de quatro em quatro horas) sobre crimes, incidentes e reputação desses sítios.

O dispositivo, por seu lado, tem o tamanho de uma chave de um carro e permite actuar de quatro formas em caso de risco: tem uma lanterna para iluminar locais sem luz; a mesma lanterna transforma-se num potente strob (uma luz que acende e apaga rapidamente pode servir para desorientar um potencial atacante); um alarme sonoro que debita a 140 decibéis (o que é bastante alto quando comparado com os 150 decibéis medidos à saída de uma coluna de som num concerto rock); e finalmente um botão que, uma vez accionado, envia alertas para três contactos previamente escolhidos pelo utilizador – e não precisa de ter sequer o telemóvel por perto ou ligado.

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Vista real do dispositivo, que ainda vai entrar na fase de produção Jozu for Women/DR

O funcionamento é independente: pode-se usar a app sem usar o dispositivo, mas combinar as duas ferramentas é a melhor forma de juntar os três requisitos para viagens mais seguras – “informação preventiva; equipamento e consciência do contexto”. Esta é a explicação de Stephenie Rodriguez, 49 anos, que diz ter viajado por 53 países até agora, sempre sozinha, e que acabou por criar algo de que ela própria sentia falta.

A app recorre a plataformas como a Crimestoppers, bases de dados públicas ou informaçoes canalizadas por outros viajantes para sinalizar zonas complicadas, descrever o tipo de riscos numa área, podendo enviar notificações aos utilizadores. Assim, ninguém é apanhado desprevenido. Um exemplo: o muito popular eléctrico 28, em Lisboa, é conhecido por ser terreno fértil para carteiristas. Qualquer turista que pretenda embarcar é antecipadamente avisado do risco potencial pela app. E caso alguma coisa corra mal, tem o dispositivo que lhe permite responder de forma não violenta.

Depois de duas startups ligadas aos media e à indústria hoteleira, Stephenie criou a terceira, a Jozu for Women (“jozu” é japonês e significa qualquer coisa como “fazer bem”), com a qual esteve na Web Summit 2017.

Na altura, o produto e a estratégia em que trabalhava ainda se  circunscrevia muito às necessidades das mulheres enquanto viajantes solitárias, mas nos meses que se seguiram houve diversas iterações, a mais importante das quais foi a de retirar a questão do género da equação – até porque a segurança é uma preocupação que toca a todos, em especial quando se está longe de casa. No início de Agosto, a empresa contratou um ex-executivo das “secretas” dos EUA, Thomas Pecora, que trabalhou 24 anos n a CIA e que passa a ser conselheiro de segurança da Jozu. As necessidades das mulheres mantém-se no DNA desta startup, mas este produto que desenvolve é universal, sublinha Stephenie, em entrevista.

Como nem todos podem ou querem viajar por aí na companhia de um segurança privado, este tipo de ferramentas, focadas na prevenção, acaba por ser uma solução mais discreta e barata. Porém, ainda vai ser preciso esperar: a app deveria ter sido lançada na App Store da Apple no início de Agosto, como revelou Stephenie Rodriguez, mas isso acabou por não acontecer. A mesma responsável aponta agora para o final de Agosto como momento do lançamento. Por outro lado, o dispositivo não está ainda à venda: será objecto de uma campanha de crowdfunding através da plataforma Indiegogo, através da qual a Jozu pretende angariar 40 mil dólares. É uma quantia pequena para uma startup que até agora angariou um milhão de dólares de financiamento, mas o recurso ao crowdfunding serve igualmente para avaliar o interesse dos consumidores e, ao mesmo tempo, produzir as primeiras unidades, levá-las para o mercado e testá-las em contexto real.

Para um videocast com a fundadora da Jozu sobre esta solução, clique aqui (YouTube).