Argentina

Kirchner é suspeita em mais um caso de corrupção, mas não descola de Macri nas sondagens

Polícia fez buscas às propriedades da ex-Presidente, acusada de encabeçar esquema ilícito que envolveu subornos de empresas em troca de contratos públicos. Kirchner denuncia “show mediático” e “perseguição política”.
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Cristina Fernández de Kirchner está novamente debaixo de fogo por motivos extra políticos, numa altura em que surge nas sondagens como a principal opositora a Mauricio Macri. A ex-Presidente da Argentina, anteriormente denunciada em casos de lavagem de dinheiro, encobrimento de terrorismo, entre outros, é agora acusada de encabeçar uma rede de corrupção, que implicou antigos ministros e mais de vinte empresas do país, durante a sua presidência (2007-2015) e parte da do marido Néstor Kirchner (2003-2007).

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O cerco apertou-se nos últimos dias com as confissões de empresários e ex-funcionários seus e na quinta-feira foram iniciadas buscas nas propriedades da antiga chefe de Estado, que reclama inocência.

Kirchner considera-se uma “perseguida política” e recusa contribuir para alimentar o “show mediático” que diz ter tomado a Argentina de assalto, com o intuito de desviar as atenções para a política económica desastrosa do Presidente Mauricio Macri, que, diz, pôs o país nos braços de uma nova crise. A actual senadora juntou mesmo o seu voto a 66 membros da câmara alta do Congresso na hora de dar luz verde às buscas policiais às suas próprias casas.

Cristina – como é habitualmente referida na Argentina – é uma feroz opositora do actual Governo e ameaça tomar o poder a Macri nas eleições presidenciais agendadas para o próximo ano. De acordo com uma sondagem da Synopsis, publicada pelo jornal Clarín, a diferença entre as intenções de voto nos movimentos políticos que Macri e Kirchner encabeçam é de apenas dois pontos percentuais: 32,4% para o Cambiemos e 30,2% para Kirchnerismo.

Números muito próximos que demonstram o estado de fragmentação do eleitorado e que, escreve aquele diário argentino, estão a reduzir o debate político a uma mera escolha entre corrupção ou crise económica.

A popularidade de Kirchner não foi significativamente beliscada com o novo escândalo judicial, tal como não tinha sido nos casos anteriores em que se viu envolvida. Segundo o inquérito, entre apoiantes e opositores, 82,8% dos participantes disse não ter mudado de opinião sobre a ex-Presidente, à luz deste caso.

Um dos principais alvos das críticas de Kirchner e do seu eleitorado é Claudio Bonadio, o juiz responsável pela maioria dos seis processos judiciais em que a antiga Presidente está envolvida, incluindo este último. O universo “kirchnerista” encara as investigações do magistrado como parte de uma “campanha pessoal” contra Cristina e rotula-o mesmo de “juiz anti-K”. 

Tal como no “caso AMIA” – em que Kirchner é acusada de traição pelo encobrimento de terrorismo, relacionado com o atentado de 1994 em Buenos Aires –, o juiz Bonadio voltou a pedir ao Congresso que retire a imunidade à senadora, para a poder deter. Mas os senadores apenas autorizaram as buscas às suas propriedades em Buenos Aires, Río Gallegos e El Calafate.

Subornos por licitações

A investigação judicial teve origem nas anotações que um ex-motorista do Ministério do Planeamento fez durante dez anos, em oito cadernos diferentes, e que contêm todos os detalhes sobre o esquema ilícito do qual ele fazia parte, como responsável por entregar os lucros a Cristina e Néstor – que morreu em 2010 –, em mão.

Segundo as informações recolhidas pela Justiça, que também incluem confissões de empresários e antigos funcionários dos Kirchner, estes terão recebido pagamentos avultados de empresários dos sectores da energia e construção civil, em troca de importantes contratos de obras públicas.

O caso, referido na Argentina como o escândalo dos “cadernos dos subornos”, também belisca Macri indirectamente, já que um dos empresários que prestaram depoimento na condição de “arrependidos” é um primo do Presidente: Ángelo Calcaterra, antigo responsável pela empresa Iesca.

A rede de corrupção envolveria mais de vinte empresas, suspeitas de entre 2005 e 2015 terem movimentado cerca de 160 milhões de dólares (quase 138 milhões de euros), e teria como peça-chave o antigo ministro do Planeamento, Julio de Vido, detido desde Outubro de 2017 por crimes de corrupção e associação ilícita.