Rasto da febre-amarela no Brasil pode ajudar a travar novos surtos

Trabalho de uma equipa da Universidade de Oxford, liderada pelo cientista português Nuno Faria, esclarece que o recente surto de febre-amarela no Brasil teve origem na floresta e só depois chegou às pessoas.

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O mosquito Haemagogus leucocelaenus um dos vectores responsáveis pela transmissão silvestre do vírus da febre-amarela Genilton Vieira/ IOC/Fiocruz

Mais do que apenas perceber onde e como começou o recente surto de febre-amarela no Brasil, o trabalho publicado esta sexta-feira na revista Science mostra como a combinação de várias tecnologias modernas pode ser decisiva para monitorizar surtos de doenças infecciosas em tempo real. A investigação coordenada por Nuno Faria, investigador português no Departamento de Zoologia da Universidade de Oxford (Reino Unido), apresenta uma “caixa de ferramentas” que poderá ser fundamental para o controlo de surtos deste tipo, ajudando, por exemplo, a tomar a decisão da vacinação das pessoas certas, no lugar certo e na hora certa. E isso, como é fácil de imaginar, pode fazer toda a diferença.

As mais recentes notícias sobre o surto de febre-amarela no Brasil contabilizam, segundo dados do Ministério da Saúde do Brasil, mais de 400 mortes e mais de 1200 casos de infecção confirmados por causa deste vírus, desde Julho de 2017. No artigo publicado agora na revista Science sobre este problema, os cientistas recuam ainda mais no tempo e apresentam um balanço mais negro, com 676 mortes e 2043 casos confirmados desde Dezembro de 2016 e até Março de 2018. Por cá, a Direcção-geral da Saúde divulgou uma nota no início de 2018 recomendando a vacina da febre-amarela (na consulta do viajante) a quem viaja para os estados de São Paulo, Rio de Janeiro ou Minas Gerais.

Com a investigação que resultou de um esforço inédito apoiado na combinação das mais recente técnicas genéticas e epidemiológicas para investigar a transmissão do vírus, percebeu-se que a distribuição dos casos, tendo em conta o género e idade das vítimas, era característica da versão silvestre do vírus da febre-amarela. “Existem duas formas principais de transmissão de febre-amarela nas Américas: a transmissão urbana, mediada pelo mosquito Aedes aegypti, o mesmo que transmite o Zika, a dengue e o chikunguya por exemplo; e a transmissão silvestre, mediada por mosquitos silvestres como os mosquitos Haemagogus e Sabethes e por primatas não humanos”, explica Nuno Faria ao PÚBLICO. Febre, dores de cabeça e musculares, náuseas, vómitos, fadiga e icterícia (que cobre a pele de um tom amarelado) são os sintomas desta doença hemorrágica viral aguda. 

Neste estudo que analisa o surto de 2016-2018 na região Sudeste do Brasil (o maior surto nos últimos 100 anos), os cientistas concluíram que “o problema” começou com a “introdução de uma estirpe de febre-amarela que veio, em última analise, da região amazónica, onde o vírus circula silenciosamente”. “Depois de introduzido em Minas Gerais em Julho 2016, o vírus espalhou-se rapidamente em populações locais de mosquitos silvestres e primatas não humanos a uma velocidade média de 3,3 quilómetros por dia e em direcção às grandes cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, possivelmente resultado do transporte de mosquitos infectados em camiões e/ou de tráfico ilegal de primatas não humanos”, refere o cientista. Apesar de estarem reunidas as condições para desencadear uma transmissão urbana do vírus “isso, felizmente, não aconteceu”, acrescenta.

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O investigador Nuno Faria (no centro da foto de braços cruzados) com a equipa de investigadores que participou no projecto Nuno Faria

Os investigadores cruzaram dados epidemiológicos com informação genética (sequenciaram 62 genomas de vírus de febre-amarela de humanos infectados e de primatas não humanos) para encontrar a origem do vírus e seguir-lhe o rasto. Nesta aventura foram usados novos métodos portáteis para sequenciação, como o sequenciador MinION que cabe na palma de uma mão, é barato e rápido nos resultados. Em aproximadamente duas semanas conseguiram triplicar a quantidade de genomas do vírus sequenciados no Brasil.

As análises mostram, adianta ainda o investigador, que os casos de febre-amarela em humanos foram “ocupacionais”, ou seja, 85% dos casos ocorreram em indivíduos do sexo masculino, que eram maioritariamente “trabalhadores rurais, que viviam em média a cinco quilómetros de áreas florestadas e que infelizmente não tinham sido vacinados”. O artigo refere ainda que estes homens tinham entre 35 e 54 anos.

Nuno Faria sublinha que os padrões epidemiológicos da febre-amarela silvestre e urbana são bastante distintos. Assim, se num cenário de transmissão de febre-amarela urbana não se espera encontrar diferenças entre a proporção de infectados por faixa etária nem por sexo, no caso da infecção silvestre (que tem sido o cenário exclusivo de transmissão de febre-amarela no Brasil desde 1942), os homens de 25 a 54 anos são mais frequentemente infectados pelo vírus. “Isto é uma consequência de vários factores, incluindo actividades ocupacionais [junto de áreas de risco]. Em geral, os homens tendem a recusar mais frequentemente a vacina, e é possível que a elevada proporção de óbitos em homens em meios rurais esteja relacionada com a falta de vacinação neste grupo de risco”, explica Nuno Faria.

Apagar o fogo ainda na ignição

Embora exista uma vacina muito eficaz para o vírus da febre-amarela, os stocks são limitados e não são oferecidos a toda a população no Brasil. Até há pouco tempo a vacina era dada apenas a pessoas que viviam na fronteira de áreas florestais consideradas de alto risco de infecção. Apesar disso, estima-se que existam 35 milhões de pessoas que vivem em áreas de risco no Brasil e que não estão vacinadas. “O vírus da febre-amarela afectou a humanidade durante centenas de anos. Surge em ondas a partir de um reservatório animal e, por isso, nunca o poderemos eliminar completamente. O problema é que ainda não sabemos o suficiente sobre o complexo comportamento do vírus em populações de animais. Precisamos dessas informações para controlar futuros surtos – para vacinar as pessoas certas, no lugar certo, na hora certa”, refere Oliver Pybus, professor de evolução e doenças infecciosas no Departamento de Zoologia da Universidade de Oxford, num comunicado sobre o estudo.

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O mosquito Aedes aegypti responsável pela transmissão urbana do vírus da febre-amarela REUTERS/James Gathany/Centros de Controlo e Prevenção de Doenças

Sobre um eventual perigo de assistirmos a um salto da transmissão silvestre para a urbana, Nuno Faria comenta que “é possível que haja um conjunto de mutações necessárias para que a linhagem genética que circula nas Américas se adapte à transmissão em mosquitos Aedes [o vector envolvido na transmissão urbana]”. “Isso seria realmente um problema enorme. Enquanto os vectores silvestres estão restringidos à floresta, o mosquito Aedes aegypti existe em todo o território brasileiro, bem como em regiões tropicais e subtropicais à volta do mundo”, constata.

E de que forma a procura das origens deste surto pode ajudar a garantir uma melhor vigilância e monitorização destas doenças infecciosas no futuro? “Os surtos causados por doenças infecciosas são como a fase da ignição de um fogo – quanto mais cedo o conseguirmos conter, maiores as hipóteses de controlar a sua progressão. Para eliminar a febre-amarela precisamos de melhor vigilância, coordenada e sincronizada, da transmissão do vírus em populações humanas, primatas não humanos e vectores.” O cientista lembra que a Organização Mundial da Saúde (OMS) quer eliminar as epidemias de febre-amarela até 2026, mas lamenta que, apesar disso, exista pouco financiamento para investigação e vigilância nos locais onde mais se precisa. 

Nuno Faria está muito longe de ser um novato nestas andanças de perseguir vírus perigosos e de lhes seguir o rasto por cidades, florestas e zonas rurais. Em Maio de 2017 publicou vários artigos na revista Nature onde desvendava as origens do vírus Zika nas Américas depois de uma viagem de mais de dois mil quilómetros num autocarro, levando a bordo o sequenciador genético MinION. Era um dos pontos altos do projecto ZIBRA (Zika In Brasil Real Time Analysis) e, na altura, já prometia novas viagens para vigiar outros vírus. A promessa está definitivamente a ser cumprida, como se vê neste artigo na Science. O futuro, adianta ao PÚBLICO, passa por uma acção ainda maior, à escala mundial. “Estamos a trabalhar com a OMS, bem com o Ministério da Saúde do Brasil e o Ministério da Saúde de Angola para montarmos um sistema de vigilância de vírus transmitidos por mosquito em várias localidades do mundo que seja capaz de gerar resultados que possam ser traduzidos em acções de saúde pública em tempo real.”