Coimbra

A cidade fora das paredes do IPO de Coimbra

Estas visitas guiadas à cidade são especiais. “É para vocês saírem do hospital e não estarem só a pensar nos vossos problemas.” O projecto é da Liga Portuguesa Contra o Cancro e destina-se a pessoas que só estão em Coimbra por causa dos tratamentos.
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Afonso Brás entra na carrinha de nove lugares e começa a ensaiar uma breve introdução ao passeio. O empresário reformado de 67 anos faz a vez de guia turístico e vai contando curiosidades sobre a cidade nos escassos minutos que separam o Instituto Português de Oncologia (IPO) de Coimbra do Museu Nacional Machado de Castro (MNMC).

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Pelo meio fala do “hotel mais barato de Coimbra” (a penitenciária) e, à chegada à Alta Universitária, onde se situa o museu, conta a história dos “caixotes” (Faculdade de Letras e antiga Faculdade de Medicina) construídos no tempo do Estado Novo. Antes, pouco depois de a carrinha arrancar, tinha descrito parte do propósito da visita: “É para vocês saírem do hospital e não estarem só a pensar nos vossos problemas.”

O grupo de oito pessoas tem pelo menos um ponto em comum: são doentes do IPO de Coimbra, têm de submeter-se a tratamentos diários e ficam, por isso, instalados na cidade.

Vêm de várias localidades da zona Centro e apenas ao fim-de-semana voltam a casa. De segunda a sexta, ficam alojados no hotel de doentes do IPO. Daí que o Núcleo Regional da Liga Portuguesa Contra o Cancro (NRC-LPCC) se tenha organizado para montar o projecto “Conhecer Coimbra”, com o objectivo de “não apenas distrair e de ocupar”, mas também de “promover a actividade cultural”, para que os doentes fiquem “a conhecer a cidade”, explica Sónia Silva, responsável pela unidade de voluntariado do NRC-LPCC.

Desde 2016 que a Liga promove esta actividade que começou de forma informal e com visitas a espaços públicos. “Depois fomos vendo que a receptividade dos doentes era grande” e o projecto foi crescendo, até serem firmados protocolos com entidades, como é o caso do MNMC. Actualmente, as visitas realizam-se às terças e às quintas e são acompanhadas por um dos quatro voluntários que integram o programa. Afonso Brás é um deles.

“Se não estivesse aqui agora, estava a ler”, conta Rute Cardoso, de 43 anos, ao PÚBLICO. No início de Agosto, quando a encontrámos, tinha vindo de Mação havia duas semanas e ia ter de ficar em Coimbra “pelo menos” mais quatro. “Ali está toda a gente doente” mas, sublinha, “as pessoas são muito positivas”. A questão é o tempo. Os tratamentos têm lugar uma vez por dia e duram entre 10 a 15 minutos cada, estima. “Temos o resto do dia todo.”

Um tempo que não é só preenchido com os passeios promovidos pela LPCC. Rute Cardoso refere que tem andado muito a pé pela cidade, apesar de, por vezes, se sentir algo debilitadas. Por isso, o facto de haver visitas guiadas e com transporte “é muito bom”.

Aos 78 anos, João Moringa conta com vivacidade que também vai dar as suas caminhadas. As datas saem-lhe com facilidade: está ali para fazer os tratamentos de radioterapia desde 20 de Junho e deve regressar a casa, em Monte Real, distrito de Leiria, em meados de Agosto (a data prevista quando falou ao PÚBLICO era dia 13).

Para se ocupar, faz também deslocações mais curtas, como aos Hospitais da Universidade de Coimbra, nas imediações do IPO, para visitar amigos da terra que estão lá por estes dias. Sobre o projecto que o leva a alguns dos pontos históricos da cidade, diz que “é uma forma de espairecer e conhecer”.

O acompanhamento das visitas está a cargo da equipa de voluntários da Liga. Afonso Brás, de boné e mala preta, pólo vermelho e calças bege, conta que anda nisto há cerca de três anos. O cancro de que sofreu a sua companheira foi há mais tempo, há 19. Quando se reformou passou a fazer voluntariado.

É ele que organiza o grupo na visita marcada para as 10h00, hora a que abre o museu, numa quinta-feira em que os termómetros chegaram aos 41 graus em Coimbra. Já no Machado Castro, onde o ar condicionado é bem-vindo, a cabeça do grupo é assumida pelo funcionário Humberto Vilão, numa viagem que percorre a história do edifício, começando no criptopórtico romano e indo até ao final do século XIX, altura em que deixou de servir de residência ao bispo de Coimbra.

Num museu em que parte significativa da exposição permanente é composta por arte sacra, a linguagem para descrever cada artigo não consegue ser neutra. Pelo percurso, Humberto Vilão vai fazendo pausas em frente às principais peças para as analisar. Na Deposição de Cristo no Túmulo, do escultor normando João de Ruão, na Última Ceia, o conjunto escultórico em terracota de Hodart, a Pietà, de Frei Cipriano da Cruz, e o Cristo Negro, de autor desconhecido. A temática é religiosa. Nesses pontos, é inevitável falar sobre o corpo, sobre a dor e sobre o sofrimento.

Já no final da manhã, Maria Augusta Pinho, que aos 66 anos veio de Aveiro, fala de “uma forma de distracção”. Apesar de ser de relativamente perto, “queria conhecer um pouco Coimbra”. O sistema de inscrição nas visitas é simples: é afixada uma folha num painel do IPO e escreve o seu nome quem quer. Sobre a questão da exigência física, Sónia Silva afirma que não há restrições à partida. “Damos sempre conta do tipo de passeio e é da responsabilidade do doente avaliar se tem condições para ir”, acrescenta.

A visita ao Machado de Castro foi a última antes de o programa voltar de férias, em Setembro. A visita às ruínas romanas de Conímbriga e a deslocação a Tentúgal, para observar como se fazem os conhecidos pastéis, são as viagens mais longínquas promovidas no âmbito deste projecto. As restantes são em Coimbra e fazem-se essencialmente por museus, igrejas, monumentos e espaços verdes, numa lista composta por 22 locais.

Ao fim de dois anos e meio, já participaram no “Conhecer Coimbra” mais de 1300 doentes, distribuídos por 180 visitas. “Não queremos que as pessoas associem a cidade apenas a um local negativo, onde vêm fazer os tratamentos”, afirma Sónia Silva.