Opinião

Unicórnios e os de dois

Fui procurar o que é a Farfetch, anunciada pela nossa imprensa como uma “empresa portuguesa” que vai estar presente em breve na bolsa de Nova Iorque.

Fui procurar o que é a Farfetch, anunciada pela nossa imprensa como uma “empresa portuguesa” que vai estar presente em breve na bolsa de Nova Iorque. Foi criada por um empresário português, é certo, tanto quanto percebi. Mas vi uma empresa inglesa, com sede em Londres, com um conjunto de accionistas que são tudo menos portugueses, incluindo a nada lusitana Chanel e diversos fundos de investimento estrangeiros.

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Isso torna só por si esta empresa automaticamente menos interessante? Não. Mas talvez nos deva obrigar, em especial à imprensa, a ser um pouco mais exigentes e claros quando falamos de “empresas portuguesas”. Desde logo falando desta Farfetch UK Limited que vende para 100 países a partir do Reino Unido.

Seria possível ter esta realidade com uma sede nacional, aqui pagando impostos e daqui expandido o seu negócio para o mundo? Provavelmente não. Mas sobre isso seguramente o seu criador poderia ter algo a dizer, com interesse para a imprensa e para os decisores públicos. Seria possível esta sua empresa - ou outras – assumir este aparente sucesso se se sediasse entre nós? E porque não?

Não deixa de haver uma certa ironia no facto de que o nosso “unicórnio”, a “empresa portuguesa” do momento – que é afinal uma “empresa inglesa” – seja uma loja online de roupa de luxo sedeada em Londres, onde uma mala ou umas calças custam mais do que o salário mínimo nacional – e facilmente duas e três vezes o seu valor. Sou um chato, eu sei, mas ao passar os olhos pelo catálogo da Farfetch só me conseguia lembrar de Lipovetski (sim, não serei o cliente-tipo da loja...) e da sua De la légèreté (tradução “Da leveza”, nas Edições 70). Cada um com as suas taras...

Percebe-se bem o atractivo do luxo, elemento histórico que até cumpriu um papel relevante na história nacional. A Farfetch parece ser, desse ponto de vista, um notório techno-sucessor das naus que levavam para a Flandres coisas de valor, mesmo se agora “leves” pelos critérios dos filósofos. E sabemos como aquela história acabou. Esperemos que esta acabe melhor.

Outra ironia próxima é, no campo noticioso, a Farfetch, bom exemplo dessa leveza contemporânea, concorrer com a notícia da morte de Pedro Queiroz Pereira, industrial dono de indústrias pesadas e até portuguesas. Simbolicamente, acabou a era da produção – ou ela tornou-se outra coisa – e estamos de facto apenas no tempo do consumo light?

Nunca conheci Pedro Queiroz Pereira, mas recordo uma reunião com um responsável pela então Portucel há alguns anos. Ao contrário de diversas reuniões que tive nesse ano, com empresas “modernas”, de serviços, esta não decorria num escritório envidraçado, cheio de dizeres cool pelas paredes e com taças inflaccionadas de maçãs verdes, no centro de Lisboa, mas sim no complexo industrial da Mitrena, em Setúbal, numa sala de trabalho sem atractivos, que era onde até os quadros directivos que não tinham directamente relação com o processo produtivo do papel também tinham o seu local de trabalho.  

A reunião, para mim, correu muito bem: porque saí de lá com um respeito acrescido pelas empresas que produzem algo de palpável e visível, para além de uma conversa, e com a convicção de que atraem pessoas reais e com valor para trabalhar consigo. Para além de me parecerem estrutural e saudavelmente blindadas às conversetas dos “comerciais” dos serviços do nosso tempo. Afinal, quem produz a sério tem naturalmente menos paciência para os que apenas o fingem fazer...