Opinião

A teoria do sistema-mundo e a política internacional

O capitalismo é uma máquina infernal que necessita continuamente de novas áreas geográficas para explorar.

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Reuters

A teoria de Immanuel Wallerstein compilada em The Modern World System, cujo último volume foi publicado em 1980, analisa o sistema económico e político mundial a partir da época dos Descobrimentos. É influenciada pela importante obra do historiador Fernand Braudel, de quem Wallerstein foi muito próximo. Segundo ela, o mundo viu ser criada a partir do século XVI uma clivagem entre os países ricos do centro e as populações pobres da periferia. E assim teria nascido uma supremacia económica, política, tecnológica e até ideológica, que resultou em primeiro lugar na conquista e ocupação de largos espaços e riquezas de outros continentes por algumas potências europeias e mais tarde pelos Estados Unidos da América. Esse movimento corresponderia, nos primeiros tempos, ao crescimento do mercantilismo e mais tarde do capitalismo industrial.

Mas para alguns, essa supremacia só se acentuaria nos últimos 200 anos, em que se verificou a consolidação do capitalismo desenvolvido a partir das Ilhas Britânicas e em seguida disperso pelos Estados Unidos e por alguns países da Europa, o chamado “crescente industrial”, cuja ponta começa em Manchester e passa pelo nordeste da França, Bélgica, Luxemburgo, a Ruhr alemã, norte de Itália e Catalunha, a ponta final do crescente.

Antes, ou seja, durante mais de mil anos, a principal produção e exportação de bens industriais e de consumo, que ultrapassava em mais de 50% o PIB mundial, encontrava-se na Ásia, nas suas duas maiores potências, China e Índia. Esta última era a maior exportadora de têxteis e a China difundia os seus produtos através da conhecida “Rota da Seda”. Há cerca de dez anos, quando fiz uma análise geopolítica decorrente da grave crise mundial que deflagrou em 2008, deparei com a obra de Kishore Mahbubani, The New Asian Hemisphere – the irresistible shift of global power to the East, saído nesse ano, e que incorporei na bibliografia da minha tese de doutoramento sobre o tema da Europa Potência Civil. Uma década passada, aí está de novo o ex-funcionário das Nações Unidas e da diplomacia de Singapura, com um título em português, A Queda do Ocidente?, que não só confirma o diagnóstico da transferência de um importante poder económico e político para o Oriente, como introduz “alguns conselhos” para as potências ocidentais lidarem com a nova situação geopolítica.

É por demais evidente que não se podem fazer análises geopolíticas sem ter em conta, em qualquer momento da História, os interesses económicos e estratégicos em jogo e pelos quais as nações se batem, que nem sempre aparecem claramente à luz do dia. Assim, afirmar que Putin é um ditador e que tem de ser boicotado, como queria algum establishment inglês aquando do último Campeonato do Mundo de futebol na Rússia, é de uma infantilidade absoluta. Ou dizer que a China é uma ditadura, quando as decisões de carácter político e económico são tomadas por um largo conjunto de elementos das elites chinesas, é não perceber o que se passa nos Estados Unidos, por contraste, onde o mesmo tipo de decisões são tomadas por um reduzido número de representantes da elite militar-industrial, que manda no país. E onde mais de metade da população não tem qualquer participação política. Isto foi bem visível quando a América se lançou na guerra do Iraque em 2003, com George W. Bush. Com Obama e a sua utilização dos drones mortíferos para aniquilar inimigos em vários pontos do globo. E agora com Trump e as suas decisões erráticas, disparando em todos os sentidos como bem lhe apetece. Resta o respeito pelos direitos humanos a nível individual. 

Mas serão os Estados Unidos exemplo para o mundo? Onde, para defender uma indústria de armamento de muitos biliões de dólares, se continua a permitir que sejam vendidas armas de guerra nos supermercados e, em seguida, influenciados pela horrível cinematografia hollywoodesca de violência, também presente nos canais de televisão, indivíduos sem qualquer sentido crítico são levados a cometer os crimes mais bárbaros, às centenas, em escolas e outros lugares públicos? Onde, ainda a nível interno, os cidadãos negros, e por vezes os hispanos, são perseguidos e mortos pela polícia à queima-roupa, suspeitos pelo simples facto de serem negros, como aconteceu durante a presidência de Obama? E onde, na prisão de Guantánamo, que dura há mais de 15 anos, muitos detidos, torturados ali ou em outros locais, passaram anos sem verem um processo de acusação? E no exterior, as cerca de mil bases militares espalhadas por todo o mundo e as esquadras navais em todos os oceanos serão para defender os interesses dos cidadãos dos Estados Unidos, dos quais cerca de 50 milhões não têm acesso a cuidados de saúde e muitos outros vivem em situação de pobreza, em guetos ou reservas, como os índios americanos? Quem, com um mínimo de sentido de justiça, poderá apoiar o governo de um país que, contabilizando apenas o período depois da Segunda Guerra Mundial, provocou milhões de mortos nas dezenas de intervenções militares directas ou por outros meios, em vários pontos do globo, como ainda recentemente salientou o norueguês Johan Galtung, especialista em estudos da paz e da guerra?

É claro que por detrás de uma aparente democracia está um sistema “business  friendly”, em que tudo é feito para facilitar os negócios das empresas milionárias, em detrimento dos interesses dos cidadãos. Por exemplo, os medicamentos nos Estados Unidos são dos mais caros do mundo, mas as pessoas que vivem perto do Canadá, onde eles são mais baratos, estão interditas de ir ali comprá-los. Os impostos para os ricos são alvo de reduções periódicas, chegando-se ao ponto de alguns multimilionários, como Warren Buffett, se queixarem de pagar poucos impostos. As medidas social-democratas que tinham sido implementadas pelo Presidente Franklin Roosevelt, aquando da Grande Depressão, no final dos anos 1930, foram desmanteladas pela fúria neoliberal do tempo de Ronald Reagan. A tal ponto que se começou a falar novamente na América de socialismo, de um socialismo democrático, que tem tido eco em muitos movimentos da juventude, como no Reino Unido igualmente, onde o leitmotiv do programa dos trabalhistas é For the  many, not  the  few. A campanha de Bernie Sanders nas últimas eleições presidenciais americanas lançou essa palavra de ordem do socialismo democrático e em outras eleições regionais vários candidatos saíram vitoriosos com ela. Mas claro que este socialismo tem limites. Trata-se de repor as condições existentes até aos anos 1970 e as políticas públicas de educação e saúde desmanteladas pelo neoliberalismo, que tornaram mais pobre uma considerável parte da população americana. Que apoiou Trump quando este denunciou a globalização como fonte de todos os males. Como aconteceu também na Europa, especialmente em França, onde regiões que anteriormente eram um feudo do Partido Comunista passaram a apoiar a Frente Nacional de Marine Le Pen.

O capitalismo é uma máquina infernal que necessita continuamente de novas áreas geográficas para explorar. Daí a necessidade da globalização. Embora, diga-se, algumas multinacionais americanas, e não só, já se encontrassem implantadas em muitas partes do mundo há décadas. A questão é que as periferias de que fala Wallerstein na sua Teoria do Sistema-Mundo também começaram a desenvolver-se e se espalharam com as suas empresas, estatais ou privadas, por várias regiões do globo. E fazem concorrência aos criadores originais do capitalismo. Daí a guerra comercial que Trump lançou contra a China. Mas chegará um momento em que a imensa riqueza acumulada pelas maiores potências ocidentais, à custa dos recursos existentes nas periferias, não poderá ser mais aumentada devido às leis da natureza e o sistema tenderá a entrar em colapso. O capitalismo é suicidário, porque precisa de destruir-se para se recriar. Quem o disse foi um estudioso destas questões, Franz Hinkelammert, alemão que vive na Costa Rica há muitos anos. Para além da destruição de si próprio, que todos nós constatamos na vida do dia-a-dia, com a profusão contínua de alterações nos produtos para que o consumo se mantenha sempre ao mais alto nível, o capitalismo está a destruir o planeta em que vivemos. E para o confirmar refira-se a famosa frase de Claude Lévi-Strauss, o antropólogo belga que passou vários anos na Amazónia brasileira: “Le monde a commencé sans l’homme et il s’achevera sans lui.