Irão

Jornalista britânica detida por espionagem foi libertada temporariamente

A saída de três dias foi comunicada com pouco tempo de antecedência, mas está a ser interpretada como uma vitória pela família. Nazanin Zaghari-Ratcliffe foi presa em 2016.
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Imagem retirada da conta de Facebook Free Nazanin DR

A jornalista britânica de origem persa Nazanin Zaghari-Ratcliffe, detida desde 2016 em Teerão, no Irão, recebeu, nesta quinta-feira, a notícia de que seria libertada durante três dias. Acusada de espionagem pelas autoridades iranianas, esta saída precária foi uma surpresa para ela e para a família.

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De acordo com a informação revelada pelo marido, Richard Ratcliff, à BBC, Nazanin Zaghari-Ratcliffe teve apenas dez minutos para se preparar para esta saída temporária. Depois de vestida – ainda estava de camisa de dormir quando lhe comunicaram a saída — foi escoltada até à porta e as autoridades verificaram todos os pertences com os quais estava a sair da prisão.

A família só foi avisada uma hora antes. Os pais de Zaghari-Ratcliffe nem estavam em Teerão — tinham ido a Damavand, a cerca de 74 quilómetros da capital para celebrar o Id al-Fitr, que marca o fim do mês de jejum do Ramadão. 

Assim que se viu fora da prisão, foi obrigada a pedir um telemóvel a desconhecidos para poder ligar ao irmão, que tinha ficado em Teerão.

Zaghari-Ratcliffe revelou, através do marido, estar “assoberbada” e considera “óptimo” para a filha de quatro anos “ter uma mãe outra vez”. “Seria excelente para a Gabriella ter a mãe em casa, finalmente. Assim podemos brincar com a casa de bonecas dela e ela pode mostrar-me os seus brinquedos”, contou Richard à BBC.

O grupo Free Nazanin, grupo liderado pelo marido, Richard, que luta pela sua libertação, disse à BBC que a libertação e três dias era “prática comum” e que normalmente antecedia períodos de libertação mais extensos. O advogado da família já anunciou que deve tentar conseguir uma extensão no sábado.

Durante a saída, Zaghari-Ratcliffe não pode falar com os meios de comunicação, visitar uma embaixada estrangeira (especialmente a do Reino Unido) ou tentar sair do Irão.

Richard Ratcliffe encontrou-se com o chefe da diplomacia britânico, Jeremy Hunt, no início de Agosto. O ministro prometeu “fazer tudo para a trazer para casa”. Para Hunt, esta libertação temporária é "uma boa notícia"; deu os parabéns à “campanha sem precedentes” do marido. Ainda assim, deixa um comentário mais duro: classificou a prisão como “uma tremenda injustiça” e defende que a jornalista seja libertada definitivamente.

Porque é que Nazanin Zaghari-Ratcliffe foi presa?

Em 2016, Nazanin Zaghari-Ratcliffe trabalhava para a Thomson Reuters Foundation, o braço da Thomson Reuters que se dedica a divulgar reportagens sobre temas humanitários. Tinha visitado o país natal para apresentar a filha (na altura com 22 meses) aos pais, mas foi interceptada no aeroporto de Teerão antes da viagem de regresso.

Foi detida pela Guarda Revolucionária e acusada de tentar derrubar o regime islâmico, de espionagem e de dirigir “um curso de jornalismo online da BBC Persian com o objectivo de recrutar e treinar pessoas para espalhar a propaganda anti-Irão”. Zaghari-Ratcliffe chegou a trabalhar para a BBC, mas deixou o emprego em 2010.

O caso ganhou relevância por ter acontecido durante um período de grande tensão entre o Irão e o Reino Unido. E saltou para as notícias quando Boris Johnson, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, teceu comentários pouco informados sobre o assunto. “Quando olho para o que Nazanin Zaghari-Ratcliffe estava a fazer, ela estava simplesmente a ensinar jornalismo às pessoas, pelo que percebi”, disse Johnson ao Comité dos Negócios Estrangeiros, em Novembro de 2017.

A informação foi mais tarde negada pela Thomson Reuters, que esclareceu que Nazanin estava no Irão de férias. De acordo com a família, o comentário de Johnson pode ter prejudicado o caso, por ter validado a tese das autoridades iranianas.

Mais tarde, Johnson corrigiu-se e disse que "não tinha dúvidas" de que Zaghari-Ratcliffe estava de férias no Irão.