“Estigma”, “vergonha e medo”: a alegada vítima de Asia Argento fala pela primeira vez

Jimmy Bennett fala pela primeira vez desde que foi noticiada a sua acusação de “agressão sexual” por parte da actriz. Argento nega o acto, mas o New York Times mantém que foi rigoroso e surgiram entretanto imagens do par.

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Uma imagem de Argento e Bennett juntos no passado Instagram

O actor e músico Jimmy Bennett, de 22 anos, falou na quarta-feira pela primeira vez sobre o caso que o opõe a Asia Argento, que acusa de “agressão sexual” quando ele tinha 17 anos. No mesmo dia, o site TMZ divulgou aquela que será uma imagem dos dois juntos. O caso, cujo impacto sobre o movimento MeToo se revelou espinhoso, continua a ser objecto de duas versões diferentes, que convergem apenas num facto admitido por ambas as partes: Argento pagou a Bennett, quando este ameaçava processá-la.

A actriz e realizadora nega as acusações, que se tornaram públicas após uma notícia do New York Times nas últimas horas de domingo. Se na altura nem Argento nem o Benett prestaram declarações ao diário norte-americano, entretanto ambos emitiram comunicados. Ela negando liminarmente ter tido uma relação sexual com o então menor, mas admitindo ter-lhe pago, através do namorado Anthony Bourdain; ele argumentando que não falou “inicialmente” da alegada relação sexual por ter escolhido “tratar dela em privado com a pessoa” que, diz, o enganou. “O meu trauma ressurgiu quando ela apareceu como vítima [de Harvey Weinstein na investigação da New Yorker, que em Outubro ajudou a desencadear o momento MeToo]. Não fiz declarações públicas nos últimos dias e horas porque tinha vergonha e medo de fazer parte da narrativa pública”, explica Bennett num comunicado enviado a alguns órgãos de informação norte-americanos.

“Era menor de idade quando o acontecimento teve lugar e tentei procurar justiça de uma forma que fazia sentido para mim na altura, porque não estava preparado para lidar com as ramificações de a minha história se tornar pública. Na altura acreditava que havia um estigma na nossa sociedade em estar nessa situação como homem. Não pensei que as pessoas compreendessem o que aconteceu pelos olhos de um rapaz adolescente. Tive de ultrapassar muitas adversidades na minha vida e esta é outra com a qual lidarei, a seu tempo”, diz ainda. Jimmy Bennett, que enceta o comunicado elogiando a “coragem” dos muitos homens e mulheres que denunciaram as suas experiências no âmbito do movimento MeToo, diz querer agora “ultrapassar” a alegada agressão sexual e “avançar, não mais em silêncio”.

É a primeira vez que as suas palavras são ouvidas desde que o New York Times contou esta história, a partir de documentos legais, da correspondência entre Argento e a sua advogada – mas também, inicialmente, com o advogado de Bourdain, o chef e divulgador que se suicidou em Junho – e de imagens que recebeu de forma anónima. Segundo o jornal, as partes começaram em Novembro um diálogo mediado pelos advogados e terá sido feito um acordo que, embora não exigisse sigilo, impedia Bennett de divulgar quatro imagens, entre as quais uma selfie em que ambos estão juntos e aparentemente deitados em tronco nu, e de processar Argento. Essa imagem pode ser a mesma que o site de mexericos TMZ divulgou na quarta-feira, acompanhada por alegadas mensagens trocadas entre Argento e alguém próximo sobre o caso.

Em causa estará um encontro num hotel na zona de Los Angeles, em 2013, quando Bennett tinha 17 anos e a actriz 37, em que, segundo ele, Argento o terá seduzido e os dois terão mantido relações sexuais. Em resposta a essa versão dos acontecimentos, Argento declarou na terça-feira, em comunicado, nunca ter tido “uma relação sexual com Bennett” e enquadrou o caso numa “perseguição que durava há muito”.

Asia Argento, voz MeToo desde que denunciou na imprensa e no Festival de Cannes como terá sido violada pelo produtor Harvey Weinstein e se juntou ao vasto coro de vozes que visam pôr fim ao assédio e ao silêncio sobre a violência sexual em várias indústrias, confirmava no mesmo comunicado que foi de facto paga uma soma a Bennett, para o “ajudar” e por decisão e acção de Bourdain. Agora, o New York Times adianta que, além do que já tinha escrito sobre as quantias pagas a Bennett desde Abril – um total de 332 mil euros –, segundo documentos cuja autenticidade diz ter verificado, “Argento tem vindo a fazer pagamentos de dez mil dólares desde então”. Sobre o desmentido de Asia Argento, que motivou uma reacção de ataque ao movimento MeToo e de defesa da sua contínua credibilidade e da sua relevância social, um porta-voz do New York Times afirmou: “Confiamos no rigor do nosso jornalismo, que foi baseado em documentos verificados e várias fontes.”