Crítica

A épica do presente contínuo

Um poema épico escrito num tempo alheio ao registo da epopeia. Alberto Pimenta é o poeta que ergue perante o seu mundo e o seu tempo um canto do ameaçado humano.

Foto
Alberto Pimenta, aqui fotografado em 1999, é um poeta que se ergue perante o seu mundo DULCE FERNANDES/arquivo

O livro anterior de Alberto Pimenta — Nove Fabulo, O Mea Vox — De Novo Falo, a Meia Voz (Pianola, 2016) — é uma excepcional encenação poética, manutenção prodigiosa de um diálogo da mais admirável tensão lírica. Uma das marcas deste percurso de quase meio século de publicação são os envios para alguns topoi de anteriores actividades de escrita (expressão de Alberto Pimenta). O verso “ainda há muito por resolver” (p.16), por exemplo, dialoga com o título do livro Ainda Há Muito para Fazer (& etc, 1998); as notas de rodapé que ocupam as páginas finais de Pensar depois no caminho prolongam o “Terceiro Excurso” de O Silêncio dos Poetas (Cotovia, 2.ª ed., 2003): “Já reparaste que tens o mundo inteiro/ dentro da tua cabeça”.

No entanto, e assim acontece com invulgar frequência, este novo livro de Pimenta revolve tudo, baralha os dados, e surge radicalmente diferente, nos seus processos, no alcance do que constrói, nas matérias por si convocadas. Pensar depois no caminho é um poema épico. Isto é, uma composição poética extensa, escrita em modo mais ou menos narrativo, na qual o sujeito recua, se afasta, quase se oculta, em detrimento de um “nós” que, embora de teor flutuante (a humanidade tem sempre distintas facetas), nunca deixará de ser substância plural — “nós tântalos e ternos/ ou tenros/ dentro da água/ mortos de sede” (p.153). O risco de anacronismo seria mínimo, se lhe apontássemos o camoniano “estilo grandíloco e corrente”, porque se trata exactamente de uma linguagem acessível e, ao mesmo tempo, nascida de um labor intenso. E, mudando o que há que mudar, nem seria improvável encontrar no poema de Alberto Pimenta um plano dos deuses, um plano da História, da viagem, e do poeta. Deus e o diabo ocupam um dos lugares centrais do poema, onde a figura do ecrã é presença permanente. Espécie de complemento do divino, ou seu simulacro, espelho derrisório na ilusão cómica criada pelo poeta com ironia extrema. Essa tela de imagens articula-se, proveitosamente, com o “guião” (p.94), outro elemento que comparece com assiduidade no poema, assim como derivações ubíquas da tecnologia: “smartphone/ na mão/ como um espelho/ duplo” (p.155). Uma omnipresença/omnipotência, a dos ecrãs, que já fora exposta, de resto, por Reality Show, ou Alegoria das Cavernas (Mia Soave, 2011): “a sociedade/ muitas vezes/ não agradece o nosso esforço/ embora/ quando está diante do ecrã/ sejamos nós os únicos/ a fazer com que se sinta/ ela também lá dentro”.

Como acontecia num livro anterior de Alberto Pimenta, Autocataclismos (Pianola, 2014), é possível ler os versos de Pensar depois no caminho num contínuo, ou seja, das páginas ímpares até às pares (pelo menos, até certo momento do livro…), mas também em sequências separadas. Cada página de Autocataclismos apresentava dois tercetos, legíveis em sequência, ou separadamente. Em nenhum dos livros (e há, naturalmente, outros exemplos equiparáveis) se trata de ludismo ou de gestos ilusionistas, mas de operações radicais sobre a estrutura mesma da palavra, da frase e da linguagem. São ataques do coração aos termos do texto, aos vocábulos e às ligações que formam, neste caso, a poesia. O poema é aqui visto como estrutura sob ameaça, uma construção em estado de sítio. É mesmo possível detectar o momento exacto (p.65) em que o poema se torna uma forma textual ainda mais volátil e se dissemina no espaço de cada verso, com vocábulos e unidades rítmicas laceradas e cindidas, com recurso a violentas polissemias e a paronímias mais evidentes. A partir desse ponto do poema, as páginas ímpares procedem de uma forma, e as restantes, de outra. Às páginas do lado esquerdo cabe a discursividade plena; às outras, a superação do discurso normativo, a rebeldia, a dissolução e, finalmente, a dispersão, pulverização de todas as estruturas. É como se o assunto se houvesse tornado demasiadamente instável e tenso para um discurso coeso e tradicional; ou como se este tivesse atingido a sua capacidade máxima, à maneira de um recipiente que transbordasse — o conteúdo recusando a estabilidade do seu continente. Semelhantemente, a partir de certo ponto exacto de Pensar Depois (p.194), a manipulação da “espacialidade” passa a ocorrer em todo o texto – páginas pares e ímpares. Os “motivos emocionais” (como se lia no Fradique) já antes saltavam de um para outro lado – “o heróico uivo/ do Adolfkampf” (p.160); “com cera Reich/ decidem entre si/ accionistas” (p.161) —; mas, naquele ponto, mais do que nunca, fundem-se os procedimentos do esfacelamento do discurso, com manipulações radicais do corpo de cada palavra a rasgarem as páginas finais do livro, como se nada mais restasse do que uma espécie de detritos no seguimento da explosão final de um corpo celeste.

Um poema de Alberto Pimenta motiva sempre uma descida inesperada e irremediável dos níveis de previsibilidade e segurança. Porque todo o trabalho de Pimenta é risco e imoderação. A sua actuação é de uma permanente imponderabilidade. O poema, este poema, é uma imparável máquina produtora (e revolucionária) de sentidos. A fluidez com que avança o verso, sem quase quebras estróficas ou organizadoras, equivale ao modo contínuo como os temas se entrelaçam uns pelos outros. E nada se torna acumulação, pois do que se trata é de uma certa naturalidade, uma espécie de inevitabilidade. É o modo altamente orgânico como os elementos se conhecem como afins; esse tónus ilocalizável que possuem as palavras e os seus agrupamentos quando é a arte de Pimenta que os coliga. Mais do que combinatória, é uma arte mágica, porque não enjeita o que há de sortílego na criação. E embora a escrita se formule, obviamente, tomando em linha de conta a razão e as disposições de certa harmonia de pensamentos, desde, pelo menos, o Íon platónico que a loucura e a “inspiração” se colam uma à outra. O que, em Pimenta, mais impressiona é que a erudição nunca surge como um convidado inconveniente, uma excrescência — mas como aquilo que sempre lá devia ter estado, desde sempre, e para todos os efeitos. A poesia, como Pimenta escreveu em A Magia Que Tira os Pecados do Mundo (Cotovia, 1995), “situa-se numa espécie de presente contínuo que abrange passado e futuro porque traz dentro de si toda a poesia já feita”. A citação é um modo de exemplificação, não um empolamento; a alusão erudita não serve de elo de ligação, mas de propulsor, de motor de estranheza e incitamento – não de didactismo, portanto, mas de subversão. Chamar pelo nome “um tal John Milton” (p.29) não é pedantismo; como não o era a explicação “isto são versos skeltónicos/ assim chamados de/ John Skelton/ antigo poeta inglês” (Reality Show); bem assim, a invocação dos “centauros” (p.48) não é arqueologia, mas biologia, ciência da vida, através de uma visão estereoscópica dos tempos e da História. É como se o mundo já tivesse acabado, e o poeta lembrasse, por entre escombros, o que é, o que foi e o que será, como no poema de Blake.

Neste poema épico, Alberto Pimenta revisita uma herança comum de iniquidades e desmandos, de violentos acessos dos deuses às coisas da humanidade, de guerras como as de Tróia, mais do que uma vez lembrada, de indignidades de agora que são de sempre. Estranha cosmologia, esta, na qual se mesclam elementos com géneses tão diversas, à maneira do que, por exemplo, sucede na Divina Comédia, com o cruzamento de fontes pagãs e do cristianismo (além de certa “heterodoxia” no tratamento dos “entes e contraentes” por parte de Dante). Pensar depois no caminho é obra de um poeta profundamente sabedor de que “tudo se recombina” (A Magia Que Tira os Pecados do Mundo) e que a função da poesia é “ampliar o mundo/ não/ reduzi-lo ao tamanho de cromos” (De Nada, Boca, 2010). Um poeta que faz conviver, através de uma forma poética declaradamente exigente, as mais desavindas proveniências, que confluem na personagem colectiva que é a humanidade.