Redes sociais

Facebook e Twitter desmontam rede de propaganda iraniana

Contas falsas espalhavam discórdia sobre Brexit, Palestina e Trump. Mark Zuckerberg disse que os autores são sofisticados e bem financiados.
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O Facebook, o Twitter, o YouTube e o Google Plus eliminaram, em conjunto, centenas de contas e grupos que promoviam a agenda geopolítica do Irão no Mundo e que tentavam causar discórdia sobre assuntos que iam da presidência de Donald Trump ao conflito israelo-palestiniano, passando pelo Brexit e pela monarquia britânica.

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A remoção é a segunda do género que o Facebook anuncia em menos de um mês e ilustra como as redes sociais têm vindo a ser usada para tentar manipular opiniões também fora dos EUA.

O Twitter diz ter removido 284 contas. Já o Facebook diz ter eliminado 254 páginas e 392 contas iranianas. Foram ainda eliminadas contas no Instagram, de que o Facebook é dono. Algumas das contas e páginas eliminadas estavam associadas a eventos e grupos. Publicavam conteúdo e compravam anúncios dirigidos sobretudo a pessoas na América Latina, Reino Unido, EUA e Médio Oriente.

O Facebook removeu ainda outro conjunto de contas, com origem na Rússia e com ligações a entidades que os EUA têm descrito como fazendo parte das forças armadas daquele país. Os conteúdos que publicavam centravam-se sobretudo em questões políticas da Síria e da Ucrânia.

Ao todo, as páginas do Facebook agora desactivadas eram seguidas por mais de um milhão de contas e difundiam conteúdo em inglês e em árabe. O Facebook diz que não encontrou ligações entre as contas com origem no Irão e as que foram criadas na Rússia, e avisou os governos americano e britânico.

No final de Julho, o Facebook já tinha removido contas associadas a uma campanha de propaganda concertada e com indícios de terem sido criadas a partir da Rússia.

Estas acções de desinformação seguem o que tem sido uma estratégia comum nos últimos anos, incluindo por parte das entidades russas que tentaram influenciar a campanha presidencial americana de 2016: espalhar conteúdos polarizados sobre assuntos fracturantes e tentar radicalizar as opiniões do maior número possível de utilizadores, independentemente do lado em que estes estejam numa determinada questão. Muito do conteúdo criado recorre a manipulação de imagens e ao humor para tentar que outros utilizadores o disseminem.

As contas eliminadas investiram pelo menos seis mil dólares em anúncios, quer no Facebook, quer no Instagram. A empresa diz já ter informado o Departamento de Tesouro e o Departamento de Estado norte-americanos de que poderá ter violado as sanções americanas ao Irão.

Um representante iraniano negou que o país estivesse envolvido numa campanha de propaganda nas redes sociais. "Essas alegações são ridículas e fazem parte dos apelos públicos dos EUA para uma mudança de regime no Irão, e são um abuso por parte das plataformas de media sociais", afirmou Alireza Miryousefi, porta-voz da missão do Irão junto das Nações Unidas, citado pela agência Reuters.

Uma das redes de páginas agora desactivadas chamava-se Liberty Front Press e foi identificada pela empresa de segurança informática FireEye, que avisou o Facebook. A rede social descobriu então que as páginas tinham ligações à imprensa estatal iraniana e que havia várias outras contas que lhe estavam associadas, algumas das quais existiam desde 2013, embora só mais recentemente tenham começado a ter actividade.

Uma página chamada British Left, por exemplo, partilhou imagens criadas em computador de selos de correio a criticar o Brexit (um deles, mostra uma arma a dar um tiro no pé de quem a segura). Outra publicação mostra Trump e o presidente norte-coreano, Kim Jon-un, abraçados, numa imagem criada a partir do cartaz de um filme romântico. Já uma página chamada Progressive Front manipulou uma fotografia de Michelle Obama, a ex-primeira-dama americana, pondo-a a segurar um cartaz com a frase “Uma imigrante ficou com o meu trabalho” – uma referência à origem eslovena da actual primeira-dama, Melania Trump.

Numa teleconferência para jornalistas, Mark Zuckerberg lembrou algumas das medidas que o Facebook tomou nos últimos meses: “Fortalecemos as nossas políticas de anúncios para tornar a publicidade nos nossos serviços muito mais transparentes. Graças aos avanços na inteligência artificial, somos agora muito mais proactivos a encontrar e remover conteúdo mau, bem como contas falsas.” Mas admitiu que o problema não vai desaparecer. “Como disse anteriormente, a segurança não é algo que se resolva inteiramente. Os nossos adversários são sofisticados e bem financiados, e temos de estar constantemente a melhorar para estar à frente deles.”

Estas revelações acontecem enquanto os EUA se preparam para as eleições intercalares de Novembro. A FireEye ressalvou, no entanto, que a actividade do Irão não parecia ter como objectivo manipular as eleições que se aproximam, apesar de notar que algumas publicações adoptaram um discurso contra Trump, assumindo uma identidade mais próxima da esquerda norte-americana. A estratégia, sublinha a empresa, sugere que existe uma “tentativa de influenciar o discurso político interno dos Estados Unidos”.