Sonae ainda tem em aberto modelo para lançar retalho em bolsa

Grupo poderá reservar uma fatia da Sonae MC (que concentra o portefólio de retalho alimentar) para investidores particulares.

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Claúdia Azevedo irá suceder Paulo Azevedo e Ângelo Paupério à frente da Sonae SGPS em 2019 NELSON GARRIDO

Sabe o que será, onde será, quanto e quando (embora não diga) – mas para dispersar o retalho alimentar em bolsa, a Sonae ainda não fechou o modelo da operação. O perímetro dos activos que a Sonae (dona do PÚBLICO) já anunciou que está a estudar colocar em bolsa, de forma autónoma da SGPS, já está definido – será a Sonae MC (Continente, Well’s, Meu Super, Go Natural, Note) e a Sonae RP (propriedade e gestão dos imóveis dessas unidades), a bolsa será a Euronext Lisboa e a sociedade manter-se-á maioritária.

O que “ainda não está decidido”, afirmou esta quarta-feira Luís Reis, é como será feita a oferta pública de acções ao mercado, se um modelo “puro" ou "misto” de oferta pública de venda inicial (IPO, na sigla inglesa). Em declarações ao PÚBLICO, o chief  corporate  center  officer da Sonae disse que há duas vias possíveis. O que está em causa é a escolha entre um modelo de venda exclusiva a investidores institucionais primeiro e, só após estar cotada, ser negociada ao público em geral (segundo mercado) – como aliás tem sido apontado como expectativa dos analistas; ou outro modelo que “reserva uma parte, pequena, para colocação em retalho”, ou seja para investidores particulares, além da entrada dos institucionais.

A decisão de “analisar a possibilidade de listar parte do portefólio de retalho” da SGPS foi anunciada pela administração do grupo liderada por Paulo Azevedo e Ângelo Paupério (que em 2019 serão sucedidos por Cláudia Azevedo) em Março deste ano e reiterada em Maio e Junho últimos. O Barclays, o BNB Paribas e o Deutsche Bank constituem o sindicato bancário responsável pelas “reuniões exploratórias com potenciais investidores para uma possível entrada em bolsa”, disse já o grupo ao mercado.

A antiga Modelo Continente (que evoluiu para o que é hoje a Sonae MC) foi retirada de bolsa no final de Outubro de 2006 quando, por 2,05 euros por título, a Sonae SGPS garantiu a totalidade do capital então disperso. Em 2004, tinha finalmente conseguido obter os 22,37% que o grupo Carrefour ainda detinha na retalhista. “Hoje, a Modelo Continente é uma empresa muito maior, mais robusta, com actividades e um nível de diversificação do seu portefólio muito superior”, em “multiformato” e com “uma presença fortíssima no e-commerce”. “É uma empresa bastante diferente”, argumenta Luís Reis, “não tem nada a ver com o que era a realidade da Sonae em 2006”. Uma diferença que é “mais do que os 12 anos” que separam as duas datas.

Cotar agora o retalho alimentar é "também uma forma de permitir mostrar o valor que a Sonae MC tem e que, por vezes, quando os investidores olham para a Sonae [SGPS] - que “é uma entidade bastante complexa” - fica “desvalorizada”, explica o responsável. “Ao cotá-la, o valor dela torna-se ‘inquestionável’ – “é um valor de mercado para a operação. E isso é ainda muito importante para a própria valorização da Sonae [SGPS]” (que agrega ainda retalho não alimentar, telecomunicações e centros comerciais).  

Portugal como “protecção”

A Sonae SGPS, que apresentou esta quarta-feira as contas do primeiro semestre, “teve resultados muito bons” no período em questão, destacando Luís Reis o crescimento do volume de negócios consolidado (em 6,6%, para 2,68 mil milhões de euros, dos quais 1,9 mil milhões realizados pela Sonae MC), da rentabilidade - EBITDA melhorou 11%, para 154 milhões, a margem subiu para 5,7% e os lucros 34,2%, para 98 milhões -, com redução da dívida (em 95 milhões para 1,32 mil milhões) e um crescimento de 25% do investimento, para 151 milhões de euros.

Questionado sobre a conjuntura internacional – nomeadamente a situação económica na Turquia, onde a Sonae Sierra tem investimento directo em shoppings, e as consequências da recente guerra comercial espoletada pelos EUA – o gestor recordou que, como operador global, a Sonae “não pode ser imune” ao que se passa no panorama internacional. Mas acredita que “Portugal, com uma performance bastante positiva do ponto de vista económico, é alguma protecção para essa instabilidade”.  

No plano nacional, e sobre a discussão na especialidade das alterações ao código laboral, afirma: “Temos tido a capacidade, ao longo do tempo, de nos adaptarmos de forma muito tranquila às alterações ao código laboral de tudo o que tem vindo a ser anunciado” – embora sublinhe que “é evidente que as empresas privilegiariam sempre maior flexibilidade laboral”. Especificamente sobre o banco de horas, “parece-nos ser aquela que está menos bem ponderada pelo Governo em termos dos interesses que procura acautelar”, diz. E isto num contexto, defende, que “internacionalmente” é dos “menos favoráveis do ponto de vista da legislação do trabalho”.