Teatro

Richard Demarcy (1942-2018): um encenador bem-amado cuja vida se cruzou com Portugal

Ex-marido da actriz portuguesa Teresa Mota e pai do encenador Emmanuel Demarcy-Mota, o fundador do Naïf Théâtre manteve-se sempre muito ligado a Portugal, que voltou a visitar apenas dois dias antes de morrer.
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O encenador em 2010 DR

O encenador e dramaturgo Richard Demarcy, fundador com a actriz portuguesa Teresa Mota do Naïf Théâtre, em Paris, e um dos primeiros a levar a obra de Fernando Pessoa aos palcos franceses, morreu este domingo, aos 76 anos, de um tumor cerebral. O seu funeral terá lugar na sexta-feira, no crematório do cemitério parisiense Père Lachaise.   

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Pai de Emmanuel Demarcy-Mota, actual director do Théâtre de la Ville de Paris e do Festival de Outono, Richard Demarcy tinha estado apenas dois dias antes em Portugal, país com o qual manteve sempre laços muito fortes, e a cuja revolução dedicou várias peças, incluindo A Noite do 28 de Setembro, evocação dramática do episódio da “maioria silenciosa” spinolista, que encenou em 1975 naquele que foi o espectáculo inaugural do Centro Cultural de Évora.

“Veio a Portugal na semana passada e esteve dois dias na Ericeira, um sítio de que gostava muito, e morreu logo após ter regressado a Paris”, conta o irmão de Teresa Mota, o encenador João Mota, fundador da Comuna, acrescentando que Demarcy já estivera em Lisboa em meados do mês passado para assistir, no Teatro Municipal São Luiz, à peça Estado de Sítio, de Albert Camus, encenada pelo seu filho Emmanuel.

João Mota conheceu Demarcy aos vinte e poucos anos – “tínhamos grandes conversas, era como um irmão para mim” –, e recorda-se de ter encenado várias peças suas, como Quatro Soldados e Um Acordeão, que se estreou na Comuna, em 1976, e foi depois apresentada no Festival de Outono, em Paris.

Basta passar os olhos pelas notícias que assinalaram a morte de Richard Demarcy na imprensa francesa para se ter a percepção de que o encenador era uma pessoa especial. “Um poeta do teatro sai de cena”, lamenta o Le Figaro, sublinhando a “perturbante bondade e profundidade” do seu trabalho; “um artista utopista”, escreve o L’Humanité; “um homem bom”, que “viveu de forma política e poética”, diz o Le Monde, enquanto o site Web Théâtre evoca os seus “maravilhosos delírios” e assegura que cada um dos seus espectáculos era “uma lição de vida, uma explosão de vitalidade”.

“Richard Demarcy ama a vida, ama as palavras, ama os encontros e a viagem, ama o teatro e os actores que o acompanham, ama o público que vai ver os espectáculos”, escrevera o La Croix a pretexto da estreia, em 2010, da sua encenação de Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare, observando que os actores da peça eram "originários de França, de Taiwan, de Portugal, do Quebeque, do Senegal, do Congo, dos Camarões…”. E Armelle Héliot, a quem agora coube escrever o obituário do encenador para o Le Figaro, descrevera noutra ocasião o seu trabalho com uma expressão feliz: “a arte maravilhosa de se dirigir a todos”.

Nascido em 1942 em Bosc-Roger-en-Roumois, na Normandia, onde fez os estudos liceais com jesuítas, Demarcy foi aos 18 anos estudar Sociologia e Antropologia em Paris, na Sorbonne e na École Pratique des Hautes Études. Milita nos movimentos estudantis e apoia a luta pela independência argelina, tema que depois evocará na sua obra As Mimosas da Argélia, escrita em 1991 e levada ao palco em 2002, e da qual foi possível ver em Lisboa, em 2010, uma leitura encenada no Instituto Franco-Português.

Já licenciado, dedica-se à docência, escreve poemas e peças, viaja. Participa entusiasticamente no Maio de 68, e nesse mesmo ano torna-se secretário-geral do Théâtre de la Commune d’Aubervilliers, um pioneiro teatro de criação fundado pelo encenador Gabriel Garran no subúrbio parisiense. É por estes anos que conhece a sua primeira mulher, a actriz portuguesa Teresa Mota, que será também durante décadas a sua grande cúmplice criativa. É com ela que funda em 1972 a companhia Naïf Théâtre, onde ambos encenarão uma série de espectáculos dirigidos ao grande público e que consolidarão Demarcy como autor de um teatro do maravilhoso, inspirado nas cosmogonias e tradições orais de diversos povos – tinha uma paixão especial por África, por onde viajou muito –, mas também na cultura e política contemporâneas. Simultaneamente professor na Sorbonne, o encenador publica no início dos anos 70 a sua tese de doutoramento, que se tornará uma obra de referência para várias gerações de encenadores e actores: Élements d’Une Sociologie du Spectacle.

Le Secret, Barracas 1975, “fábula” da revolução portuguesa, ou Disparitions, baseado em A Caça ao Snark e outras obras de Lewis Carroll – a sua estreia em França, em 1979, foi “um grande sucesso”, lembra João Mota –, são algumas das primeiras criações de Demarcy, que além das várias peças que escreveu, também trabalhou textos de muitos outros autores, como Kipling, Alfred Jarry ou Fernando Pessoa, de quem encenou a Ode Marítima. Escreveu ainda um libreto de ópera, La Grotte d'Ali (1987) e um romance:  Angela, la Guérillère Soprano (1990), cuja protagonista é uma filha de mãe angolana e pai português que, após uma adolescência vivida em Lisboa, regressa a Angola para participar na luta pela independência. 

Em1999, Demarcy e a companhia africana Sanza Théâtre apresentaram o espectáculo Ubu Dechâiné no Festival de Almada, onde o encenador regressaria em 2011 com Um Certo Sonho, Uma Noite de Verão