Morreu Manuel Campelos, o pai do concelho de Vizela

Rosto principal da luta pela autonomia municipal de Vizela face a Guimarães, consumada em 1998, Manuel Campelos morreu na segunda-feira, aos 94 anos.

Manuel Campelos é considerado o "pai" do concelho de Vizela
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Manuel Campelos é considerado, em Vizela o "pai" da restauração do concelho Hugo Delgado

Um dos dias que definiu a vida de Manuel Campelos foi certamente o de 19 de Março de 1998. Nessa tarde, os mais de cinco mil vizelenses que se deslocaram à Assembleia da República rebentaram em festa mal souberam que o parlamento aprovara o projecto de lei para a criação do município de Vizela. A decisão encerrou uma luta de décadas pela restauração de um concelho que existiu entre 1361 e 1408, intensificada com o aparecimento do Movimento para a Restauração do Concelho de Vizela (MRCV), em 1964. Primeiro presidente da organização, o principal rosto da batalha pela independência administrativa de Vizela face a Guimarães morreu na segunda-feira, aos 94 anos, no Hospital de Guimarães.

Nesse mesmo dia, a Câmara Municipal de Vizela exprimiu um voto de pesar pela morte do cidadão honorário do concelho e anunciou três dias de luto municipal, até quinta-feira. No comunicado emitido, a autarquia enalteceu Manuel Campelos como um “homem perseverante e lutador”, que se “entregou a uma causa pública de forma abnegada”. Para o presidente da autarquia, Vítor Hugo Salgado, a morte de Manuel Campelos, a quem se referiu como o “pai do concelho de Vizela”, é um “momento triste”.  “A sua intervenção foi inigualável”, reiterou.

Eleito para o primeiro mandato em Outubro de 2017, o presidente da Câmara acrescentou que “as lutas têm quebras e picos”, e o principal rosto do MRCV “manteve sempre a luta acesa”. O combate pela autonomia viveu, de facto, avanços e recuos. Infrutífera durante o Estado Novo, a reivindicação chegou à Assembleia da República a 11 de Maio de 1982, graças a um projecto de lei do PPM.

O adiamento da discussão acabou por desencadear os quatro meses mais quentes da luta vizelense, que culminaram nos confrontos entre a população da então vila e a GNR, a 5 de Agosto. Nesse dia, alguns funcionários da CP chegaram a Vizela para reparar o troço de 1.800 metros de ferrovia que a população destruíra a 12 de Maio. Alguns vizelenses, porém, impediram as obras, o que levou à intervenção da GNR e a confrontos que terminaram com mais de duas dezenas de feridos.

Com 41 anos, Vítor Hugo Salgado recorda-se mal desses episódios com carros blindados e comboios parados, mas lembra-se bem de chegar, num dia, à escola primária e de “ver boletins de voto espalhados pelo chão” – Vizela boicotara as Eleições Autárquicas de 12 de Dezembro de 1982. Olhando para trás, o autarca considera que a luta, apesar de “algo atípica para aquela fase do século XX”, valeu a pena. A autonomia, disse, garantiu a Vizela um “maior desenvolvimento”, mesmo que, nos últimos oito anos, “aquém do necessário”.

Fica o respeito, apesar das visões opostas

Presidente da Câmara Municipal de Guimarães entre 1989 e 2013, António Magalhães foi um adversário de Manuel Campelos na questão da elevação de Vizela a concelho. O antigo autarca defendia a “tese que um concelho como o de Guimarães, com tantas vilas, não podia prescindir de nenhuma, por uma questão de coesão territorial”. Essa visão merecia naturalmente a oposição do principal rosto da reivindicação vizelense, mas sempre com uma “postura cívica e cordial”. “Foi uma relação viva, mas sempre respeitosa, porque eu respeitava as pretensões dos vizelenses, apesar de não concordar com elas”, recordou.

António Magalhães lembrou ainda que o município de Guimarães, findo o combate pela autonomia de Vizela, mostrou-se totalmente disponível para colaborar com o novo concelho, recebendo, por exemplo, os técnicos municipais de Vizela nos paços do concelho, “nomeadamente por causa das questões de obras”. Cumpridos 20 anos da separação de Guimarães e Vizela, o ex-autarca realçou que “compete apenas e só aos vizelenses perceberem se valeu a pena a autonomia municipal”, apesar de considerar que ninguém prescinde de uma vitória como a que Vizela conseguiu, “mesmo que as coisas corram muito mal”.