Maria João: "O mais importante para mim é a aventura na música, não a perfeição"

Para Maria João, se há um disco essencial na sua vida é de Betty Carter, a sua cantora de jazz preferida por causa do gosto pela aventura, pela experimentação, por correr riscos

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Maria João ALEXANDRE CABRITA

A voz da cantora Maria João já influenciou muitas vozes, e não apenas em Portugal, mas antes de se lançar no canto também ela teve fortes influências. A mais marcante de todas terá sido a da cantora de jazz norte-americana Betty Carter (1929-1998) e é dela o disco que Maria João escolheu, sem hesitar, quando se lhe pediu um álbum da sua vida. The Audience with Betty Carter, editado em 1979 em LP duplo e gravado ao vivo no Great American Music Hall de São Francisco. Além de Betty Carter (voz), contava com John Hicks, no piano; Curtis Lundy, no contrabaixo; e Kenny Washington, na bateria. “Foi um disco super importante para mim”, diz Maria João. “A Betty Carter é a minha cantora de jazz preferida, por causa da aventura. Também gosto muito da Ella [Fitzgerald], mas a Betty Carter é mais imperfeita, é mais aventureira. Gosta de experimentar, não se importa se está ao lado, se desafina, porque é sempre a aventura que ela privilegia. E isso é o mais importante para mim também, a aventura na música, não a perfeição. A perfeição, se vier, é bem-vinda, mas aventurar-me, correr riscos, é importantíssimo para mim.”

O disco chegou-lhe às mãos durante a sua permanência de seis meses na Escola do Hot Clube de Portugal: “Foi no primeiro ou no segundo ano em que comecei a cantar. Claro que cantarolava nas festas mas não tinha ambição de ser cantora. O que eu aprendi lá foi a ouvir. As pessoas à minha volta mostravam-me música, discos. A Billie Holiday foi um primeiro amor, fiquei encantada, depois a Ella, e mais tarde apareceu-me esta coisa selvagem que é a Betty Carter. E apaixonei-me por completo.” Viriam ainda outras vozes: Al Jarreau, Bobby McFerrin. “E um disco incrível que se chamava Vocal Summit [1983], que tinha a Urszula Dudziak, a Jeanne Lee, a Jay Clayton, a Lauren Newton e o Bobby McFerrin. Foi-me mostrado pelo Zé Eduardo e, salvo erro, roubei-lhe o disco.”

Disco de hip-hop em 2019

Maria João continua a desmultiplicar-se em projectos. Com músicos brasileiros, tem não só discos gravados nos últimos anos como espectáculos. Destaque para a sua parceria com o compositor e violonista carioca Guinga, registada no disco Mar Afora, de 2015; para o disco A Poesia de Aldir Blanc (2017), um projecto dela com selo brasileiro do SESC que vai ter edição portuguesa ainda este ano; e a parceria com Egberto Gismonti, que continua a correr palcos. A Poesia de Aldir Blanc conta, para além dela (voz), com André Mehmari (piano), Guinga  (violão e voz), João Farinha (piano e sintetizador), André Nascimento (electrónica), Silvan Strauss (bateria), Eleonor Picas (harpa), Filipe Raposo (piano), Ricardo Dias (guitarra portuguesa), Mário Delgado (guitarra e efeitos), Sérgio Carolino (tuba), Mário Laginha (piano) e Filho da Mãe (violão), entre outros. Com André Mehmari tem também um duo, que tocará por estes dias em Estarreja e Lagos.

A par disto, espraia-se noutras áreas. Esteve recentemente em Génova, num festival de jazz; e mantém a sua parceria com os Budda Power Blues. “Continuo com esse projecto que eu adoro, rock’n’roll e blues. Pôs-me a cantar de uma maneira que eu nem sabia que conseguia.” Há também o Ogre, que tem Songs for Shakespeare pronto a sair em disco. “Está muito bonito. Foi uma encomenda de um festival da Hungria. Mas talvez saia lá fora primeiro.” Entre outros projectos, que não foram aqui citados, está ainda a pensar num disco de hip hop, a editar em 2019: “Tenho muita vontade de o fazer. Porque o baterista do Almost Acoustic Trio [outro dos seus projectos], o Silvan Strauss, é de hip-hop. E já temos letras, já temos temas, é preciso fazer o resto, encontrar-lhe um conceito. Que integre, tal como os outros projectos, a Maria João cantora tal como ela é.”