“Não há um sobrevivente-modelo” – MeToo defende-se da descredibilização após caso Asia Argento

Acusação de “agressão sexual” de Argento a actor de 17 anos gerou novo debate sobre políticas sexuais, credibilidade e reacção #MenToo. “A violência sexual é uma questão de poder e privilégio”, esclarece fundadora do movimento MeToo.

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Lucy Nicholson/Reuters

No rescaldo da notícia de que Asia Argento, uma das mais sonantes vozes das denúncias das práticas de assédio na indústria do entretenimento, é acusada de “agressão sexual”, e de que pagou pelo silêncio da sua alegada vítima de 17 anos, é o próprio movimento MeToo que luta para não ser mais uma vítima da complexidade destes crimes. A inversão de papéis de agressor e vítima (ou a sua sobreposição) veio complexificar ainda mais a discussão sobre o tema, num contexto em que os actos de Argento parecem assumir contornos similares aos que alguns dos homens acusados de assédio e violência sexual nos últimos meses terão praticado.

A primeira reacção à notícia de domingo do New York Times veio de outra protagonista MeToo, a actriz Rose McGowan, que se confessou “de coração partido” perante a revelação de que o actor Jimmy Bennett diz ter sido alvo, em 2013, de “agressão sexual” por parte de Asia Argento, o que lhe terá causado danos emocionais e profissionais. O relato do diário que, a 5 de Outubro de 2017, lançou a primeira investigação sobre Harvey Weinstein, desencadeando o momento MeToo, indica que foi quando Argento surgiu como um dos rostos da luta contra o assédio que Bennett decidiu agir judicialmente. A correspondência entre advogados e as partes, bem como uma imagem dos dois — ele com 17 anos, abaixo da idade legal de consentimento na Califórnia, ela com 37 — juntos no quarto de hotel, foi enviada ao jornal, tendo a sua autenticidade sido confirmada. Nem Argento nem Bennett falaram ao jornal ou reagiram à notícia, que detalha como chegaram a acordo para um pagamento de 332 mil euros que inibe o processo judicial e a revelação da fotografia. “Esperamos que nada deste teor te volte a acontecer. És um criador poderoso e inspirador e é uma miserável condição da vida que se viva entre pessoas merdosas que atacam tanto os teus pontos fortes quanto as tuas fraquezas”, escreveu a advogada de Argento a Bennett.

Entretanto, Rose McGowan manifestou a sua desilusão pela conduta de Argento, que terá assim replicado alguns dos padrões de assédio que o momento MeToo evidenciou — um alegado acto sexual no âmbito de uma relação de poder desequilibrada e um acordo legal posterior para garantir o seu encobrimento. Ainda no Twitter, McGowan comprometia-se: “Vou continuar o meu trabalho em prol das vítimas em todo o lado.”

É também esse o espírito de Tarana Burke, a criadora da hashtag MeToo, e portanto fundadora do movimento que resumiria a avalanche de histórias de abuso, maioritariamente de homens sobre mulheres (mas também com vários homens como vítimas) no contexto das relações laborais de Hollywood e, depois, noutras indústrias e noutros países. “As pessoas usam estas notícias recentes para tentar desacreditar este movimento — não deixem isso acontecer. O Movimento é sobre isto”, escreveu Burke no Twitter. “A violência sexual é uma questão de poder e privilégio. Isso não muda se o perpetrador é o vosso actor, activista ou professor preferido de qualquer género. E não mudaremos a cultura a não ser que sejamos sérios quanto a mudar estas falsas narrativas”, acrescentou ainda. “Este movimento está a abrir espaço para a possibilidade”, defende Burke, lembrando que há que reconhecer “a desconfortável realidade de que não há uma só forma de ser um perpetrador… e que não há um sobrevivente-modelo”.

Mas o risco de descrédito é real, pelo efeito de contaminação moral, quando o abusador e abusado coincidem afinal numa só figura. Apesar de isso ser, “tristemente, muito comum”, como classificou ao Yahoo News o psicólogo John Mayer, notando a tendência para algumas vítimas de abuso replicarem os abusos posteriormente, fenómeno que constatou ao estudar párocos agressores sexuais que tinham sido vítimas de abusos, por exemplo. “O trauma gera trauma… até que nos saremos a nós mesmos, estamos todos num caminho de recuperação”, escreveu a actriz Rosana Arquette — que, tal como Argento, também diz ter sido vítima de Weinstein —, sublinhando que apoia “qualquer pessoa que seja vítima de abuso sexual”.

Nas redes sociais, onde nasceu o #MeToo, ressurgem outras hashtags, reactivas, como #MenToo. E irrompem críticas que põem em causa uma das grandes conquistas do momento MeToo – a valorização da credibilidade das vítimas. Entretanto, o advogado do produtor Harvey Weinstein, acusado por dezenas de mulheres de assédio e violência sexual (actos que sempre negou), veio a terreiro para comentar como este caso “revela o nível espantoso da hipocrisia de Asia Argento”. Em comunicado, o advogado Ben Brafman comentou o timing da negociação da actriz com o jovem nos primeiros meses da onda de denúncias e reiterou que a relação de Weinstein e Argento foi consensual. Numa investigação da revista New Yorker, que tal como o trabalho do New York Times foi premiada com o Pulitzer, Argento afirmava ter sido forçada a ter sexo com o produtor e depois ter mantido uma relação intermitente com ele por medo de retaliações.

A advogada e escritora Amee Vanderpool resumiu no Twitter que “duas coisas podem ser igualmente verdade sobre Asia Argento: 1 – ela foi atacada por Harvey Weinstein; 2 – ela teve sexo com um menor, dez meses antes do seu 18.º aniversário, e pagou-lhe pelo seu silêncio", concluindo que "ambas são inaceitáveis”. Uma e outra "devem sofrer as consequências” devidas, acrescentou a activista Sarah Flourance na mesma rede social. “Os cínicos vão usar exemplos individuais de mau comportamento de mulheres para defender que o assédio sexual e a violação não são parte da misoginia estrutural”, alertou no Twitter a escritora Moira Donegan, que esteve na origem da infame lista de nomes de alegados abusadores dos média e do entretenimento que circulou no passado ano.

“Esta é uma oportunidade para o movimento mostrar as suas verdadeiras prioridades: amplificar as vozes dos sobreviventes”, escreveu Lisa Ryan no The Cut, considerando “imperativo" impedir que revelações deste tipo sejam usadas "como uma desculpa para fazer descarrilar a causa #MeToo”. De igual forma, argumentou, o activismo de Argento não deve funcionar como um alibi, impedindo que a actriz seja "responsabilizada pelos seus actos": "No fim de contas, as novas alegações mostram quão pervasiva é a violência sexual e a necessidade de uma abordagem abrangente para lidar com ela”.

Entretanto, as autoridades de Los Angeles, onde fica o hotel Ritz-Carlton de Marina del Rey onde o par se encontrou, estão a investigar se há bases para alguma acusação, tendo para já contactado Bennett e Argento. A actriz arrisca agora ser despedida da sua posição de jurada no programa de talentos X Factor na sua Itália natal.