Crítica

História de fantasmas sem fantasmas

A irrupção da morte num universo infantil... mas não há assombração. O filme das irmãs Clara e Laura Laperrousaz parece durante a maior parte do tempo apenas “vazio”.

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A espontaneidade dos actores (das crianças gémeas mas também dos pais) mereceria ser muito melhor aproveitado...
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O “sol cortante” é o do Algarve, do Algarve interior (mais campo e rio do que praia), cenário para as férias de Verão de um casal francês e do seu muito jovem par de filhas gémeas. Depois de algumas cenas de introdução, destinadas a apresentar o que parece ser, para todos os efeitos, uma família funcional e feliz, o filme arranca realmente na cena em que a mãe explica a uma das gémeas que antes delas houve outra irmã, e que a miúda morreu, ali mesmo, noutras férias algarvias, afogada numa piscina durante um momento de desatenção de quem dela tomava conta. Essa miúda torna-se, daí em diante, numa espécie de protagonista ausente, assombração daquela família, que tanto desperta a imaginação das gémeas como faz os pais reviver sensações de pena, remorso e auto-culpabilização.

É, portanto, e jogando em contraste com a natureza sedutora da paisagem estival, uma espécie de história de fantasmas sem fantasmas. Se, na cena que referimos em cima, a irrupção do tema da morte num universo infantil faz sugerir a possibilidade de estarmos perante um descendente de Ponette (esse milagroso filme de Jacques Doillon, nos anos 90), o filme das irmãs Clara e Laura Laperrousaz acaba por ficar bem longe disso, prisoneiro duma incipiência que exige que todos os factos relevantes (incluindo as emoções das personagens) tenham que ser explicadas, verbalizadas e repisadas para que os espectador as sinta ou, pelo menos, as perceba. É justamente a “assombração” que não funciona, o que faz com que o filme pareça, durante a maior parte do tempo, apenas “vazio”, arrastado, com a respiração duma curta-metragem que se encheu de tempos mortos para chegar a uma duração de longa —  o que também impede que a espécie de milagre que, no fim do filme, devia ter um papel regenerador na saúde emocional daquela família, tenha um décimo da potência que as realizadoras desejariam. É pena, porque nada disto é antipático (apenas, e certamente, muito ingénuo), e porque há um lado espontâneo na presença dos actores (nas crianças gémeas mas também nos pais) que mereceria ser muito melhor aproveitado.