Obituário

Morreu PQP, o maior industrial do país

Pedro Queiroz Pereira tinha 69 anos e morreu numa queda no seu barco em Ibiza
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A sucessão e a herança de P.Q.P. estão fechadas Diogo Baptista

O empresário e presidente da Semapa e da Navigator, Pedro Queiroz Pereira (PQP), morreu ao final da noite de sábado, em Ibiza, onde estava de férias, na sequência de uma queda no seu barco onde habitualmente passa o mês de Agosto. Tinha 69 anos, três filhas. As suas herdeiras terão nas mãos o futuro do maior grupo industrial de base nacional. Esta segunda-feira o corpo será autopsiado em Espanha, sendo que tudo o que se vier a desenrolar de seguida está dependente desta intervenção. E desconhece-se quando será enviado o corpo para Portugal, para ser velado. 

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A sucessão e a herança estão fechadas. O controlo da Semapa foi assegurado por PQP após a guerra com o GES que acabou no Outono de 2013. O empresário e as três filhas, Mafalda, Filipa e Lua, dominam mais de 50% da Semapa, detendo a mãe de PQP, de 96 anos, ainda uma posição accionista relevante na parte remanescente.

Entretanto, em 2016, foi nomeada uma gestão profissional liderada por João Castelo Branco, actualmente à frente da Comissão Executiva, o que impede eventuais vazios de liderança que se possam abrir com a sua morte.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, reagiu publicamente, apresentando “sentidas condolências à família de Pedro Queiroz Pereira” e lamentando “o prematuro desaparecimento desse grande industrial português”. 

Uma morte precoce que apanhou todos de surpresa. Um deles foi José Maria Ricciardi, antigo presidente do BESI, e que, ao PÚBLICO, evocou PQP comoo maior industrial do país e um criador de riqueza e de emprego, que eu conheci muito bem” e de “quem tive o privilégio de ser seu amigo.” Para Ricciardi, “a sua morte é uma grande perda para a economia portuguesa e internacional”.

José Maria Ricciardi recorda-o ainda como “um grande amigo dos seus amigos, que me ajudou muito na vida e a quem nunca esquecerei.” E evidencia como “uma das características [de Pedro] que mais admirava, a determinação e a capacidade de se rodear de profissionais de elevadíssima qualidade, como Carlos Alves, João Castelo Branco e Diogo Silveira”.

A partir de 2012, o antigo presidente do BESI alinhou, dentro do Grupo Espírito Santo (onde o grupo Queiroz Pereira detinha 7% do capital), com PQP, na luta contra as intenções de Salgado de dominar a Semapa. O outro banqueiro que se destacou nas tropas do empresário foi Fernando Ulrich, à época a presidir ao BPI, que possuía 10% da holding industrial.  

“Foi um grande choque, não estava à espera”, confessou ao PÚBLICO Fernando Ulrich, que conhecia PQP desde os tempos “da escola.”

“Foi ele o artífice da reconstrução do grupo familiar herdado do pai, Manuel Queiroz Pereira, o que fez com êxito, o que o tornou o empresário mais bem-sucedido da minha geração”. Para Ulrich o industrial “teve sempre a noção de qual era o seu papel enquanto empresário e qual era o papel dos técnicos e especialistas”.

Em seu entender o sucesso do amigo a isto se deve: “À conjugação da vontade e da determinação com uma visão empresarial, que combinou rodeando-se sempre de pessoas muito competentes”. “Desde o primeiro momento em que me falava dos seus projectos, verifiquei que era uma obsessão rodear-se dos melhores profissionais, cujas opiniões ouvia genuinamente, e a que dava grande peso. Mas última palavra era sempre a dele”.

Com efeito, quando, a 6 de Novembro de 2009, o Presidente Aníbal Cavaco Silva, ao participar na inauguração da nova fábrica da Portucel/Soporcel, o condecora com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Industrial, PQP assume-se o vértice da pirâmide: “Sou eu que a recebo [condecoração] mas ela é oferecida a todos os meus colaboradores, entre eles, o Carlos Alves e o José Honório [os principais executivos].”

Em texto publicado no Expresso, o advogado Jorge Bleck recorda PQP como um “lutador nato”, que vivia para “desenvolver o país que amava”, um homem que “abominava os salões da política, as intrigas de palácio e a subjugação ao poder”.

Mas PQP tinha paixões. E uma delas era o automobilismo. E é a ela que se deve a alcunha de “pêquêpê” que o “salvará” quando, em Março de 1975, por ordem do Otelo [Saraiva de Carvalho], o foram buscar a casa, no Restelo. A cena foi relatada ao PÚBLICO pelo próprio PQP: “Durante três horas insistiram que eu estava a esconder as armas para fazer a contra-revolução.” A tese acentua-se quando “entraram na garagem e viram uns pneus próprios de ralis, parecidos com os usados pela Jeep, e me perguntaram: ‘Onde estão os ‘Jeeps’ da contra-revolução?’”. Explicou-lhes: “Eu e o meu irmão participamos em ralis. E identifiquei-me como o “Pêquêpê”. E bastou para o clima se desanuviar e “os cabos tornaram-se uns tipos porreiros, eh pá Pêquêpê...e já não revistaram mais nada.” E PQP partiu para o Brasil, onde esteve durante um curto período. 

Muitos amigos continuaram a tratá-lo por “pêquêpê”. Um deles é Pedro Roriz que o conheceu com 10 anos no Colégio Militar, “de onde ele saiu a meio e eu continuei, para nos reencontramos depois, ele como piloto de automóveis e eu como jornalista”.

“Ele preocupava-se mais com a velocidade e chegou mesmo a ser campeão nacional de velocidade em 87 e em 88. O Pedro fazia testes com o objectivo de tornar os carros mais competitivos”.

“Competia no rali das camélias, em Sintra, à porta da sua casa, e no rali de Portugal (antigo Rali Internacional TAP), o mais importante”, nomeia Roriz, que, em 1984, é desafiado pelo empresário, já na época a trabalhar no grupo, a ser “o seu co-piloto no Rali de Portugal”. E “no terceiro dia da competição, quando vínhamos da Póvoa para Viseu, e estávamos a discutir o primeiro lugar dos portugueses com o Jorge Ortigão, voámos”. Ou seja, explicou Roriz, “saímos literalmente da estrada, que de um lado tinha barreiras e do outro a montanha, e a primeira vez que tocámos no chão foi 30 metros abaixo da estrada: o carro deu três cambalhotas e ficamos de patas para o ar.”

Um episódio ficou na memória dos dois: “Como não havia comunicações rápidas, o Guarda Nacional Republicano pegou no rádio e disse: ‘Atenção, atenção, despiste do carro número 26. Os dois membros da equipa estão completamente mortos’. A informação gerou pânico no Estoril Sol, na altura o centro nevrálgico do Rali de Portugal, que solicitou informações. A ver que os espectadores tinham colocado o automóvel direito, e que os dois passageiros estavam cá fora, “o GNR pegou no rádio e disse: ‘Atenção, atenção. Os dois membros da equipa estão completamente vivos.’”

PQP e Roriz constataram que a preocupação do GNR era dizer que estavam "completamente" vivos. Mas ambos com ferimentos. O desenlace serviu de aviso a “Pêquêpê”, pois foi o último Rali de Portugal em que participou.

A velocidade atrai quem gosta de correr riscos. E correr riscos faz parte da vida de um empresário como PQP: “Nunca pus em risco os activos do grupo, o que seria extremamente arriscado era não ter feito nada.”

Dali para cá PQP tornou-se o industrial do país com maior relevância. Desenvolveu o grupo que o pai deixou aos três filhos (mas que as irmãs venderam) “sem pedir um único euro aos accionistas, nunca houve um aumento de capital. Fiz tudo com o pelo do cão [e dívida], com o que sobrou do 25 de Abril.” 

O Expresso refere que, em conjunto com a sua mãe, PQP era dono de uma fortuna avaliada em 779 milhões de euros, o que fazia dele o sétimo mais rico do país.

Foi um grande empresário, deixou o maior grupo industrial do país. Mas até foi mais do que isso. Foi o primeiro a perceber que o seu então amigo, e sócio no Grupo Espírito Santo, Ricardo Salgado, tinha um padrão de actuação que não correspondia ao que todos imaginavam: era um banqueiro que fugia a dizer a verdade e recorria a métodos que hoje o Ministério Público suspeita de terem servido para burlar o banco, branquear capitais, fugir ao fisco, e corromper governantes.