Crónica

Rádio silêncio

Os sons tornam-se interessantes quando interrompem o silêncio absoluto, lembrando o luzir das estrelas distantes, aparecendo num lugar perfeitamente escuro.

É bom o silêncio. Há um lugar onde eu vou, pus lá um banco e tudo, em que corre sempre uma brisa fria, mesmo nos dias mais quentes. É para lá que vou sentar-me para levar o meu banho de silêncio e frescura.

É entre as duas e as três da tarde. Não há gente. Está calor a mais para estar na rua. Se alguém passa, passa sozinho, sem ver ninguém com quem falar. Só ouço os gansos a protestar pelo atrevimento de certas pessoas em passar à frente do portão que os contém.

Os sons tornam-se interessantes quando interrompem o silêncio absoluto, lembrando o luzir das estrelas distantes, aparecendo num lugar perfeitamente escuro.

Ouvimos esses sons como surgem, um a um, fascinantemente diferentes: um cão, uma rola, um pombo, uma borboleta a colidir com os meus óculos, uma mota, outro cão.

Separado, cada som parece menos violento, mais digno, por assinalar um movimento de vida. Será que o silêncio nos põe a escutá-lo, a desejar inconscientemente que seja quebrado?

No silêncio estou a ler um livro sobre música. Não tenho maneira de ouvir as músicas de que fala. Não faz mal. Assim posso ler continuamente, parando para me lembrar daquelas de que me lembro.

Também essa lembrança me sabe melhor por chegar da minha cabeça. Quando entrar em casa ponho-as a tocar. Não é urgente. Mesmo um livro escrito enquanto se ouvem as músicas de que fala pode, se for bem escrito (e este é), ser lido em silêncio, ao som da periclitante telefonia cerebral que só passa excertos.

Mas ainda bem que o silêncio não existe.