Comentário

Kofi Annan: Da guerra ilegal no Iraque à não salvação da Síria

Depois de não conseguir impedir a invasão do Iraque, quando era secretário-geral, em 2003, Annan aceitou tentar travar a sangria síria, uma impossibilidade “evitável”.

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Reuters/Denis Balibouse

Não foi o Nobel da Paz de 2001, que aceitou em nome das Nações Unidas, a dar-lhe a sensação de missão cumprida. Aliás, nem quando abandonou o cargo de “mais importante diplomata do mundo” quis parar. Em parte, talvez por saber que apesar dos créditos na recuperação da influência da ONU o seu nome ficaria ligado a demasiados fracassos.

Quis tentar mediar a paz onde esta faltava. Foi bem-sucedido no Quénia, ao conseguir ajudar a negociar o acordo de divisão de poder que pôs fim à violência pós-eleitoral em 2008. Com a reputação de novo fortalecida, não parou por aí.

Habituado a ser o interlocutor do mundo com os piores facínoras, aceitou ser o primeiro representante especial da ONU e da Liga Árabe para a Síria. O seu abandono do cargo, seis meses depois de iniciar a tarefa, sinalizou o que viria a ser o fracasso das Nações Unidas em impedir a tragédia que se abateu sobre os sírios.

A ONU não é mais do que os países que nela estão representados – poucos saberiam tão bem isso como Annan, o primeiro secretário-geral a subir dentro da organização. Antes de chegar a secretário-geral, em 1996, foi responsável pelas missões de manutenção de paz (1993 a 1997), carregando por isso o fardo de não ter impedido o genocídio do Ruanda, em 1993, nem o massacre de Srebrenica, em 1995.

Para Samantha Power, académica e embaixadora de Barack Obama na ONU, Annan foi “o principal guardião do livro de regras” da organização, um livro onde se insiste na superior importância do Conselho de Segurança. Annan considerava o grupo de 15 países (cinco com assento permanente e direito de veto) “a única fonte de legitimidade” para decidir uma acção militar internacional. Regras que viu postas em causa pouco depois de chegar a secretário-geral, quando a NATO bombardeou a ex-Jugoslávia, em 1999.

Em 2003, depois do 11 de Setembro e da operação no Afeganistão, da NATO mas com mandato da ONU, Annan foi incapaz de impedir os Estados Unidos e o Reino Unido de invadirem o Iraque ou, pelo menos, darem mais tempo aos seus inspectores para provarem aquilo de que então só tinham fortes suspeitas: Saddam Hussein desactivara os seus programas de armas de destruição maciça depois de 1991.

As marcas da caixa de Pandora aberta com essa invasão e com a desordenada ocupação que se seguiu ainda hoje se sentem no quotidiano aquela zona – e definem parte das relações entre as grandes potências. Também alimentam a maior crise de refugiados de que há registo, com consequências que chegam às escolhas dos eleitores (a Itália é o exemplo mais recente) na Europa ou nos EUA.

Sem Iraque não haveria Daesh e dificilmente a revolta síria teria tido o mesmo fim. Pelo menos, seria mais difícil a Bashar al-Assad incentivar o sectarismo e usar os jihadistas na sua narrativa.

Março a Agosto de 2003

Nova Iorque, inícios de 2003: o respeito que Annan devolvera às Nações Unidas obrigou a Administração de George W. Bush a tentar um mandato do Conselho de Segurança para derrubar Saddam. Colin Powell, secretário de Estado de Bush, jurou a Annan que tinha provas da existência de stocks de armas de destruição maciça (químicas e biológicas) e dos lugares onde estas eram armazenadas e até fabricadas. Não era verdade.

Em 1998, Annan voara para Bagdad para tentar (e conseguir) convencer Saddam a permitir o regresso dos inspectores de armamento, o que só terá aumentado a sua frustração em 2003, quando teve de se contentar com a denúncia pública de uma guerra ilegal.

Para tornar tudo ainda mais pessoal e dramático, confiou na capacidade das forças americanas defenderem a missão que enviou para Bagdad, liderada pelo amigo e colega Sérgio Vieira de Mello. Em Agosto, cinco meses ao dia depois da invasão, Vieira de Mello e 22 colegas morreram num ataque suicida.

As regras dos conflitos estavam a mudar, membros de ONG e jornalistas passariam a ser alvos frequentes, mas Annan não se livrou das críticas de não ter sabido avaliar os perigos que os seus subordinados enfrentavam no caótico pós-Saddam.

Coragem e liderança

A impossibilidade de impedir a invasão foi um fracasso do qual a ONU nunca recuperou. A impossibilidade de travar a chacina de sírios é uma das confirmações dessa inexorável impotência. Ninguém pode acusar Annan de não ter tentado.

“Nunca alguém esteve tão perto de ser a voz de ‘nós, os povos’ e jamais alguém pagou um preço tão alto por isso”, escreveu Michael Ignatieff num artigo a propósito das memórias de Annan, Intervenções: Uma Vida de Guerra e Paz, de 2012.

"Não recebi todo o apoio que a causa merecia", disse Annan quando se demitiu de mediador para a Síria. O regime não cumpriu o cessar-fogo que ele tinha negociado por "perceber que não haveria consequências ", escreveu. A Síria "ainda pode ser salva da pior calamidade", mas "isso requer coragem e liderança". A “comunidade internacional”, disse, “tem surgido fraca nas suas tentativas para influenciar o curso brutal de acontecimentos – mas isto não é inevitável". Quase nunca é.