Editorial

Kofi Annan, um homem certo num mundo errado

Kofi Annan simboliza um tempo em que a ONU era capaz de se fazer ouvir num mundo que começava a entrar em deriva. O seu exemplo e a sua ONU fazem-nos falta.

Numa cruel ironia do destino, o homem que à frente da força de manutenção de paz ONU tanto se mobilizou a favor da negociação pacífica dos conflitos ficou com o seu nome associado aos dois mais terríveis genocídios do final do século XX — no Ruanda e em Srebrenica. Não deixa de ser cruel que esse homem de voz amena e pose calma tivesse assistido no cargo de secretário-geral da organização à segunda intervenção no Iraque que definiu as rotas do extremismo islâmico e contaminou de forma indelével o estado do mundo contemporâneo. A desconfortável constatação de que o final da Guerra Fria não tinha posto fim à História chocou de frente com o idealismo voluntarista de Kofi Annan e deixou nódoas indeléveis no seu mandato. Mas não é esse fatalismo que deve determinar a homenagem que o mundo lhe deve, agora que nos deixou.

A apologia de um mundo regido pelos valores do humanismo e da paz que a Carta das Nações Unidas consagra entrou também em choque frontal com os ódios do nacionalismo ou do extremismo religioso nesse período crítico. O próprio Annan percebeu que a síndroma do Acordo de Munique de 1938 era perigosa para os objectivos da ONU — daí ter concordado com os bombardeamentos da NATO aos radicais sérvios, em 1999. Mas nesse momento definidor do presente que foi a segunda guerra contra o Iraque, Kofi Annan tinha razão. A intervenção militar dos EUA e do Reino Unido (com a aquiescência conformada e acéfala de muitos dos seus aliados, como Portugal) não se justificava. A inexistência comprovada de armas químicas bastava para que a estratégia negocial de Annan tivesse prevalecido. Os custos dessa aventura estão hoje cruelmente expostos no estado do mundo.

Homem de palavra, Annan simbolizava a consciência de uma ordem que ameaçava ruir. António Guterres segue-lhe os passos nas convicções e nos valores, mas neste mundo de Vladimir Putin e de Donald Trump o unilateralismo, a retórica belicista, a velha arrogância imperial das potências e a erosão dos princípios do concerto internacional pós-II Guerra Mundial estão desgraçadamente em crise. A ONU perde terreno e esses tempos em que Annan era visto como o “papa civil” de princípios e valores estão cada vez mais distantes. Homenagear Kofi Annan é uma forma de os recordar. E de reclamar o seu regresso.