As últimas pensões

“Os alemães da Leica chegaram a passar aqui o Natal”

No centro de Famalicão, continua de porta aberta a Pensão Ferreira. Agora é um “alojamento local”, mas teima em manter os letterings e o visual (arquitectónico e não só) da década de 50, quando começava a ser frequentada pelas elites empresariais da região, e a receber os técnicos estrangeiros – agora substituídos pelos turistas.
Fotogaleria

No documentário Famalicão (1940), o segundo filme realizado por Manuel d’Oliveira (era assim que então assinava), há um pequeno gag automobilístico-rural cuja acção decorre na estação de serviço (e restaurante) Iris: os automóveis passam sem necessidade de abastecimento, e o primeiro cliente para a gasolina é… uma lavradeira numa carroça puxada por um burro, que depois sai a grande velocidade!

Atingiu o seu limite de artigos gratuitos

O Iris, que como restaurante, e durante décadas, teve lugar cativo no guia dos melhores do país, já não existe (é agora uma stand de automóveis). Também já não existe o Hotel Mesquita, que em 1929 foi um dos dois primeiros restaurantes a ser distinguidos com uma estrela Michelin em Portugal (a outra contemplou o Hotel Santa Luzia, em Viana do Castelo). E em ruína está actualmente o edifício do Hotel Garantia, aberto em 1943 (e que foi contemporâneo, também nas suas formas modernistas, do Coliseu do Porto).

Mas Vila Nova de Famalicão continua a ter a sua Pensão Ferreira, com mais de meio século de história. É verdade que já não apresenta o charme e o serviço das primeiras décadas, quando o seu restaurante rivalizava com o Iris e era um lugar frequentado pelas elites empresariais da terra. Mas, como residencial, continua a servir os seus clientes e a ser muito procurada. E o edifício mantém incólume a fachada e a arquitectura modernista original, mesmo se o rés-do-chão é agora partilhado com duas lojas de pronto-a-vestir e um café.

A entrada continua a fazer-se pela Rua de Santo António. É verdade que, logo que se franqueia a porta de ferro forjado pintada de vermelho, duas discretas letras a azul sobre uma placa de vidro adequam a designação à legislação actual do sector: AL (Alojamento Local). Mas a casa continuará a ser, em Famalicão, a Pensão Ferreira. E os letterings a vermelho que continuam a destacar-se a toda a largura e a toda a altura do prédio são ainda os originais.

“Vamos continuar a manter o nome histórico; só passámos a ser Residencial-Pensão Ferreira”, explica Maria José Ferreira, que com o seu irmão Lino herdou do pai, Avelino da Costa Ferreira, esta casa fundada em 1952, e cuja história é inseparável da vida social e económica da vila e da modernização de que esta beneficiou em meados do século passado.

A Pensão Ferreira situa-se na confluência da Rua de Santo António com a histórica Praça 9 de Abril (que já se chamou Praça do Conde de S. Cosme do Vale, do Terreiro e da Mota, entre outros nomes). Convive, neste largo recentemente renovado, com a antiga igreja matriz e com o Monumento aos Mortos da Grande Guerra, inaugurado em 1924.

“Durante o regime do Estado Novo, e especialmente nas décadas de 50 e 60, esta praça foi lugar de encontros e manifestações da oposição democrática ao salazarismo, muitas vezes a pretexto das efemérides da guerra”, explica ao P2 Artur Sá da Costa, historiador da cidade e ex-vereador da Cultura – o nome actual da praça, 9 de Abril, evoca, de resto, a data da fatídica Batalha de La Lys, cujo centenário se assinalou este ano.

Herança familiar

Maria José Ferreira é praticamente contemporânea da fundação da casa. Conta que era bebé quando o pai decidiu transformar uma velha tasca que vinha da família da sua mulher numa moderna pensão. “Ele tinha uma padaria e uma oficina de bicicletas, e foi comprando terrenos à volta da pequena casa da família”, explica. E a construção da pensão, que foi projectada “por um arquitecto de Braga” cujo nome Maria José não reteve, surgiu associada tanto ao alargamento da Rua de Santo António como a uma série de outros melhoramentos urbanos desenvolvidos durante o mandato de Álvaro Folhadela Marques (1893-1957) como presidente da câmara.

Artur Sá da Costa diz que o designado “Plano Sexenal para a Vila (1946-51)” lançado por este autarca contemplou a construção ou renovação de equipamentos como o mercado, a escola primária, o campo de jogos, além de saneamento básico e bairros para famílias pobres. Concluiu-se em Setembro de 1952, com dez dias de festa – cujo programa incluiu uma exposição industrial e uma parada agrícola, por exemplo –, a celebrar os vinte anos da chegada ao poder do “homem providencial” António de Oliveira Salazar, para citar as notícias da época.

A verdade é que esses foram anos marcantes na evolução física e social da vila. E a nova Pensão Ferreira “teve também um interesse social, pois marcou a ascensão da burguesia empresarial da região” (e do Vale do Ave), que a frequentava, nota Sá da Costa.

Maria José, que viria a tornar-se professora de Inglês e Alemão no ensino secundário, recorda ainda o frenesim dessas primeiras décadas. “O restaurante era dos mais famosos aqui em Famalicão; a diferença com o Iris é que, aí, as pessoas iam de vez em quando, mas aqui vinham todos os dias, ou todas as semanas”, diz, especificando que havia o dia em que se reuniam os industriais, o dia dos padres, etc.

“A pensão era o lugar em que se faziam os negócios, em que se marcavam as viagens”, acrescenta a actual proprietária, que entretanto trocou o trabalho de professora – “passei a dar só explicações” – pela gestão da pensão familiar. E cita o exemplo dos técnicos estrangeiros que vinham montar as máquinas industriais e ensinar o seu funcionamento nas fábricas da região. “Por exemplo, os alemães que vinham trabalhar na fábrica da Leica [máquinas fotográficas], e que chegaram a passar cá o Natal”, acrescenta Maria José, recordando esses tempos em que a Pensão Ferreira era como uma casa familiar para os clientes, onde estes escolhiam fazer os banquetes de casamentos, baptizados e outras festas.

O envelhecimento e depois a morte dos pais dos actuais proprietários, nos anos 80 e 90, bem como a evolução urbana e social da terra, precipitaram a decadência da pensão. O restaurante deixou de funcionar na década de 70, e o rés-do-chão foi depois alugado para comércio. Mas Maria José e Lino não quiseram deixar morrer a herança familiar. “Decidimos manter a pensão: renovámos os quartos, e vamos agora voltar a melhorá-los”, diz a co-proprietária, que vive mesmo no edifício. “Eu é que estou a dar a cara, enquanto tiver disposição e energia para isso”.

Viagem no tempo

Entrar hoje na pensão é quase fazer uma viagem no tempo: subida a escada de acesso ao primeiro piso, a sala de recepção mantém as cores, o chão em madeira, o espelho, os sofás vermelhos e os quadros com motivos florais que imaginamos originais – e há mesmo um ou outro quarto ainda equipado com mobiliário da década de 50. Mas mantém-se também a atmosfera familiar, e a prová-lo está o facto de a residencial ter uma taxa de ocupação elevada.

No dia em que o P2 visitou a Pensão Ferreira, na última semana de Julho, os 16 quartos (dos 22 inicialmente existentes) estavam ocupados – custam 19 ou 29 euros, para uma ou duas pessoas. “Temos aqui, como de costume, muitos participantes no Torneio Internacional de Xadrez de Famalicão”, dizia Maria José, referindo ainda outras iniciativas – como o festival de novo circo Vaudeville Rendez-Vous ou a programação do Teatro Didascália, com sede na vizinha Joane, ou as festas de Santo António e a feira de artesanato – que justificam a procura da terra, em diferentes épocas do ano, por visitantes e turistas estrangeiros.

Àquelas pode acrescentar-se a programação do Centro Português do Surrealismo, na vizinha Fundação Cupertino de Miranda, que por estes dias mostra a exposição O Surrealismo na Colecção Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian.

A Pensão Ferreira mantém, de resto, uma localização privilegiada, no centro de um triângulo urbano delimitado pelo campo da feira, pela estação do caminho-de-ferro e pelos paços do concelho, estando ainda a poucos metros da EN14 (Porto-Braga), que agora é mais uma artéria de comércio e já não a via obrigatória de atravessamento da vila de outras décadas, quando os automóveis, ou carroças puxadas por jericos, se abasteciam na Iris – e os amantes da boa cozinha também.