Música

Uma maneira diferente de dizer “sim” ao fado de Coimbra

João Farinha & Fado ao Centro apresentam o seu disco Sim em vários palcos, pelo país e também pelo estrangeiro. No final do ano, será a vez do Porto e de Lisboa, na Casa da Música e no CCB.
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João Farinha & Fado ao Centro DR

É um grupo e um espaço, em Coimbra. Chama-se Fado ao Centro e, se como grupo faz vários concertos em Portugal e noutros países, como espaço abriga apresentações diárias de fado de Coimbra na Casa Fado ao Centro (não é um restaurante, é uma sala de espectáculos), onde há também uma escola de música e uma escola de construção de instrumentos. Este ano editaram um disco chamado Sim, assinado por João Farinha & Fado ao Centro, e têm andado a mostrá-lo em vários palcos. Este fim-de-semana estarão em São Pedro do Sul (dia 18) e Vila de Rei (19), seguindo depois para Ponte de Lima (7 de Setembro), antes de começarem uma digressão pela Europa (Bélgica, Dinamarca, Suécia e Noruega). No final do ano apresentam-se na Casa da Música, no Porto (no dia 28 de Novembro), e no CCB, em Lisboa (15 de Dezembro).

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À voz de João Farinha, às guitarras de Luís Barroso e Hugo Gamboias e à viola de Luís Carlos Santos (a base tradicional do fado de Coimbra) juntam-se neste disco piano (Luís Pedro Madeira, também no baixo) e um quarteto de cordas, o Opus Quatro (Susana Magalhães na viola de arco, José Luís Carvalho e Miguel Gil nos violinos e Gabriela Magalhães no violoncelo. João Farinha explica: “Já houve experiências, nossas e de outros grupos, com violino, violoncelo e até com piano, mas com arranjos específicos para quarteto de cordas é a primeira vez. Nós procurámos, acima de tudo, instrumentos que realçassem a melodia e a harmonia dos temas, e que não os ofuscassem. Para isso, a participação do Luís Pedro Madeira, que é um músico consagrado na cidade de Coimbra, foi muito importante. Porque apesar de ele ser uma pessoa do rock, do pop e da música tradicional portuguesa (esteve envolvido em projectos com os Belle Chase Hotel), conhece bem o fado de Coimbra e pôs todo o seu conhecimento musical à nossa disposição.”

Raízes e profissionalização

Há, nas letras, o recurso a vários poetas: Fernando Pessoa (o Sim do título vem de uma canção baseada num poema do seu heterónimo Ricardo Reis), Antero de Quental, Florbela Espanca, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade, Mário Cesariny, Ary dos Santos, Miguel Torga. “Este disco funciona também como um primeiro disco em nome próprio, apesar de estar ligado ao Fado ao Centro, porque este ano estou a celebrar 20 anos de carreira”, diz João Farinha. “E procurei juntar aqui alguns dos temas que compus ao longo destes anos e outros novos. O título Sim é, também, o assumir-me como compositor de fado de Coimbra.” Porque, diz ele, estes escasseiam: “Infelizmente há poucos. Uma mão chega para contar os discos que são editados por ano e muito menos os discos de originais. A maioria reproduz o repertório clássico. Não digo que isso esteja mal, é uma opção, mas para alcançar novos públicos tem de se ir por outros caminhos. No nosso caso, procuramos não quebrar as raízes mas aproveitá-las para as abrir para o mundo.”

Os músicos que acompanham João Farinha têm idêntica opinião. Luís Carlos Santos, viola, diz: “Este é um trabalho um bocado fora da caixa. Nos não inventámos a roda, estamos é a pô-la a andar de uma maneira diferente. Quem ouvir o disco vai ouvir a música, ter em atenção os poemas escolhidos, mas detectar também as influências que o João tem de Coimbra: o pai dele também cantava fado, teve um percurso de académico, as influências estão lá.” E do lado dos guitarristas a sensação é semelhante: “A maneira de tocar, o estilo de Coimbra, é o que sempre fizemos. O que há aqui é um tipo de acordes que não são muito usuais no fado de Coimbra, o auxílio dos acordes tradicionais simples com a adição de algumas notas que criam dissonâncias. A sonoridade, com esses acordes, muda logo; mas o estilo de Coimbra está lá.”

Voltando a João Farinha: “Aquilo que o Fado ao Centro está a tentar fazer é, pela primeira vez, pôr músicos a fazer carreira profissional, o que não acontecia há 20 anos. No tempo quem que eu comecei a cantar era raríssimo, só se fosse um professor de guitarra portuguesa! Isto, quando surgiu, causou alguma polémica. Mas foi um dos bichos-papões que nós tivemos de ultrapassar, com êxito. Hoje temos cada vez mais jovens a querer ser músicos e já há algumas condições para isso acontecer.”