Pelo menos 324 mortos nas piores inundações no Sudoeste da Índia

No estado de Kerala ninguém se lembra de tanta chuva e as monções continuam até dia 24. Mais de 220 mil pessoas estão desalojadas e muitas localidades isoladas.

Muitos salvamentos só são possíveis de helicóptero
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Muitos salvamentos só são possíveis de helicóptero Sivaram V/Reuters
Pessoas à espera de ajuda no telhado da sua casa no Sul de Kerala
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Pessoas à espera de ajuda no telhado da sua casa no Sul de Kerala EPA
Gente em fuga na cidade de Kochi, Kerala
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Gente em fuga na cidade de Kochi, Kerala EPA

Há dez mil km de estradas submersos e mais de 32 mil hectares de culturas devastadas; caíram 20 pontes e mais de 20 mil casas foram destruídas, com 220 mil pessoas em 1500 centros de acolhimento. O retrato que estes números ajudam a formar mostra que o número de vítimas – 324 desde o início das monções, em Junho, “mais de 100 em 36 horas”, disse esta sexta-feira um responsável de Kerala aos jornalistas – deverá crescer. Há muita gente isolada e pode haver vítimas debaixo dos desmoronamentos de terra provocados pela força das águas.

De acordo com os serviços meteorológicos nacionais, a precipitação dos últimos dias é superior à normal em 37% – os especialistas falam num desastre como o Sudoeste da Índia não vivia desde 1924. O estado de Kerala, em particular, “enfrenta as piores inundações em 100 anos”, afirma o chefe do governo da região, Pinarayi Vijayan, citado pela AFP.

“Nunca vimos nada assim”, descreve Manju Sara Rajan, antiga presidente da Bienal de Cochin, a capital comercial do estado, ao telefone num raro momento de regresso da rede ao seu distrito. “A minha casa está à beira de água, numa vila completamente isolada há vários dias. Os únicos meios de comunicação de que dispomos são as redes sociais, WhatsApp e Twitter, no essencial, é assim que as autoridades alertam a população e organizam os socorros.”

Muitos habitantes têm pedido ajuda em mensagens e vídeos partilhados no Facebook. “Parece que a água está a chegar ao segundo andar”, diz num desses vídeos um homem na cidade de Chengannur com água até ao pescoço. “Espero que possam ver isto. Por favor rezem por nós.” Sexta-feira à tarde, o ministro das Finanças do estado, Thomas Isaac, escreveu no Twitter que a última estrada de acesso a Chengannur tinha desaparecido debaixo dos seus olhos, deixando a cidade completamente isolada.

Kerala é o estado mais densamente povoada do subcontinente indiano, com 860 habitantes por km2 (a médica nacional é de 382), e muitos reformados que para ali vão em busca do seu clima tropical. A pista do aeroporto internacional de Cochin está inutilizada e todos os voos suspensos pelo menos até dia 26 de Agosto.

Camiões, autocarros e barcos foram requisitados aos proprietários pelos serviços de socorro. A Força Aérea encarrega-se de tentar fazer chegar alimentos aos habitantes isolados e a guarda-costeira trabalha em permanência à procura de sobreviventes.

Numa das zonas isoladas, a região de Idukki (aqui choveu mais 83,5% do habitual), cenário das montanhas de Munnar e plantações de chá levadas pelas águas, caíram 127 milímetros de chuva no espaço de algumas horas na quinta-feira.

Vijayan descreve a crise como “extremamente grave”, com 12 das 14 regiões de Kerala a experimentarem as piores inundações. Para já, os custos estão avaliados em 83,2 mil milhões de rupias (mil milhões de euros), muito face aos mil milhões de rupias que o Governo central começou por anunciar. O primeiro-ministro, Narendra Modi, devia chegar à região esta sexta-feira e sobrevoar as zonas mais afectadas sábado de manhã.

As raras e destruidoras inundações dos últimos anos numa zona que se tinha habituado à seca levantam dúvidas sobre a possibilidade de as alterações climáticas estarem por trás deste fenómeno. Mas muitos cientistas culpam a deflorestação e o fracasso na protecção da frágil cordilheira de montanhas da zona. Também há trocas de acusações entre estados a propósito da gestão das barragens – as 80 barragens de Kerala (com 41 rios a desaguar no mar Arábico) foram abertas depois de ficarem sobrecarregadas.