Barcelona homenageia as vítimas das Ramblas em silêncio e quase sem política

Os políticos vieram mas só se ouviram vozes de pessoas comuns a evocar os 16 mortos dos atentados jihadistas. No centro da cerimónia estiveram familiares e feridos, pessoal dos serviços de emergência e segurança, como queria a câmara.

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Familiares das vítimas depositam flores junto ao mosaico de Miró Alejandro Garcia/EPA
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Ada Colau (ao centro) e Quim Torra (de óculos mais à direita) entre vítimas e familiares durante a cerimónia Alejandro Garcia/EPA
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Ana Pastor, Pedro Sánchez e Felipe VI Andreu Dalmau/EPA

Apesar dos receios provocados pela antecipação de protestos contra a presença do rei, a homenagem às vítimas do atentado de há um ano nas Ramblas de Barcelona decorreu como desejava a autarca, Ada Colau, sem grandes incidentes ou aproveitamentos políticos.

Na comemoração, iniciada junto ao mosaico de Joan Miró, nas Ramblas onde morreram 14 das 16 vítimas mortais e mais de 150 ficaram feridas, predominaram os momentos de silêncio e no centro estiveram sempre as vítimas e seus familiares, membros dos serviços de emergência, socorro e polícia.

Tudo culminou com um minuto de silêncio na Praça da Catalunha, seguido do grito espontâneo “Não tenho medo” – no mesmo lugar onde no dia seguinte ao ataque jihadista se juntaram centenas de milhares de pessoas sob esse mesmo lema. Depois de uma cerimónia privada com as vítimas na câmara municipal, uma comitiva encabeçada por estas foi recebida por um forte e prolongado aplauso em redor do mosaico. Ali lhes foram oferecidas flores antes de fazerem, de autocarro, o curto percurso até à Praça da Catalunha.

Para além dos reis, Felipe VI e Letizia, estiveram presentes o primeiro-ministro, Pedro Sánchez, o presidente catalão, Quim Torra, Colau e a presidente do Congresso dos Deputados, Ana Pastor, e o presidente do parlamento autonómico, Roger Torrent. Para arrancar a cerimónia na praça central da cidade ouviu-se El cant dels ocells (A canção dos pássaros), uma canção tradicional catalã, que Pablo Casals transformou num símbolo da região ao iniciar todos os seus concertos com a sua versão instrumental depois do exílio, em 1939.

A jornalista Gemma Nierga, convidada por Colau para dirigir a comemoração, falou para sublinhar a natureza “cidadã” dos actos e o reconhecimento aos profissionais de saúde e segurança, lembrando ainda os cidadãos comuns que prestaram ajuda às vítimas. Em seguida, oito pessoas de todas as nacionalidades, religiões ou idades leram o poema de John Donne mais conhecido como Por quem os sinos dobram nas oito línguas das vítimas mortais dos atentados.

A manhã começara com Torra a fazer uma declaração onde, para além da solidariedade e do apoio às vítimas, reivindicou o trabalho do ex-chefe dos Mossos d’Esquadra, Josep Lluís Trapero, que dirigiu as investigações e o dispositivo de segurança, mantendo o público informado em sucessivas conferências de imprensa, e ao então conselheiro do Interior, Joaquim Forn, “injustamente encarcerado”.

Ambos estão acusados de “rebelião e sedição” por causa do referendo sobre a independência de 1 de Outubro, declarado inconstitucional pela Justiça. Trapero foi afastado do cargo mas espera pelo julgamento em liberdade. Forn está numa das cinco cadeias onde foram parar muitos políticos e líderes das associações independentistas – o próprio pediu que esta sexta-feira fosse centrada nas vítimas, mas dezenas de pessoas concentraram-se em seu apoio diante da prisão de Lledoners, debaixo da chuva que caía nesta zona da província de Barcelona ao final do dia.

Torra tentou, aliás, pôr em destaque a presença da mulher de Forn, Laura Masvidal, que, como disse à rádio RAC1, fez questão de apresentar ao rei. "Não era eu que devia estar aqui", disse esta a Felipe VI. Na mesma entrevista à Rádio Catalunha, Torra pediu ainda que não seja esquecido “Carles Puigdemont, que está no exílio”, “mais um dos que devia estar” em Barcelona neste dia. O seu antecessor evitou a prisão viajando para Bruxelas, onde a Justiça recusou extraditá-lo.

PÚBLICO -
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"O rei espanhol não é bem-vindo nos Países Catalães", lê-se na faixa pendurada na Praça da Catalunha Andreu Dalmau/EPA

Quando o dia despontou já grupos independentistas tinham pendurado faixas contra o monarca nas Ramblas e na Praça da Catalunha. À chegada de Felipe VI ouviram-se gritos de “Viva o rei!” e vozes que pediam a quem gritava que se calasse.

As concentrações contra e a favor do rei não juntaram mais de umas 2000 pessoas (1500 contra) nem perturbaram as comemorações – Colau estava determinada a não permitir que se repetissem os acontecimentos da manifestação de 26 de Agosto do ano passado, quando o rei foi apupado por centenas de pessoas que formaram filas a curta distância de Felipe VI. A autarca de Barcelona recusou até comentar estes pequenos protestos, relativizando-os. De facto, foram secundários e o que ficou foi o silêncio da maioria, numa evocação emotiva das vítimas.

“Estivemos em segundo plano. Hoje só tínhamos de mostrar respeito às vítimas”, afirmou Colau no fim das homenagens. “As nossas diferenças, vamos discuti-las no resto dos dias do ano”.