Série Aldeias de Mar

Aldeias de mar. Na Vila Chã do pai herói, a pesca é quase memória

A sul do Rio Ave, Vila Chã conserva uma pequena frota de nove barcos, quatro dos quais presos à praia, por falta de quem os manobre. Pescar, por aqui, é quase um acto de resistência.
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O grito de aviso de Elisa Piloto, que antecede o taque-taque do guincho que esta mulher comanda, ecoa pela praia quase vazia. Franco e o genro saíram para largar uns covos entre umas pedras ali à nossa vista, sem segredos, e passados uns minutos estão de regresso, acompanhando, sem esforço, a subida do Pai Herói areal acima, onde o esperam os restantes oito barcos que completam a frota de Vila Chã, em Vila do Conde. O velho, um amigo que conhecemos de outras conversas de mar, resiste, aos 82 anos, a deixar a pesca, e hoje até está preocupado com a vistoria que hão-de vir fazer ao barco de fibra de vidro com que este homem que há quatro décadas se viu viúvo, com sete filhos, compõe, pescando, o orçamento familiar.

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Nove barcos. A frota de Vila Chã ainda “cabe toda num plano”, como descrevia o realizador Gonçalo Tocha que por aqui andou, em 2013, à procura das mulheres do mar. Mulheres pescadoras, ou pelo menos com cédula marítima, nos dias que correm; mulheres arrais, mestras dos seus barcos, outrora, em terra onde a agricultura e a pesca andaram quase sempre de mão dada, e que no início da década de 90 já tinham atraído aqui a antropóloga canadiana Sally Cole, interessada em perceber os processos sociais que as levaram a tal destaque, sem paralelo que se conheça, em Portugal.

Sobre elas sobra-nos, no catálogo da D. Quixote, ou nos melhores alfarrabistas, Mulheres da Praia - O Trabalho e a Vida numa Comunidade Costeira, da investigadora canadiana, e o documentário A Mãe e o Mar, do realizador açoriano, que tem entre as protagonistas uma das descendentes dessa casta que desafiou convenções e recusou ficar no areal, à espera dos seus homens. Glória Costa tem cédula, e poderia ainda andar com o marido no Rumo à Glória, se preciso fosse, mas os dias não correm de feição a esta pequena comunidade piscatória, onde há nove barcos, mas só cinco andam ao mar, tripulados, cada um deles por dois homens.

“Isto está ruim para todos”, resume Glória, enquanto vai cortando, com a cunhada Fátima Maia, umas cavalas congeladas para iscar os covos à porta da sua casa de mar. Os maridos de ambas têm cada um o seu barco, mas andam juntos num deles, apenas, dividindo despesas e ganhos. Na verdade, o Rumo à Glória está à venda, e não é o único. E o plano de Gonçalo Tocha é, hoje, uma meia verdade, feita de embarcações paradas por falta de-mão-obra e de uma dúzia de resistentes. Que adiam, nesta freguesia da margem sul do Rio Ave, o fim de uma actividade iniciada há séculos por filhos de agricultores, excluídos do acesso à terra pelo sistema de heranças baseado no morgadio.

Vizinhos com sortes distintas

Enquanto isso, ali ao lado, em Angeiras, já no concelho de Matosinhos, a pesca vive, curiosamente, a esperança de melhores marés. Aliás, no mesmo dia em que escutávamos, de manhã, os lamentos dos vilaplanenses, a ministra do Mar assistia, nessa outra praia vizinha que alberga ainda 15 barcos semelhantes a estes, ao início das obras de construção de um molhe prometido há quatro décadas, para gáudio de velhos pescadores que nunca tiveram uma barra que os defendesse dos instáveis humores do mar. Por lá, à tarde, António Soares, o “Camisola Grossa”, para os amigos, vigiava num banco o vaivém de uma retroescavadora, quase parecendo disposto, aos 72 anos, a contar pedra a pedra o trabalho que esta levará até ao fim de uma obra pela qual também lutou.

Em Vila Chã, até há um punho cerrado desenhado no costado do Pai Herói. Mas os esforços do governo socialista na comunidade vizinha são recebidos com indiferença. Aqui o vaivém das embarcações é defendido por um afloramento rochoso, a pedra do Bispo, para norte da qual, escondida dos nossos olhares, se desenvolve uma das concessões balneares da freguesia. A sul, há umas poucas barracas para banhistas à vista, mas o grosso do areal da Praia do Fontão, defronte das típicas casas de mar - evolução para alvenaria e telha, dos antigos barracões que os agricultores foram vendendo aos pescadores - ainda está a salvo das toalhas e guarda-sóis dos turistas.

Fátima Maia amanhã o peixe num penedo, na praia que ainda é dos pescadores

Por aqui ainda é possível amanhar um peixe nos penedos, como vemos Fátima Maia fazer, acabadas as tarefas do barco, ou apanhar um pouco de sargaço que deu à praia, actividade a que Glória, antiga sargaceira, se dedica a meio da manhã, a poucos metros de uma veraneante que se intrometeu no cenário e, deitada, apanha uns (poucos) raios de sol, indiferente às moscas. Esta praia é de gente como a filha e a segunda mulher de Franco, em vigília na areia, enquanto o velho larga os covos com o genro; dos gatos que aguardam tão ansiosos como elas o barco que vem chegando; ou de Manuel Sérgio e Jorge Silva, dois antigos serralheiros que trocaram a oficina por um esquife de nove metros, de boca aberta, que se dedicam, terminada a maré, a limpar com esmero.

Com metade da idade de Franco, Manuel e Sérgio podiam prenunciar um futuro para a pesca em Vila Chã, mas Alberto Silva, 62 anos, e outro dos pescadores que pôs o seu barco à venda, faz as contas ao resto da malta, onde ainda descobre dois camaradas com menos de 30 anos, e já não acredita numa efectiva renovação. “Os barcos são quase peças de museu. Mais meia dúzia de anos e aquela praia acaba”, vaticina o presidente da Associação Vila Chã-Pesca, um antigo operário da construção que, um dia, após a morte do pai, na sequência de um acidente na pesca do bacalhau, se fez ao mar também, para ajudar a mãe a manter onze filhos.

Pode ser verdade que, como diz, “só vai para o mar quem não sabe o que aquilo é”, mas o facto é que Alberto se deu bem. Pescador/salgador no navio bacalhoeiro São Gabriel, transferiu rapidamente o seu traquejo no manejo da colher de trolha para a pá do sal - essencial para a preservação da qualidade do bacalhau durante campanhas de cinco a seis meses - e na terceira viagem era já mestre-salga do navio, o que lhe trouxe responsabilidades acrescidas e um salário acima do da restante tripulação. O que o ajudou, mais tarde, no final da década de oitenta, a comprar um barco para pescar na sua praia.

Nessa altura, recorda, ainda haveria uns 30 barcos, cenário confirmado por Benjamim Moreira, que os construiu quase todos. Bisneto de Lourenço Caseira, famoso construtor naval do início do século XX, Benjamim herdou-lhe os genes e o génio, e ainda hoje será, em toda a região, uma das poucas pessoas capazes de construir uma catraia-fanequeira, embarcação típica de Vila Chã, da tipologia da lancha poveira, mas mais pequena, que aprendeu a fazer com o tio-avô António Caseira.

Benjamim Moreira foi até 2017 presidente de Junta, e responsável, num dos seus mandatos, pela criação de um pequeno museu, para onde transferiu muito espólio que vinha guardando em sua casa, juntando-lhe peças recolhidas na comunidade. O espaço fixa com esmero as actividades marítimas desta comunidade, que há décadas vivia ao ritmo dos ciclos da apanha do sargaço e do caranguejo pilado, fertilizantes das hortas e dos campos agrícolas que ainda se espalham pelo interior da freguesia, mas agora desligados dos que vivem do mar.

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Benjamim Moreira guarda, nas mãos, as técnicas de construção das antigas catraias

Lá dentro, um galricho - ou nassa, para outras comunidades que usavam esta armadilha para a faneca - serve agora de candeeiro, iluminando um corredor ocupado com um dóri, um bote da pesca do bacalhau, e mais à frente, três catraias, uma delas de popa cortada para encaixe de um motor fora de borda, evolução que nos anos 50 e 60 enterrou na memória dos velhos a navegação à vela e o manejo dos remos. Em honra desses tempos, e do bisavó que encheu de barcos a sua praia, já no início desta década Benjamim construiu a catraia-fanequeira Mestre Lourenço, no âmbito do projecto Celebrar a Cultura Costeira, promovido pela Mútua dos Pescadores, com financiamento dos EEA Grants.

Salvar a memória

A seu lado estava um mestre e professor universitário norueguês, que por lá se esforça, com sucesso, por manter vivas as técnicas de construção dos drakkar viquingues, e uma equipa de investigadores daquele país, que documentaram, em vídeo, todo o processo. A admiração dos estrangeiros pela cultura marítima de Vila Chã está, aliás, bem patente nas mensagens que muitos peregrinos de Santiago, utilizadores do albergue instalado na antiga cantina desta escola, deixam à entrada do museu erguido por Benjamim Moreira, e onde este, reformado, passa agora boa parte do dia, tentando manter a salvo a memória dos seus.

Este é um trabalho hercúleo, que não se resume aos objectos pregados à parede ou às casas de mar atulhadas de aprestos em desuso que, com o guincho, e o posto de socorros a náufragos, marcam, no território, vínculos antigos à pesca. Na cabeça destes homens e mulheres há um património de histórias e de gestos quotidianos quase esquecidos na preia-mar do tempo, como aquela que ouvimos de Carlos Franco, da primeira vez que o encontramos, há uns anos, num passeio pela praia, e que aqui recuperamos, antes de largar para outro portinho.

Nos anos 60, pescador do bacalhau no navio-motor Vila do Conde, Franco, o "Franquito", seguia no seu dóri, para entregar uns documentos ao navio S. Jacinto, a pedido do capitão, quando o bote adernou, deixando-o aflito na água gelada e à mercê de uma morte rápida. Vários companheiros meteram os seus barquitos ao mar, e valeu-lhe um conterrâneo de Caxinas, o António Flores, que o agarrou pelos cabelos, oferecendo mais umas décadas de vida a este homem atarracado e forte, que desafia a estatística e resiste a ir para o abate, como se diz dos barcos. Admitindo que poucos farão como o pai herói, resta saber quem salvará a pesca em Vila Chã, e se terá ela, como ele, direito a uma segunda vida.