Sem Ronaldo, La Liga parte à conquista do mundo

Campeonato espanhol arranca órfão do Bola de Ouro e com muitas dúvidas em relação ao Real Madrid. São 13 os portugueses numa prova com 15 treinadores espanhóis.

O desafio de Julen Lopetegui é fazer o Real Madrid esquecer Ronaldo e Zidane
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O desafio de Julen Lopetegui é fazer o Real Madrid esquecer Ronaldo e Zidane Reuters/MAXIM SHEMETOV

A saída de Cristiano Ronaldo para Itália chegou na pior altura para La Liga e para a sua estratégia de internacionalização. Numa temporada — cujo campeonato arranca hoje — na qual se aposta fortemente nos mercados norte-americano e indiano, a presença do melhor do mundo seria um trunfo mediático inestimável. Mesmo assim, os responsáveis espanhóis estão empenhados em destronar a Premier League e assumir-se definitivamente como o campeonato de futebol com mais seguidores do planeta.

Depois de ter celebrado nos últimos dias um acordo pioneiro com o Facebook, cedendo os direitos de transmissão dos jogos desta temporada, em canal aberto, para a Índia, La Liga virou-se para a América do Norte. Com o propósito de promover a competição nos Estados Unidos e Canadá, foi assinado um contrato de 15 anos com a empresa Relevent — uma multinacional de media, desportos e entretenimento —, segundo avançou o El País.

Para já, estará apenas em cima da mesa a disputa de uma partida do campeonato em território americano envolvendo, em princípio, o Barcelona ou o Real Madrid. “O objectivo desta extraordinária ‘joint venture’ é que a cultura do futebol cresça nos EUA. Será um grande passo para a sua crescente popularidade”, explicou ao jornal espanhol o empresário americano Stephen Ross, proprietário da Relevent.

O projecto começou a ganhar forma em Julho do ano passado, após o sucesso do encontro particular entre o Real Madrid e o Barcelona disputado em Miami, na Florida. Uma partida organizada pela Relevent, que é responsável pela competição oficiosa International Champions Cup (ICC) que se disputa desde 2013 e envolve alguns dos maiores emblemas europeus, numa espécie de antecâmara dos torneios oficiais. A edição deste ano foi disputada em diferentes cidades do mundo, mas maioritariamente nos EUA.

O acordo de princípio estabelecido com La Liga está a levantar muitas questões, nomeadamente qual dos dois “gigantes” do futebol espanhol estará envolvido no jogo a disputar na América. A fase da temporada em que será realizada a partida, o nome do adversário e quem jogará “em casa” são outras perguntas sem resposta.

Não menos importante é saber a compensação financeira para as equipas em questão, nomeadamente para aquela que deixará de contar com uma receita de bilheteira no seu estádio. E também como serão reembolsados os adeptos que já têm bilhetes de época que incluem todos os encontros caseiros.

Os responsáveis de La Liga parecem de momento mais interessados em agarrar a oportunidade de ganhar globo à Premier League, principal oponente nos mercados externos. Mesmo assim o presidente da Liga de Futebol Profissional (LFP), Javier Tebas, deixou uma garantia: “Nunca se organizaria contra os interesses dos participantes. Veremos que equipas podem estar de acordo e que compensações e estratégias de comunicação serão levadas a cabo.”

A estratégia da LPF para a Índia é outro braço neste projecto de domínio mundial. “La Liga é melhor do que a Premier, mas a Liga inglesa é vista aqui desde há mais de 20 anos e há apenas seis era impossível ver uma partida de La Liga”, explicou há uns dias ao jornal Marca José Antonio Cachaza, responsável do campeonato espanhol na Índia.

A incerteza Real Madrid

Enquanto se aguarda pelos proveitos financeiros e desportivos a prazo desta estratégia de internacionalização, a 88.ª edição de La Liga arranca hoje com as partidas Girona-Valladolid (Eleven Sports 1, 19h15) e Betis-Levante (Eleven Sports 1, 21h15). Amanhã (20h15), é a vez de o Barcelona começa a defender o título com a recepção ao Alavés, enquanto o Real Madrid defronta, em casa, o Getafe no domingo (20h15).

E é precisamente sobre o campeão europeu que recaem as principais expectativas desta edição. Depois de nove temporadas sob a batuta galáctica de Cristiano Ronaldo, fica aguarda-se para saber qual será o candidato ao estratosférico trono deixado vago pela estrela portuguesa agora a brilhar na Juventus.

Incertezas existem também em relação ao novo treinador, Julen Lopetegui, que rendeu no banco Zinedine Zidane, após o francês ter surpreendido os madridistas com o anúncio da sua saída no final da última época. Para já, o técnico basco não teve a estreia oficial desejada, perdendo a Supertaça europeia para o rival Atlético de Madrid, por 4-2, após prolongamento.

Um desaire que se soma à sua tão atribulada como desastrada contratação no arranque do Mundial da Rússia, quando conduzia a selecção espanhola. Acabou por ser demitido da Roja pelo presidente da federação e o episódio não terá contribuído para reforçar uma imagem positiva entre os adeptos “merengues”.

Tal como nas últimas temporadas, a luta pela coroa da Liga espanhola tem três grandes candidaturas, com o Atlético de Madrid a prometer voltar a intrometer-se na disputa entre Barcelona e Real Madrid. Este trio ocupou o pódio do campeonato nas últimas seis épocas. O Barcelona foi destacadamente quem mais sucesso teve ao nível da medalha de ouro, amealhando quatro e deixando apenas uma a cada um dos seus adversários.

Para encontrar um campeão fora deste triunvirato no século XXI é necessário recuar a 2001-02 e 2003-04, quando o Valência se impôs aos grandes emblemas de Madrid e Barcelona.

Os 13 portugueses

Sem Cristiano Ronaldo ou André Gomes (que trocou o Barcelona pelos ingleses do Everton) como referências na Liga espanhola, a armada portuguesa reduz-se esta temporada a 13 jogadores, até agora (o mercado de transferências encerra no final de Agosto, tal como em Portugal).

As grandes novidades este ano são Gelson Martins, que rescindiu com o Sporting e assinou pelo Atlético de Madrid; William Carvalho, que também saiu de Alvalade para reforçar o Betis de Sevilha; e André Silva, que chega ao Sevilha por empréstimo do AC Milan. Os restantes são Nélson Semedo (Barcelona), Fábio Coentrão (Real Madrid, poderá ainda vir a ser emprestado), Kevin Rodrigues (Real Sociedad), Daniel Carriço (Sevilha), Rúben Vezo (Valência), Antunes (Getafe), Rúben Semedo e Luisinho (Huesca), Paulo Oliveira e Bebé (Eibar).

Menos policromática será o campeonato espanhol no que diz respeito aos treinadores: 15 espanhóis e cinco argentinos.