Como ser uma mulher inteira, uma lição de Aretha Franklin para Beyoncé

Muito antes de se falar em empowerment e em wokeness já Aretha Franklin havia descrito como uma mulher negra pode tomar as rédeas da sua vida. Quando virem Queen B a ser rainha, lembrem-se de que ela teve esta mãe.

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Aretha Franklin numa sessão de gravação nos estúdios da Atlantic Records, em 1969 Michael Ochs Archives/Getty Images

Às vezes tudo o que é preciso para chegar ao mito é uma ligeira alteração – como quando Clark Gable improvisou aquela fala que ficou para a História, "Frankly, my  dear, I don’t give a damn", ou Artur Jorge introduziu Juary ao intervalo daquele Porto-Bayern que resultaria na primeira Taça dos Campeões Europeus dos azuis-e-brancos, em 1987. Alguém foge ao guião, ao que é expectável, introduz um dado inesperado e o caos solta-se e a História nasce. Como quando as irmãs de Aretha cantaram "sock  it to me" nos coros de Respect.

"Sock it to me". Expressões idiomáticas nem sempre têm uma tradução à letra, mas aqui o significado imediato é: mostra-me o que tens, mostra-me o que vales. Se fôssemos ingénuos, poderíamos, por um segundo, achar que havia aqui incentivo – mas não, a bravata com que a frase é dita torna-a um desafio: levanta a mão se quiseres, que eu não tenho medo de ti. Dizer isto, com esta lata – isto é aquilo a que chamamos História.

Há uma ironia aqui: Respect – canção que, na versão de Aretha, toda a gente conhece – foi escrita por um homem, um extraordinário homem, Otis Redding. No original era um monólogo de um homem, cansado de trabalhar, que exigia que a mulher parasse de o aborrecer – na versão de Aretha é outra coisa, uma mulher que simplesmente não aceita não ser respeitada e que enfrenta quem não a respeita.

Daí a importância da introdução daquela frase, "sock  it to me", nos coros: era como se de repente ficasse claro para toda a gente que as mulheres não mais aceitariam o papel que lhes era votado pelos homens. "Sock it to me" era a verbalização de uma revolta, até então surda, sobre o papel que uma mulher (todas as mulheres) podia(m) assumir. Respect (na versão de Aretha) foi editado em 1967: 51 anos e um Me Too depois, as mulheres só agora estão a começar a realmente dizer "sock  it to me".

Aretha não achava que a canção fosse particularmente arrojada: "Toda a gente merece respeito, toda a gente quer respeito", disse um dia. "Eu só o pus na voz de uma mulher", acrescentou. Mas isso foi particularmente importante, mais ainda pela época em que a canção foi lançada: não só Respect se tornou bandeira do movimento feminista como a própria Aretha acabou por devir um ícone dos direitos das minorias – mais que isso: ela tornou-se a imagem da mulher que é capaz de se defender a si própria e diz o que tem a dizer. Muito antes de se falar em empowerment e em wokeness já Aretha havia descrito como uma mulher negra pode tomar as rédeas da sua vida.

Respect não seria o que é se não fosse Aretha a cantar – e isto é importante: Aretha não está a cantar para demonstrar um ponto; ela está a cantar Respect porque cantar, de todos os pontos de vista possíveis, é a sua forma de se expressar. Ela não foi apenas a mulher que desafiou o seu homem – também foi a mulher que cantou (To be) young, gifted and black, ou Do right woman, do right man (que era feminista de uma forma marota, reclamando mínimos olímpicos sexuais) ou Think.

Recapitular essas performances é uma maneira de dar conta da versatilidade de Aretha, bem como da abrangência do seu espectro emocional – mas na versão super-condensada, que reduz a sua carreira apenas a êxitos. Porque para sermos honestos ela é bem mais que um símbolo e a sua grande dádiva tanto às mulheres como ao resto da humanidade (e o resto, os homens, também podem tentar aprender com ela) foi não ter tentado dar lições, muito menos num só aspecto da vida, foi ter cantado tudo: o gospel, os blues, a soul. Do ponto de vista do negro crente, do negro pobre, do negro analfabeto, da mulher apaixonada e capaz de tudo pelo seu homem, da mulher que não se verga, da mulher que não tem vergonha de chorar, da mulher que não só não tem vergonha como assume o seu desejo.

Isto foi o que ela deixou, não só a Beyoncé como a todas as mulheres e também aos menos maus dos homens: ser uma mulher negra que nunca tem vergonha de ser mulher, nem negra, nem tem medo do que sente, uma mulher inteira que (parafraseando Caetano) respeita as suas lágrimas e ainda mais a sua risada. Uma mulher que põe a voz toda em cada vocábulo. Aretha era uma voz gigante e comovente, mas era mais do que isso. Vão ao YouTube e vejam as suas aparições na televisão na década de 1960 e 1970: era uma mulher impositiva, sexual, mãe desde os 12 anos, sem medo.

Isto aconteceu muito antes de Madonna, muito antes de Queen B, muito antes de Nicki Minaj. Mas quando vemos as Destiny’s Child a cantarem Survivor, quando vemos Beyoncé, de bastão de basebol na mão, a escavacar tudo o que lhe surge rua afora, podemos rastrear esta ascensão mediática actual de uma feminilidade completa, inteira, que foge aos padrões domésticos convencionais, até esse momento em que Aretha surge – na década de 1960 – pelos ecrãs de televisão adentro fazendo ver que uma mulher não é apenas aquele ser que chora na cozinha, a mulher também berra (e se ela berrava), também toma conta de si mesma, também exige uma sexualidade activa.

O mundo, em particular o da pop, mudou muito desde essa época. Madonna explicitou essa urgência sexual, de mulher que não só aprecia sexo como o procura deliberadamente e usa o seu corpo. Mas leiam bem a letra de Do right woman, do right man: "If you want a do-right-all-day woman/ You've got to be a do-right-all-night man". A canção foi escrita por dois homens – mas é quando Aretha a canta que explode e é quando Aretha a canta que o seu significado se torna explícito. Tem um lado machista. O seu significado é: se queres uma mulher que trate do lar o dia todo, tens de tratar de mim a noite toda. Mas o simples facto de resgatar para as mulheres uma sexualidade de que, até então, pouco se falava tornava-a quase radical. Na altura pareceu uma revolução – mas na realidade foi de imediato adoptada pelas mulheres. Aretha tinha essa capacidade: qualquer canção que cantasse sobre pele, género ou liberdade era aceite.

Ela dizia que tudo o que cantava vinha do fundo da alma e que para ela soul era só isso. Talvez tivesse razão: talvez fosse apenas uma voz gigante com aquela capacidade dos génios de traduzir musicalmente o que está no fundo da alma. Acontece apenas que no fundo da sua alma estava uma mulher que se recusava a não ser inteira.

Quando virem Queen B a ser rainha, lembrem-se de que ela teve uma mãe. As mulheres ainda precisam de ouvir Aretha. Os homens têm de começar a ouvi-la.