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Carmen Maria Machado: O corpo feminino é uma arma política

O que é viver no corpo de uma mulher? A pergunta atravessa o livro que projectou o nome de Carmen Maria Machado como um dos mais audazes da actual escrita. O Corpo Dela e Outras Partes é um exercício literário sobre sexo, desejo, violência e abuso a partir da tragédia quotidiana e vai dar origem a uma série televisiva, espécie de Black Mirror feminista. Um universo fantástico para falar de coisas urgentes.
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Tom Storm Photography

É como se a voz correspondesse ao corpo. As gargalhadas sonoras no fim de cada frase, a velocidade com que as palavras lhe saem e se pegam umas às outras numa corrente verbal sempre à beira do colapso. Nada é monótono no modo como Carmen Maria Machado fala, acentuando o entusiasmo ou arrastando as vogais para revelar umas vezes tédio, outras frustração, ou o gesto com que atira a cabeça para trás sempre que ri. A sua voz poderia ser a de uma cantora lírica. Partilhariam, decerto, o mesmo porte. Uma vez escreveu que gostaria de se imaginar a rainha de uma história de fantasia. Num artigo muito recente sobre o impacto da escrita de Machado, a Vulture recuperou essas palavras. Assim: “Estou envolta em seda vermelha e sento-me num grande trono branco coroada com um grandioso toucado em forma de leque gotejando pedras preciosas que fazem tick tick tick como os dados do [jogo] Yatzee sempre que viro a cabeça. Os meus pés descansam sobre ursos adormecidos. Sou tão gorda que só posso deixar o trono num palanque carregado por 20 homens. Sou tão gorda que tiro o ar da sala. Sou tão gorda que nenhum conselheiro me diz que não.”

Atingiu o seu limite de artigos gratuitos

Esta é a escritora na sua fantasia. No real, muda pouco; nada nela é convencional. Na sua conta de Twitter, por exemplo, apresenta-se como metade diva, metade bruxa. Porquê? Desta vez, a gargalhada vem antes da resposta: “O meu modo muito pessoal de abordar o mundo tem a ver com a exuberância ligada a uma espécie de luxúria e associada à figura de uma diva. Adoro essa maneira de viver e também a antiguidade que lhe é inerente. Acho que essa é a minha metade diva. E também me interesso por rituais privados, uma certa elegância privada. São as minhas perseguições intelectuais ligadas à bruxa.” A sua literatura resulta dessa síntese entre fantasia e real. "As mulheres de verdade têm um corpo", escreveu de forma cristalina no livro onde narra o que é viver no corpo de uma mulher. A dor, o prazer, o desejo, as mutações causadas pela maternidade, o envelhecimento, o modo como esse corpo é usado também politicamente; o corpo de um indivíduo submetido a políticas de Estado, o corpo que tem como grande princípio o prazer e, antes dele, o desejo, “motor de tudo”. Lê-la é como entrar num universo de contos de fadas... cheio de horror.

A escritora, nascida na Pensilvânia, tem com esta obra um sucesso de vendas num momento que não previu, mas onde se encaixou: MeToo Art Streiber/AUGUST

Que corpo é este? “Tantas coisas”, diz a dona da voz poderosa a partir do Novo México onde está temporariamente numa residência a terminar o próximo livro. “O corpo é muito físico, por isso escrever sobre o corpo é escrever muito acerca de sexo e desejo, ou o modo como sentimos as suas falhas. E o corpo é também a doença e as luas; saber que o corpo tanto nos serve como nos faz fracassar. Toda a fisicalidade é muito importante. Mas há também o corpo político. O corpo é uma fonte de contenção política, o corpo é forçado politicamente”, continua Carmen Maria Machado numa conversa a partir das pistas deixadas pelo seu livro de estreia, O Corpo Dela e Outras Partes (Alfaguara), um volume que reúne oito contos de uma escritora disposta a arriscar tudo para poder falar do que quer e como quer. Ou seja, sem respeitar convenções estilísticas ou morais em temas como sexo, género, violência, abuso, submissão, perda, luto, paixão e abandono. Tudo o que faz o corpo vibrar ou ceder.

É um corpo de mulher enquanto alvo e arma. Uma ideia que remete para outro livro, Entre Mim e o Mundo, do jornalista Ta-Nehisi Coates. Publicado em 2015, tinha a forma de uma carta dirigida ao seu filho adolescente e projectou-o dentro e fora do seu país. Nessa carta, Coates explicava o que era nascer e viver num corpo negro, na América. Carmen Maria Machado, bissexual, recorre à ficção para dizer o que tem sido nascer e viver num corpo de mulher. Na América e no mundo. E fá-lo numa escrita austera, clara, muito contaminada pelo folclore narrativo. Quando O Corpo Dela e Outras Partes saiu nos Estados Unidos, no Outono passado, muitos falaram de um livro profético. Em tudo parecia ecoar o tempo presente. Os temas ali tratados — o corpo da mulher, a misoginia, os abusos sexuais, o silenciamento feminino — faziam manchetes, alimentavam redes sociais. Eram os dias das primeiras acusações a Harvey Weinstein que esteve na génese do movimento MeToo.

Carmen Maria Machado não podia ter previsto tais circunstâncias “ideais”, um sentido de tempo perfeito para chegar ao mercado com o seu primeiro livro. “O timing parece assombroso, entre a eleição de Trump, o movimento MeToo e muitas outras coisas que estavam a acontecer culturalmente nos EUA e fora. Isso é qualquer coisa que não se planeia. Vendi-o [os direitos] dois anos antes de sair e antes levou-me cinco anos a escrever. Foi de alguma forma estranho que tivesse saído neste tempo. Quando me dizem que é muito profético, como quem diz ‘a oportunidade é tremenda’, respondo que as vidas das mulheres foram sempre assim, terríveis. Não escrevi por saber que Trump seria eleito. Escrevi como uma mulher neste mundo. E mesmo que o tempo pareça extraordinário isso é apenas porque as coisas sempre foram assim, só que agora despertam mais atenção. Esta é uma verdade de sempre para as mulheres. Não, não é assim tão profético, é apenas real.”

Os holofotes

Hollywood só poderia estar atento e imediatamente surgiram propostas para adaptar os contos de Machado. Esta primavera veio a notícia de que a Imagine Television irá produzir uma série, espécie de Black Mirror sobre o lado negro de ser mulher que quer contribuir para a discussão sobre género. Antes de sair O Corpo Dela e Outras Partes, Carmen Maria Machado não era uma desconhecida. Os mais atentos ao mundo literário sabiam dos seus contos, ensaios, crítica. Ela publicava nos jornais e revistas mais prestigiados dos Estados Unidos, mas em pouco tempo ela conquistou um estatuto de quase-estrela pela qualidade e irreverência da escrita como pelas declarações públicas.

Uma das que teve mais eco envolve outro escritor, Junot Diaz. Foi em Maio, na sequência de um artigo onde ele confessou ter sido vítima de abusos sexuais na infância, a que se sucederam acusações de duas escritoras; apontavam o dedo a Diaz. Ele terá forçado o beijo. Carmen também tinha uma história com Diaz. Na sua conta de Twitter acusou-o de misoginia durante uma sessão na Universidade de Iowa, há cinco anos. Ela fez-lhe uma pergunta e ele terá reagido mal. E Carmen tem 20 mil seguidores e a declaração causou ruído. Ainda reverbera. “Não quero falar sobre Junot Diaz apenas porque ele não me interessa nada e estou farta de falar dele”, diz, sem que o humor se altere. “Não estou habituada aos holofotes”, adianta. O livro trouxe-lhe isso. Foi finalista do National Book Award e do Kirkus Prize, entre outros. “Isso é óptimo quando vou a algum evento e as pessoas me procuram para dizer que leram o livro e que a leitura alterou o modo de pensar sobre este e aquele tema. Isso faz-me muito feliz. Mas sou apenas uma voz, só uma pessoa a dar a minha perspectiva sobre algumas coisas. Nos Estados Unidos as vendas têm sido uma loucura, isso é empolgante, nunca pensei. É muito estranho para mim.”

O que se lê nas histórias de Carmen Maria Machado são cenas do quotidiano carregado de violência muitas vezes camuflada pela bondade ou, pelo menos, por uma normalidade comumente aceite. Como na primeira história, O Ponto do Marido, o recontar de um conto popular, The Green Ribbon. “Senti que havia alguma coisa ali que eu queria encontrar e articular e a que se pode chamar a misoginia dos homens bons. A protagonista, no fim, diz qualquer coisa como: ‘ele não é um homem mau’. E eles, os homens que não são maus, dizem: ‘sou um bom homem, como é que posso ser misógino?’, quando simplesmente não entendem que isso está no ar. É a cultura, é o mundo em que se cresce. Interesso-me por isso, o machismo e a masculinidade tóxica que forma os homens e a cultura, e em como ela se manifesta. O homem e a mulher da história têm um casamento relativamente bom. Eles correspondem aos desejos um do outro, ela vive uma vida preenchida, com uma excepção: sabe que ninguém respeita uma coisa uma coisa que é apenas dela, o seu segredo [a razão pela qual usa sempre uma fita no pescoço]. Para mim essa história é a materialização da tragédia da misoginia do homem bom. Não é sobre ser maléfico ou perverso. É sobre não questionar as coisas que pensamos saber. Quando quis contar essa história não estava ciente disso. Lembro-me de terminar o conto e de me sentir muito orgulhosa, como se tivesse escrito alguma coisa realmente importante.”

Judy Chicago, The Dinner Party, 1979. Colecção do Brooklyn Museum, doação da Elizabeth A Sackler Foundation Donald Woodman

Carmen Maria Machado nasceu há 32 anos em Allentown, uma cidade de 120 mil habitantes no leste na Pensilvânia, a pouco mais de uma hora de carro de Filadélfia, capital do estado. “Cresci nos subúrbios de Allentown, uma espécie de não-lugar muito aborrecido. Esse facto moldou-me no sentido em que me fez de tentar escapar, fazer o meu caminho longe dali. Tive sorte, o meu pai ganhou dinheiro e pude estudar longe.” Andou um pouco por toda a América, destacou-se no curso de escrita criativa da Universidade de Iowa e voltou à Pensilvânia, agora a Filadélfia, onde vive com a mulher e ensina no departamento de Inglês da University of Pennsylvania. Diz que as suas origens moldaram a escrita que faz.

Filha de imigrantes cubanos e austríacos, cresceu a ouvir histórias, locais e de um lugar mais longe, Cuba, estas contadas pelo avô, Reinaldo Pilar Machado Gorrin, a quem dedica o livro. “Ele emigrou de Cuba para os Estados Unidos quando era adolescente. Foi deportado uma vez e voltou. Foi muito especial para mim quando eu era criança. Fazia a ligação com a nossa família cubana e a nossa herança cubana e contava muitas histórias. Ajudou a formar a nossa identidade e o modo como pensávamos de nós próprios, os meus irmãos e eu [Carmen tem um irmão e uma irmã]. Ele manteve viva essa parte de nós. O modo como contava histórias e as estruturava, podendo ser divertidas e trágicas ao mesmo tempo, ajudou-me a pensar na forma de narrar. Ele sempre esteve numa linha directa com essa parte da minha identidade. Fui a Cuba há uns anos, estive com familiares que não conhecia e foi muito mágico. Quando finalmente publiquei o livro ele foi um dos grandes destinatários. Parte do meu estilo e do modo como abordo as histórias existe por causa dele.”

Nesse seu modo de narrar, Carmen recorre à sabedoria popular, a lendas, histórias do folclore regional, mitos urbanos, um vórtice fantasioso que pretende reflectir a realidade sem se contentar em ser apenas um espelho. Quer activar pensamento e imaginação. “Quando se quer ser escritor há duas coisas que queremos descobrir: a nossa voz, ou seja, o modo como contamos a história, e o que temos para dizer, porque se não temos nada para dizer, por que haveríamos de escrever? Estava sempre a escrever histórias do tipo alguém a morrer de cancro ou alguém a quem morriam os pais e isso não era muito pouco interessante nem era muito bom. Quando pensei a pensar nos trabalhos que de facto me inspiravam, escritoras como Shirley Jackson, Kelly Link, Karen Russell, comecei a pensar sobre meta-ficção, não-realismo, e fantasia e horror e ficção-científica e todas as formas em que se pode contar uma história. De repente tinha o modo como queria narrar e era uma espécie de ignorar as fronteiras entre realidade e deixar a história revelar-se. Isso não aconteceu antes da primeira história que escrevi nesta colecção, Um Feitio Difícil em Festas, o último conto. Percebi que havia assuntos que me faziam pensar muito e me causavam emoções fortes, como a violência sexual e uma espécie de psicologia de recuperação de violência sexual, mas queria escrever sobre isso de forma que ainda ninguém tivesse escrito”, refere. E, para isso, usou as ferramentas que conhecia e que vinham do não-realismo e um realismo mágico surreal.

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“Cunt” ou “cona” em português “é a minha palavra preferida. Não é eufemística. O facto de ser directa, eficaz, agrada-me. É tão bonita!” Julie Dermansky/Corbis/Getty Images

Por exemplo, há mulheres que engravidam de mulheres e mulheres que deixam de ser corpóreas devido a uma espécie de epidemia. E esse mundo fantástico serve questões muito concretas, como o que significa ser uma pessoa cuja autonomia está constantemente a ser questionada e alterada. Por vontade de governos, por jogo político, pela economia. "É uma coisa muito chocante de se pensar; que a nossa humanidade — a de cada um de nós — pode mudar constantemente sem que isso dependa da nossa vontade. Sobretudo se formos pessoas de cor, homossexuais, mulheres... Aqui está outra vez o corpo político e o físico, o tema que me importante muito enquanto escritora.”

Uma gargalhada política

No conto Mães, o terceiro do livro, um casal gay, feminino, tem uma filha. “Fizemos um bebé. Aqui está ela”, a narradora é uma mulher. São todas em todos os contos. E há uma casa de sonho. “Por detrás da mesa, há um altar, com velas acesas por Billie Holiday e a Willa Cather e a Hipácia e a Patsy Cline”, e muitas mulheres, santas artistas, excomungadas, “as arcanas maiores e menores da nossa religiãozinha”, diz a mulher mais sonhadora, a que também narra o choro da criança e como era o sexo. São muitas as descrições eróticas, heterossexuais e, sobretudo homossexuais. O sexo existe e é descrito dessa maneira, como uma coisa da vida. Não serve para sustentar uma história, mas serve para dar lhe dar uma nota real. Nada é gratuito nem exibicionista.

“Escolho as palavras que parecem adequar-se. Por exemplo, não sei como a palavra cunt [cona] foi traduzida. É uma palavra que uso porque é a minha palavra preferida. Não é eufemística, prefiro-a a outras palavras que tenho à disposição em inglês. O facto de ser directa, eficaz, agrada-me, por isso é uma palavra que gosto de usar. É tão bonita! E no inglês americano, mais do que em inglês britânico, é uma palavra chocante. Mas é muito funcional e adorável e eu sou grande fã dela.” E o ponto final na declaração faz-se com mais uma gargalhada. É uma gargalhada política, a de saber que a linguagem pode fazer a diferença. Pela crueza, pela exuberância, pela naturalidade. Como dizer que gosta de moda e de rituais religiosos mesmo não tendo fé religiosa. "Interesso-me por moda e de como a moda tem tudo a ver com prazer pessoal e satisfação. A moda transgénero, por exemplo, está a movimentar-se em direcção a uma espécie de bruxaria, é o lugar onde criamos o nosso próprio ritual.”

Estamos sempre perante o quotidiano e as suas representações. Ainda em Mães, Carmen Maria Machado chama a atenção para o simbólico na encenação do feminino. As duas amantes percorrem o bairro de origem de Má, uma delas, “e, de repente, encontrávamo-nos no Museu de Brooklyn e havia uma mesa comprida que parecia não ter fim, pratos sugestivos e floridos em honra da Deusa Primordial, de Virginia Woolf”. Machado refere-se a The Dinner Party, instalação de 1979 da artista feminista Judy Chicago. Ela conta agora a razão de incluir essa obra no conto: “Faz-me pensar em ser mulher, ser feminista. Ser uma pensadora feminina é fazer parte de uma tradição muito alargada e antiga. Nessa instalação vê-se a representação das vidas e dos corpos das mulheres através do tempo, da História. Agora está muito na moda — e fica muito bem — ser-se feminista, mas as mulheres têm tentado fazer-se notar ao longo de toda a história da humanidade e Dinner Party é uma representação muito bonita disso. Gosto de pensar em mim como parte dessa longa tradição de mulheres pensadoras, e saber que pertenço a uma das gerações mais recentes nesse caminho, o que é muito fixe. Como escritora, construí-me nisso tudo.”

Quis ser escritora desde muito pequena. Tinha oito anos e já escrevia histórias, imprimia-as e enviava-as em cartas para escritores, para editores; “eram cartas do tipo ‘aqui tem uma história, se quiser mais é só pedir’, precisa, mas só começou a pensar na escrita como uma carreira aos 24 ou 25 anos. Por essa altura terá nascido Olivia Glass, o pseudónimo pornográfico. “Ohhh, o meu alter ego! Era muito nova e queria publicar um livro e que era explicitamente erótico. Perguntei a um professor o que devia fazer e ele disse-me que eu era uma mulher e que devia publicar tudo o que quisesse, mas que talvez fosse bom considerar um pseudónimo. Ele foi muito esperto na argumentação. E foi esse o nome que escolhi. Eu queria que fosse Miranda Glass, porque adoro o nome, mas havia mais Mirandas Glass e não queria que essas pobres Mirandas ficassem associadas ao livro (Five Stages of Grief). Ainda publiquei algumas coisas com esse nome, mas agora que olho para trás teria publicado com o meu nome. Não tenho de estar atrás e um pseudónimo. O que publico com o meu nome também é muito explícito. Não quero saber.”

Fracasso e delírio

Um destes dias, numas das muitas entrevistas que deu após a explosão do seu nome, perguntaram-lhe como perspectivava a sua carreira. “Respondi que queria escrever muitos livros e que alguns fossem um fracasso. Significa que tentei fazer alguma coisa realmente estranha que não resultou. É assim que funciono. Estou sempre a tentar fazer qualquer coisa nova, sempre interessada num falhanço interessante. O que me interessa é o trabalho artístico, seja ele um sucesso ou um fracasso.”

Daí a experimentação formal. A estrutura de uma história nunca se repete. A mais arriscada é também a mais longa, Especialmente Abominável, 237 Cenas de Lei & Ordem: Unidade Especial, um jogo alucinante a partir da série policial que Carmen Maria Machado começou durante o delírio de uma febre. Estava a ver alguns episódios quando a febre subiu e ela começou a construir sinopses na sua cabeça. Trabalhou-as e nasceu o conto. “Adoro televisão, também passo muito tempo a jogar vídeo, interesso-me muito por media e como os media enformam a literatura. E não gosto apenas de bons programas de televisão. Também gosto de programas estúpidos, há um lado repetitivo neles que me interessa, mas também porque enquanto os vejo penso muito acerca de género, na forma como eles reflectem algumas características da sociedade, e de como tudo aquilo está estruturado. Enquanto escritora estou sempre à procura da estrutura”. A escrita faz-se, diz, mas muitas vezes permanece um mistério até encontrar a estrutura. A forma revela o conteúdo e traz todos os contágios, que já se percebeu serem muitos. “O modo como, em criança, falávamos de monstros e lendas e como essas histórias iam mudando sempre que eram contadas, e como tudo isso reflectia um espaço e um tempo e falava de um mundo muito para lá da superfície. Essas camadas interessam-me.”

Os críticos querem classificá-la. Chamam-lhe fantasista, autora de ficção científica, uma escritora de horror, feminista, erótica, até mesmo pornográfica. Ela acha-se todas essas coisas. “Eu brinco e interessa-me que uma história sirva o que quero. Como é que isso é rotulado ou arrumado nas livrarias é para os profissionais da edição. Não me interessa.” E o que significa para ela ser feminista? “Significa ser uma pensadora e ser política. Acho que o feminismo é isso. Penso muito sobre género e sou politicamente activa em assuntos de género. Esse é o meu modo de manifestar o meu feminismo. Tem a ver também como o enquadramento que faço de certas coisas. Quando penso, por exemplo, na eleição de 2016 nos Estados Unidos. Podemos pensar nela em termos económicos, etc., mas para mim uma das partes mais interessantes foi o modo como Hillary Clinton perdeu por nenhuma razão, e perceber as múltiplas humilhações a que tantas mulheres foram sujeitas e ver que há coisas de que não se fala. É assim que o meu cérebro funciona como escritora.”

Interessa-lhe indagar. Sobre o desejo, por exemplo, cada vez mais arredado dos discursos feministas e também da literatura. “Talvez as pessoas pensem o desejo como uma coisa fútil. Não concordo. É um motor incrível. Um motor para muitas coisas, incluindo a mudança. As pessoas, por razões muito válidas, estão focadas em questões de sobrevivência e esquecem, mas há coisas sem as quais é complicado viver. O puritanismo não está desligado disso. Há uma tradição puritana nos Estados Unidos que tem a ver com a fundação do país e nunca desapareceu. Os americanos são tão puritanos! Isso é muito stressante e embaraçoso. Ignorar o desejo é louco. O desejo é o grande motor da humanidade.”

Voltamos à geografia inicial, ao Novo México. A conversa faz-se com um fuso de sete horas de diferença, na última semana da residência de Carmen Maria Machado. “Estou a trabalhar numa memória, terminei outra versão. É sobre violência doméstica em relações homossexuais, é em parte memória pessoal e parte uma exploração dessa violência na arte, uma autobiografia com elementos ensaísticos”, revela. O livro irá sair no Outono de 2019, chama-se In The Dream House. “Quando terminar não quero voltar a escrever um livro de não-ficção. Não é nada divertido. A ficção pode ser muito lúdica, mesmo quando é negra; este projecto tem sido muito difícil. Estou ansiosa para que termine.” Ponto final, ou seja, gargalhada.