Crítica

O sexo (também) é o que é

Prazer, desejo, dor. O corpo representa um conjunto de sensações que Carmen Maria Machado explora sem eufemismos no seu livro de estreia. O Corpo Dela e Outras Partes é gótico, ficção científica, horror, fantasia e erotismo. É a vida.

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Tom Storm Photography

Dois homens e uma mulher numa sala de partos e um parto difícil. Um dos homens é o marido e o outro o médico. A mulher grita de dor, o nascimento rasgou-lhe o corpo, os dois homens sabem dos efeitos do rasgão e ela é uma solitária naquele quadro de cumplicidade masculina. “Quanto quer para dar o tal ponto adicional?”, pergunta ao médico o marido da mulher deitada na cama quando o médico a está a coser. O médico ri. O marido sai e ela, por fim, recupera consciência. “Já está cosida, não se preocupe – diz ele. – Bem apertadinha, assim toda a gente fica satisfeita.” Estamos no primeiro conto do livro de estreia de Carmen Maria Machado. O nome pode não dizer muito aos leitores portugueses. Ainda.

Nos Estados Unidos e em todo o mundo inglês ela é vista como uma das vozes mais audazes e criativas da sua geração. Muitos dos seus textos críticos e ensaísticos estão publicados nalgumas das principais revistas e jornais americanos. Todos com o tom certeiro, voz bem audível, pensamento rápido, capacidade de juntar os universos mais ancestrais com a urgência do mundo contemporâneo. O livro chama-se O Corpo Dela e Outras Histórias (tradução muito livre e um pouco limitada do original, Her Body and Other Parties) e valeu-lhe a nomeação para numerosos prémios, entre eles o National Book Award, e o conto de abertura tem como título O Ponto do Marido e congrega muitos dos elementos que tornam única a escrita desta americana de 32 anos, filha de imigrantes austríacos e cubanos, que nasceu e passou a infância na Pensilvânia, uma voz literária ousada a desafiar fronteiras entre géneros, grande preocupação formal e uma temática que parece ajustar-se na perfeição a estes tempos: abuso sexual, violência sobre o corpo feminino, morte, doença. O corpo como fonte de dor e de prazer, de poder e de submissão, um poderoso manifesto em simultâneo físico e político.

“Esta pode não ser a versão da história que vocês conhecem. Mas garanto-vos que é aquela que precisam de conhecer”, lê-se ainda neste conto, uma interpretação muito pessoal de uma lenda popular, The Green Ribbon, que conheceu muitas versões; entre as mais célebres, estão a de Washington Irving e a do nova-iorquino Alvin Schwartz que faz parte do volume In a Dark Room and Other Scary Stories, que adapta para crianças histórias de horror. Machado apropria-se desse imaginário e devolve-o num conto com elementos de ficção científica, erotismo, realismo mágico, um gótico que remete para a época vitoriana com ecos muito contemporâneos. O corpo da protagonista não “pode albergar outra criança” e ela quase sente culpa. Mas ela não é totalmente submissa. É audaz para a sua geração. “Não é normal uma rapariga ensinar o seu rapaz, mas eu estou apenas a mostrar-lhe o que quero, o que se desenrola dentro das minhas pálpebras, enquanto adormeço. Ele acaba por conhecer o tremeluzir da minha expressão, quando um desejo e perpassa, e eu não lhe escondo nada.”

Carmen escreve e vai dando pautas de leitura aos seus leitores, criando com eles uma relação de intimidade que contrasta com um interdito sempre subjacente, qualquer coisa de inalcançável, o espaço de liberdade que a autora deixa a cada um. Todos somos cúmplices daquela mulher, a protagonista, que tem um segredo, a única coisa que não partilha com ninguém e que ninguém – leia-se os homens da sua vida – não querem respeitar.

Os sete contos que se seguem são diferentes na forma, uns mais e outros menos contaminados pela ficção científica, pela fantasia, pela linguagem das redes sociais ou da televisão; todos carregam uma espécie de ancestralidade no modo como tratam temas e medos de sempre. Epidemias, o desaparecimento, o luto. Em todos o sexo aparece como uma coisa da vida, romântico ou violento, circunstancial ou planeado, apaixonado ou banal. E descrito sem subterfúgios ou eufemismos. E em todas as histórias Machado parece comprometer-se apenas com a sua intenção.

Comparam-na com a inglesa Angela Carter ou Helen Oyeyemi, outra contista, também inglesa, de origem nigeriana, da geração de Carmen Maria Machado. Ela não contesta comparações, mas basta um conto seu para perceber que se está num universo muito particular, um mundo estranho que pode causar algumas reservas, até se perceber ser fruto de uma grande vontade de liberdade no modo como narra e desencadeia um processo de reflexão acerca do que é ter um corpo neste início de século XXI. Na América e no mundo.