Cancro da mama: partilhar a história é importante, mas cada caso é um caso

É preciso dizer cancro "com as suas seis letras", e as figuras públicas que enfrentam e falam da doença, como Bárbara Guimarães, podem ajudar muitas pessoas a perceber que não estão sozinhas. Mas também é preciso não esquecer que “não há duas doentes” iguais, dizem ao PÚBLICO dois médicos oncologistas.

Foto
Nuno Ferreira Santos

Qual o efeito da partilha de um testemunho de cancro da mama por uma figura pública? Esta sexta-feira, a apresentadora de televisão Bárbara Guimarães revelou através das redes sociais que está a combater uma doença que todos os anos é diagnosticada a cerca de 6000 mulheres (e 60 homens) em Portugal. Os médicos ouvidos pelo PÚBLICO afirmam que “saber que não são as únicas” é importante para as doentes, mas que é necessário compreender que “cada caso é um caso” e que “não há duas doentes com cancro igual”, como explica Noémia Afonso, médica do Centro Hospitalar do Porto (CHP), no hospital Santo António.

“Tenho cancro da mama”, anunciou a apresentadora de 45 anos numa publicação no Instagram, acrescentando que foi “submetida com sucesso” a uma cirurgia, agradecendo o apoio recebido e pedindo respeito pela sua privacidade.

Há muito que o diagnóstico de cancro da mama deixou de equivaler a uma sentença de morte e os números mostram-no. Em Portugal, a taxa de sobrevivência cinco anos após o diagnóstico ronda os 80%, em linha com a média europeia. No entanto, não deixa de atingir um grande número de mulheres — uma em cada sete enfrentará um diagnóstico de cancro da mama ao longo da vida, refere Noémia Afonso.

O pico de incidência regista-se entre mulheres com mais de 55 anos. “Por isso é que o rastreio começa aos 45”, lembra a médica do Porto. Junto de mulheres mais jovens, o diagnóstico é menos frequente, mas não inexistente: cerca de 10% dos casos são detectados em mulheres com menos de 40 anos.

O papel das celebridades, das telenovelas e dos jornalistas

Nuno Miranda, coordenador do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas e clínico do Instituto Português de Oncologia de Lisboa, considera “essencial” que figuras públicas falem das suas histórias de luta contra o cancro.

“Elimina alguma sensação de injustiça que a doença oncológica dá. Afinal não sou só eu. Há mais gente”, diz ao PÚBLICO. “O papel das figuras públicas facilita a aceitação, a capacidade de falar com outros sobre a doença, elimina o sentimento de vergonha de ter um diagnóstico de doença oncológica”, defende.

O médico assinala ainda o efeito positivo de algumas mudanças registadas no espaço mediático. Por exemplo, a introdução nas telenovelas de personagens com cancro: “Se numa telenovela alguém aparece a sofrer de cancro da mama é uma coisa importante. Porque obriga as pessoas a falar sobre o assunto. E a principal arma de combate ao cancro é a informação”.

Aos jornalistas, Miranda pede ainda que se abandone a expressão “doença prolongada” e que se refira a doença pelo seu nome: “Temos de ouvir a palavra com as suas seis letras: cancro. Queremos encará-la de frente”.

Noémia Afonso concorda que “há sempre o lado benéfico de pensar que não sou a única”, e que “partilhar a história é importante”. No entanto, sublinha que não se pode “comparar o que não é comparável”.

“Não há duas doentes com cancro da mama completamente iguais. Há que explicar que cada caso é um caso”, explica. Existem diferentes tipos de tumores e cada doente responde de forma diferente às várias terapias utilizadas para combater o cancro.

A médica do Centro Hospitalar do Porto sublinha ainda a necessidade de um equilíbrio entre estar alerta para a doença e ter boa informação sobre a mesma. Na Internet, refere, existe “boa e má informação, excelente e péssima informação, tudo misturado”, e o doente “não tem filtro” para a distinguir.

Do mesmo modo, Noémia Afonso não recomenda o auto-exame como método primário de rastreio. “Às vezes as mulheres sentem alterações que não têm importância”, o que está na origem de situações de grande ansiedade que podem não ter justificação.

No entanto, a médica do CHP sublinha que há sintomas que devem motivar uma ida ao médico: mudanças visíveis na pele como vermelhidão, aspecto “casca de laranja”, dor, escorrência pelo mamilo ou a existência de um nódulo palpável. Estes sintomas não implicam necessariamente um diagnóstico de cancro, mas devem ser investigados.

A vigilância é a melhor arma

Em Portugal, o rastreio de cancro da mama começa aos 45 anos e implica a realização de mamografias de dois em dois anos. Segundo Nuno Miranda, o rastreio levou a uma diminuição da mortalidade de cancro da mama em 20%, ao facilitar um diagnóstico da doença num estádio muito inicial, facilitando o tratamento e evitando a sua progressão para uma fase potencialmente fatal.

O programa funciona “muito bem”, segundo Noémia Afonso, com carrinhas da Liga Portuguesa Contra o Cancro a chegarem às populações mais isoladas. A taxa de cobertura é de “100% ou quase” no Norte do país, sendo um pouco menor no Sul.

A vigilância acaba por ser mais importante do que a prevenção, já que existem vários factores de risco que não podem ser controlados: “nascer mulher, envelhecer [porque à medida que envelhecemos o risco aumenta], ser portadora de uma mutação BRCA [um factor hereditário]”, enuncia a médica do CHP. Mas também “factores hormonais como menstruar mais cedo ou ter a menopausa mais tarde aumenta o risco”, assim como “não ter filhos”.

Adoptar um estilo de vida saudável — como ter uma boa alimentação e praticar exercício físico — é sempre “bom”, mas não garante por si só uma vida livre de cancro da mama, apesar de se reconhecer que a obesidade poder aumentar “um bocadinho” o risco da doença, como nota Nuno Miranda.

Por outro lado, existem “factores evitáveis” de risco como “o uso de contraceptivos orais” e o uso de “terapêutica hormonal” (estrogénios).

Perante a conjugação de todos estes factores, Noémia Afonso afirma que é importante que uma doente saiba que “não é a primeira nem a última a passar por isto”. E termina com uma nota de esperança: “A mensagem positiva deve passar mais do que a negativa. As doentes lembram-se mais dos casos que correram mal e esquecem-se dos múltiplos casos que correram bem”.