É todo-o-terreno e só para crianças. Com esta cadeira, Manuel já vai à praia

A Associação More Moving Moments foi criada por pais que não aceitaram deixar o filho em casa nos dias de praia. Encontraram uma cadeira especial nos EUA e hoje já há nove praias em Portugal que a têm.

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Nuno Ferreira Santos
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Nos dias de praia, Manuel costumava ir ao colo dos pais. Ainda relativamente pequeno, até aos cinco anos, a logística não era impossível, apesar de complicada.

Cresceu e, a dada altura, no ano passado, antes do Verão, os pais Rita Veloso Mendes e Carlos Machado Silva foram informar-se junto de fisioterapeutas sobre o que poderiam fazer para ir à praia em família. Manuel não tem mobilidade. “Disseram-nos que a adaptação teria de ser deixar de fazer praia”, conta a mãe de 39 anos. “É uma perda de autonomia gigante”, completa o pai Carlos Machado Silva, 42 anos.

Em pleno areal do Tamariz, no Estoril, cheiíssimo de crianças e adultos, Rita Veloso Mendes conta ao PÚBLICO que não aceitou a resposta. “Como é possível?”, interrogou-se na altura. “Isto não vai resultar connosco. Alguma vez vou deixar de ir à praia ou deixá-lo em casa?”

Depois de uma pesquisa pela Internet, Rita e Carlos encontraram uma organização chamada Stepping Stones for Stella, projecto norte-americano que partiu da mesma necessidade — foi o avô de uma menina chamada Stella que desenvolveu o protótipo de uma cadeira de rodas de praia especificamente para crianças, com mobilidade fácil na areia, rodas todo-o-terreno, material impermeável. Contactaram a organização, mandaram vir a cadeira e no Verão passado conseguiram fazer uma vida normal. “Uma família com uma criança como Manuel o que mais tem são obstáculos”, explica Rita Veloso Mendes.

Depois de uma gravidez e parto normais, aos seis meses de vida da criança a mãe começou a perceber que algo não estava bem. Só por volta dos dois é que seria “hasteada a bandeira do atraso”, diz. “Têm sido vários despistes, mas infelizmente ainda há coisas que não se conseguem identificar.” Manuel, hoje com sete anos, continua sem diagnóstico.

Lá ao fundo, junto à beira-mar, brinca agora dentro de água, orientado pelo pai.

A cadeira permite a Manuel molhar-se no mar, passear pela praia, acompanhar a irmã nos passeios pelas rochas, irem os quatro ao mesmo tempo ao café, jogar raquetes, entre tantas outras coisas. “Dá outra dignidade. Já viu o que é andar com um rapagão destes ao colo?”, pergunta a mãe.

Este será o segundo Verão em que usam a cadeira, essencialmente amarela, adaptada ao corpo de um rapaz de sete anos. O custo, porém, não é acessível a todos.

Apesar de o modelo da Stepping Stones for Stella passar pela doação, a maior despesa está no transporte — trazê-la para Portugal foi mais do dobro do custo de produção, estimado em pouco mais de 400 euros.

Foi então natural pensar no passo seguinte. “Sentimos uma obrigação para com os outros pais que têm crianças com dificuldade de mobilidade e criámos a associação para partilhar esta solução. Não queria que mais nenhuma mãe ouvisse a resposta que eu ouvi. É horrível.”

Reuniram-se ao jantar com amigos que têm apoiado a família, arranjaram os outros corpos constituintes da associação, fizeram um site, desenharam panfletos.

A 25 de Janeiro de 2018 estava criada a Associação More Moving Moments, presidida por Rita Veloso Mendes, assessora do conselho de administração da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, com Carlos Machado Silva, consultor de profissão, como primeiro secretário da assembleia geral.

Chegar a mais praias

Conseguiram depois o apoio financeiro para trazer as cadeiras, uma companhia de seguros e um banco associaram-se ao projecto. O objectivo: incentivar as famílias com filhos com problemas de mobilidade a perderem o medo de ir à praia.

Assim, formalmente, as cadeiras iguais à do Manuel estão em nove praias desde o dia 1 de Agosto: praia do Ouro (Sesimbra), do Tamariz, da Poça, das Moitas (em Cascais), de São Lourenço e Foz do Lizandro (em Mafra), da Comporta e de Tróia (em Grândola) e das Maçãs (em Sintra).

São as autarquias que “tomam conta” delas. Na praia do Tamariz, onde está disponível há pouco mais de uma semana, ainda não tinha sido requisitada. 

A escolha foi feita a partir de uma base de dados com as praias acessíveis (segundo o Instituto Nacional para a Reabilitação, as que têm balneários, passadiço com acesso ao areal, lugares de estacionamento próprios...). Depois escolheram algumas das que já têm veículos anfíbios para adultos com acesso ao mar, as cadeiras chamadas “tiralô”, isto porque queriam ter o apoio que já existe dos nadadores-salvadores. Mas não querem ficar por aqui. A médio e longo prazo a intenção é tê-las em todas as praias. 

Em Portugal, o modelo da associação norte-americana de doar uma cadeira por família “não funciona tão bem”. A cadeira não se desmonta, “a única coisa que sai são as rodas”, por isso é mais prático tê-la nas praias.

No futuro, Rita e Carlos querem passar a produzir as cadeiras em Portugal, já têm um acordo com a associação americana para fazer um protocolo de cedência do modelo. A ideia é ainda apostar num tamanho acima daquele que têm porque este modelo só suporta até 27 quilos — para isso têm planos de desenvolver um projecto com universidades para se responsabilizarem pela sua concepção. 

Manuel frequenta uma escola de ensino integrado, o Externato Grão Vasco. Este ano, segundo a mãe, a cadeira permitiu que, pela primeira vez, levassem à praia um dos meninos da escola que não tem mobilidade.